AgroReview

§ AgroReview · Edição #39 · 3 de novembro de 2026

Onde a sua operação começa e termina

“Antes de erguer um muro, eu perguntaria o que estou cercando para dentro e o que estou cercando para fora.”

— Robert Frost, Mending Wall, 1914

Na edição passada, perguntamos o que acontece quando ninguém está olhando. Hoje, a pergunta é sobre limites: onde a sua operação começa e onde ela termina?

Três notícias da última semana respondem de jeitos diferentes. Na Europa, quem controlava o freezer era o acesso remoto deixado aberto para a manutenção. Em Santa Catarina, o Brasil conseguiu provar que um foco de doença estava em uma região só, e o resto do país continuou exportando. E, no campo sem torre, o celular passou a ter sinal pelo satélite.

Quem sabe exatamente onde fica o próprio limite se protege melhor, prova mais rápido e enxerga mais longe.

§ O que realmente importa

O ataque às geladeiras voltou, em nove países, e já chegou a uma fábrica

O que aconteceu

Na madrugada de 1º para 2 de novembro, três semanas depois do ataque às redes francesas, supermercados de pelo menos nove países europeus relataram problemas nos sistemas de refrigeração: Suécia, Bélgica, Irlanda, Itália, Portugal, Finlândia, Estônia, Luxemburgo e Países Baixos. Na Bélgica, foram cerca de 40 lojas Delhaize, 15 Carrefour e 5 Spar. Na Irlanda, a atacadista Musgrave esvaziou os congelados de 13 lojas. Na Suécia, freezers chegaram a 50 °C. O método é o mesmo de outubro: os equipamentos são postos remotamente em modo de degelo até o alimento estragar. Na França, a ANSSI, a agência nacional de cibersegurança, já tinha apontado controladores de três fabricantes, Danfoss, Copeland e Dixell, muitos deles antigos e sem atualização de segurança. Na Itália, a agência nacional de cibersegurança recebeu a notificação de uma empresa de alimentação coletiva da Toscana e identificou, ainda sem notificação formal, um ataque a uma fabricante de congelados da Emília-Romanha. Christophe Hansen, comissário europeu de Agricultura, chamou os ataques de "uma tentativa deliberada de interromper a nossa cadeia de abastecimento alimentar". Ninguém assumiu a autoria.

Por que isso importa

Em outubro, era um problema de varejo francês. Agora são nove países, e o caso italiano mostra que a indústria também está na lista. Dois detalhes explicam por onde o atacante entra. A empresa de segurança Lupovis registrou, entre 20 e 30 de outubro, tentativas de acesso a controladores Danfoss com a senha que vem de fábrica. E a Forescout constatou que os próprios fornecedores pedem acesso pela internet para instalar e fazer manutenção. A porta foi aberta para o técnico, e ninguém lembrou de fechar. Câmara fria, túnel de congelamento, armazém refrigerado: no frigorífico, na indústria de laticínios e na distribuição, esses controladores costumam ficar fora do inventário de TI, porque são vistos como equipamento, não como sistema.

O que observar

o que a Comissão Europeia decidir depois de levar o tema ao Security College, o colegiado de segurança dos comissários + algum caso fora da Europa + e uma pergunta para a manutenção, não só para a TI: quantos equipamentos de refrigeração da empresa podem ser acessados de fora hoje, por quem, e com qual senha?

Newcastle em Santa Catarina: a fronteira que o Brasil conseguiu provar

O que aconteceu

Em 18 de outubro, o Ministério da Agricultura confirmou a doença de Newcastle, uma infecção viral das aves, em uma granja de perus de Nova Itaberaba, no oeste catarinense. As aves não tinham sintomas: o vírus foi achado pela vigilância ativa, em amostras coletadas no fim de setembro, e o sequenciamento genético decidiu o diagnóstico. Vieram mais dois focos, em Coronel Freitas (24/10) e Nova Erechim (27/10), e a emergência sanitária de 60 dias cobre quatro municípios. O protocolo com a China prevê que o Brasil suspenda sozinho as exportações nesses casos. O governo enviou documentos em 19 de outubro pedindo que o bloqueio não fosse nacional, e a China limitou a suspensão a Santa Catarina: 14 dos 61 estabelecimentos habilitados. Arábia Saudita e Chile também restringiram só produtos catarinenses. México e Malásia suspenderam determinados produtos avícolas do Brasil inteiro. Segundo o consultor Rodrigo Dutra, ouvido pela CNN, os mercados afetados somam cerca de 46 mil toneladas por mês, perto de 10% dos embarques de produtos avícolas. A origem da contaminação ainda está em investigação.

Por que isso importa

O nome técnico disso é regionalização: o comprador aceita bloquear só a área afetada, desde que o país prove onde o problema está e onde não está. A prova começou antes de qualquer ave adoecer, na vigilância e no laboratório. Do lado da indústria, a MBRF redirecionou pedidos de exportação para unidades do Paraná e do Rio Grande do Sul, segundo a CNN. Isso só funciona se a empresa souber, lote a lote, de que granja e de que estado veio cada produto. Nas últimas edições, falamos da prova que a Europa e a China exigiram da carne. Desta vez, foi essa prova que manteve o resto do país exportando.

O que observar

se aparecem novos focos, o que prolongaria as restrições + o pedido do Brasil à OMSA, a Organização Mundial de Saúde Animal, para encurtar o prazo de 90 dias até recuperar o status de livre da doença + e, dentro de casa: se um foco aparecer amanhã perto de um fornecedor seu, em quantas horas você consegue mostrar quais lotes vieram de lá?

O celular passou a ter sinal pelo satélite onde não há torre

O que aconteceu

Em 26 de outubro, a Vivo lançou o Vivo Satélite, em parceria com a Starlink. É a primeira oferta do tipo no país, sob a autorização experimental da Anatel que vale até abril de 2029. O celular comum se conecta direto ao satélite, sem antena nem aparelho extra, quando não há sinal convencional. Funciona para mensagem e áudio no WhatsApp, chamada por aplicativo, SMS e mapas. Não serve para navegar na internet nem para vídeo. Precisa de céu aberto, aparelho compatível e roaming de dados ligado. Para clientes pessoa física de planos elegíveis, fica sem custo por 12 meses, e a Vivo não divulgou o preço depois disso. Claro e TIM fazem testes com outra empresa de satélite, a AST SpaceMobile.

Por que isso importa

Na #36, falamos da regra da Anatel que abria essa porta. Agora há um produto. Não é internet no talhão e não resolve a telemetria da máquina. Mas muda uma coisa simples: o operador, o motorista e o técnico de campo passam a conseguir mandar uma mensagem, um áudio ou uma localização de onde antes ficavam isolados. Isso conta para a segurança de quem trabalha sozinho, para avisar uma quebra e para registrar uma ocorrência na hora. E coloca uma pergunta para quem planeja conectividade: qual parte da área precisa de dado, e qual parte só precisa de mensagem? As duas têm custos muito diferentes.

O que observar

o preço depois dos 12 meses e a condição para empresas + a lista de aparelhos compatíveis frente aos celulares que a empresa entrega ao time de campo + e se Claro e TIM transformam os testes em oferta.

§ Radar de mercado

Dólar no maior fechamento do ano

Em 30 de outubro, o dólar à vista fechou a R$ 5,4460, com alta de 9,15% na semana seguinte ao segundo turno. A receita em reais de quem exporta sobe, e o insumo importado fica mais caro.

Terra / Reuters — dólar fecha no maior valor do ano ↗

Boi gordo no maior valor da série do Cepea

O indicador do Cepea, o centro de estudos da Esalq/USP que é referência de preço para o setor, chegou a R$ 389,90 por arroba em 30 de outubro, alta de 22,1% no ano. O contrato futuro de novembro na B3 fechou o mês a R$ 407,10. O Cepea atribui a alta à oferta de animais prontos para abate abaixo da demanda.

FarmNews — preço do boi gordo renova máxima em 2026 ↗

MP das dívidas rurais perde a validade em 11 de novembro

Até 26 de outubro, a renegociação da MP 1.376 somava cerca de R$ 14,3 bilhões contratados, segundo o Banco Central, contra uma previsão de cerca de R$ 100 bilhões da Fazenda. A comissão mista ainda não votou o texto, e a Frente Parlamentar da Agropecuária aponta a exigência de garantias como freio à adesão.

Piumhi Notícias — FPA articula para acelerar votação da MP ↗

Fundo Verde do Clima aprova US$ 300 milhões para o Brasil

É o primeiro projeto aprovado pelo fundo por meio de uma entidade brasileira, o BNDES. Um dos veículos, gerido pela Brookfield, mira renováveis, baterias, combustíveis de resíduos e hidrogênio de baixo carbono.

RuraltecTV — manchetes da semana ↗

§ Mundo Tech

O modelo mais forte do Google chegou primeiro para quem faz defesa

Em 28 de outubro, o Google lançou o Gemini 4 Carbon, que estreou em primeiro lugar no índice de inteligência da Artificial Analysis, uma das principais comparações independentes de modelos. Mas o acesso começou só por quem faz defesa cibernética, pelo programa Fairwind, que tem mais de 650 parceiros e prioriza governos, operadores de infraestrutura crítica e grandes plataformas de tecnologia. Desenvolvedores, empresas e consumidores ficam para depois, sem data. Os termos do programa não são públicos.

Não é a primeira vez que um laboratório segura um modelo por causa do que ele faz em segurança: já falamos aqui do Claude Mythos e da versão limitada do GPT-6 Astra. O padrão está ficando claro: quem defende infraestrutura recebe a ferramenta antes. Para o agro, a pergunta prática é se o fornecedor que cuida da sua segurança está em alguma dessas listas, porque a sua empresa, sozinha, provavelmente não está.

Um banco contou quantos agentes de IA os funcionários usam: 12.700

No resultado do terceiro trimestre, divulgado em 28 de outubro, o UBS informou que os funcionários usam mais de 12.700 agentes de IA pessoais. O banco tem 608 usos de IA em produção, 81% a mais que um ano antes, e mais de 1.090 em desenvolvimento. O número conta agentes, não pessoas, e o banco não detalhou quantos funcionários os usam nem que controles se aplicam.

O que chama atenção é a métrica. O banco não fala em pilotos, fala em usos em produção, e conta os que estão na fila. Para quem lidera tecnologia numa agroindústria, é uma forma simples de mostrar à diretoria onde a IA está de verdade: quantos usos estão rodando, quantos estão em teste e quantos ainda são ideia.

§ Sinal fraco

O número que a IA cita e ninguém consegue rastrear

A Trakkr, empresa que monitora como as marcas aparecem nas respostas de IA, publicou em 28 de outubro um estudo que vale para qualquer executivo que pede um número a um assistente. Ela fez 200 perguntas a cinco assistentes (ChatGPT, Perplexity, Gemini, Claude e as respostas de IA da busca do Google) e seguiu 1.285 estatísticas citadas até a origem. Só 40% chegaram a um estudo que dizia a mesma coisa. Outros 8% chegaram à fonte com o número ou o contexto alterado.

Os exemplos são conhecidos. O famoso "95% dos pilotos de IA generativa não dão retorno" vem de um relatório do MIT que fala de 95% das organizações, o que não é a mesma coisa. Mais da metade das primeiras citações eram blogs de empresas. E concordância não é prova: quatro números citados pelos cinco assistentes não tinham nenhum estudo por trás. O estudo foi feito num único dia e por API, e os próprios autores apontam esse limite.

O sinal está na rotina. O número que entra na apresentação para a diretoria, no argumento do fornecedor e na justificativa de um investimento passa cada vez mais por um assistente de IA. A pergunta "de onde vem esse número?" volta a valer dinheiro. E quem tem pesquisa própria, com base declarada, passa a ter uma vantagem difícil de copiar.

§ Gatua Context

"O óbvio precisa ser falado muitas vezes."

Esta edição falou de limites. Na quinta passada, publicamos no YouTube uma conversa sobre um limite que todo líder de tecnologia conhece: o que separa a área técnica da diretoria.

Gravada no Estúdio Gatua Digital, durante o Campo Inteligente, ela traz Fabio Romagnoli, que lidera IA e automação na Usina São Manoel, com Andrea Dias. Quando a Andrea perguntou como uma proposta de tecnologia chega do jeito certo à mesa da diretoria, ele respondeu pelo lado de quem propõe. Quem está na área técnica vê cada passo como natural. Mas a alta direção muitas vezes não sabe o que aquilo está atrapalhando de fato na operação.

Por isso, para ele, a proposta precisa dizer qual problema resolve e o que muda na vida das pessoas na empresa. "O que exatamente vai mudar, e não a ferramenta em si." Ele também fala da segunda pergunta que um ROI precisa aguentar: o risco que vem junto e aquilo de que se abre mão. E deixa um recado para quem vende tecnologia ao agro: aqui é ver para crer.

Campo Inteligente powered by Guardian Digital.

Assistir ao episódio no YouTube

Em 12 de novembro, a conversa vai do campo para a planta

No Dabi Business Park, em Ribeirão Preto, o Gatua Meeting Indústria Inteligente pergunta: onde o dado da planta para, antes de virar decisão?

Quem é da Comunidade Gatua entra sem custo. Os ingressos e as condições estão na página do evento.

Conhecer o Indústria Inteligente

Um freezer esquentou porque a porta da manutenção ficou aberta. Um foco de doença ficou dentro de um estado porque o país conseguiu provar onde ele estava. E um sinal de celular passou a chegar onde a torre nunca chegou.

Robert Frost escreveu sobre dois vizinhos consertando o muro entre as fazendas. Antes de erguer, ou de abrir, vale saber o que fica dentro e o que fica fora.

Bruno BarrosCEO, Gatua

§ Comece de leve

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