AgroReview

§ AgroReview · Edição #36 · 13 de outubro de 2026

A máquina chegou antes do manual

“As coisas que precisamos aprender antes de fazer, aprendemos fazendo.”

— Aristóteles, Ética a Nicômaco, Livro II

Esta edição chega na terça, por causa do feriado de ontem.

Nas últimas semanas, falamos muito de cota, tarifa e prazo de exportação. Hoje a pauta é outra. Na última semana, três notícias diferentes mostraram a mesma coisa: a tecnologia está chegando mais rápido do que a nossa capacidade de operá-la e de vigiá-la.

Na França, centenas de supermercados perderam a comida das geladeiras porque um sistema conectado à internet estava desatualizado. No Brasil, o campo já tem dezenas de milhares de drones e quase nenhum piloto qualificado para contratar. E, em Nova York, as maiores empresas de IA do mundo disseram, sob juramento, que não conseguem garantir que seus agentes sempre vão obedecer às regras.

Nenhuma dessas histórias é sobre a máquina falhar. Todas são sobre o que vem depois da compra.

§ O que realmente importa

Hackers esquentaram as geladeiras de centenas de supermercados franceses a 50 °C. Ninguém roubou um dado

O que aconteceu

Na noite de 11 para 12 de outubro, atacantes tomaram o controle remoto dos sistemas de refrigeração de centenas de lojas na França, entre 250 e 350 segundo o BleepingComputer, de redes como Intermarché, Coopérative U, Carrefour, Monoprix e E.Leclerc. Eles não roubaram informação. Usaram os controladores da dinamarquesa Danfoss, que rodavam versões antigas do software, para acionar o degelo automático dos equipamentos e mantê-lo ligado. Algumas unidades chegaram a 50 °C, e houve princípio de incêndio. O alimento fresco e congelado foi descartado. O presidente do Intermarché falou à BFM TV em perdas de "dezenas de milhões de euros" num único dia, e uma só loja Leclerc, na Alsácia, jogou fora € 220 mil em produtos. As duas falhas que provavelmente foram exploradas eram conhecidas: a agência americana de cibersegurança (CISA) alertou sobre elas em maio e agosto de 2025. Na segunda-feira, um pesquisador encontrou 2.752 sistemas Danfoss expostos na internet, 1.590 deles na França. O governo francês disse que deixar a interface de gestão desses equipamentos acessível pela internet é "contrário às boas práticas", e a ANSSI, a agência de cibersegurança do país, investiga. Há relatos de lojas afetadas também na Espanha, em Portugal, na Polônia, na Alemanha e na Bélgica.

Por que isso importa

Quando se fala em ataque cibernético, a imagem é de dado sequestrado e servidor parado. Este foi diferente: o atacante mudou uma variável física, a temperatura, e o prejuízo apareceu na câmara fria, não no sistema. Frigorífico, cooperativa de laticínios, usina e indústria de suco operam com o mesmo tipo de equipamento: controladores de câmara fria, de caldeira, de balança, de moenda, muitos com acesso remoto para o fornecedor fazer manutenção. O Intermarché disse que o ataque teria atingido um prestador de serviço que gerencia a refrigeração das lojas. Ou seja: a porta não era da TI do supermercado, era do contrato de manutenção. E a falha estava publicada havia mais de um ano. O que derrubou centenas de lojas não foi uma técnica nova. Foi um equipamento que ninguém estava olhando.

O que observar

a conclusão da ANSSI sobre como os atacantes entraram + se outros fabricantes de controladores industriais aparecem na investigação + e, dentro de casa, uma pergunta simples para a próxima reunião com a TI e a manutenção: quais equipamentos da planta respondem a alguém de fora, e quem tem a senha?

O Brasil tem mais de 60 mil drones agrícolas. 85% das empresas não acham quem pilote

O que aconteceu

Um levantamento do Sindag (o sindicato nacional das empresas de aviação agrícola) com mais de 40 empresas, divulgado em 2 de outubro, mostrou que 85% delas não encontram piloto qualificado para operar drone agrícola. O descompasso com a frota é grande. O cadastro da Anac (a agência de aviação civil) tem pouco mais de 13 mil drones declarados para atividade aeroagrícola. Estimativas privadas falam em mais de 60 mil em operação e 115 mil até 2030. O equipamento também mudou de escala: em 2015, um drone que levava 10 litros era considerado grande, e hoje há modelos que carregam 300 litros. A regra do Ministério da Agricultura para aplicação com drone, a Portaria 298, de 2021, está em revisão desde março de 2025, com conclusão prevista para o primeiro semestre de 2026, e não há notícia de texto novo. O diretor operacional do Sindag, Cláudio Oliveira, cobra mais investimento público na qualificação de operadores.

Por que isso importa

É o mesmo padrão da França, visto pelo lado de dentro. A tecnologia foi comprada mais rápido do que se formou gente e se escreveu regra para ela. Para a usina, a cooperativa ou o grupo que contrata aplicação por drone, isso tem três consequências práticas. A primeira é de qualidade: um drone de 300 litros operado por quem aprendeu no improviso é uma aplicação de defensivo sem garantia de dose e de deriva. A segunda é de conformidade: se só um em cada quatro ou cinco equipamentos aparece no cadastro oficial, vale perguntar ao prestador se o drone que vai voar na sua área é um dos que aparecem. A terceira é de planejamento: quando a revisão da portaria sair, a régua sobe para todo mundo ao mesmo tempo, e quem já estiver regular sai na frente.

O que observar

a publicação da nova Portaria 298 + o número oficial da frota, que o Sindag tenta medir cruzando o cadastro da Anac com os dados de importação + se usinas e cooperativas passam a exigir registro e qualificação do piloto no contrato de aplicação.

Uma trading japonesa que movimenta até 4 milhões de toneladas foi comprar grão pelo aplicativo

O que aconteceu

A Marubeni Grãos Brasil, braço comercial da japonesa Marubeni no país, fechou parceria com a agtech Grão Direto para digitalizar a compra de soja e milho e a relação com o produtor. A operação brasileira da trading movimenta entre 3 e 4 milhões de toneladas de grãos por ano e faturou R$ 2,6 bilhões em 2024. A plataforma negociou 12 milhões de toneladas no último ano, com volume 12 vezes maior entre 2021 e 2025, e tem como acionistas minoritários Amaggi, ADM, Cargill e LDC, que entraram juntas numa rodada de R$ 40 milhões em 2022.

Por que isso importa

Quando quatro das maiores tradings do país viram sócias da mesma plataforma, e uma quinta passa a usá-la, o canal digital deixou de ser aposta e virou infraestrutura de originação. Para quem compra grão para processar, como esmagadoras, usinas de etanol de milho e fábricas de ração, o produtor passa a comparar oferta na tela, com mais compradores visíveis ao mesmo tempo. O relacionamento continua importando, mas o preço e o prazo ficam mais transparentes para o outro lado da mesa. E o dado da negociação, que antes ficava no caderno do originador, passa a existir em sistema, o que muda o que dá para medir na própria compra.

O que observar

se outras tradings de porte médio seguem o mesmo caminho + se as agroindústrias compradoras de milho para etanol começam a originar por plataforma + quanto do volume digital vira contrato com entrega futura, e não só venda à vista.

§ Radar de mercado

Conab abre a safra 26/27 na quinta

Em 15 de outubro sai o primeiro levantamento da Conab para a safra de grãos 2026/27, o retrato inicial do ciclo que começou a ser plantado em setembro.

SAFRAS & Mercado — calendário de 12 a 16 de outubro ↗

Frango e mel: decisão técnica na Europa em 20 e 21 de outubro

É a data em que o comitê técnico europeu deve decidir sobre a volta dos dois produtos brasileiros ao bloco, como contamos na edição passada.

Tribuna do Sertão — UE sinaliza retomada de compras de frango e mel do Brasil ↗

Universo TOTVS começa hoje com trilha de agro

O evento da TOTVS, em 13 e 14 de outubro, em São Paulo, tem a IA aplicada à gestão no centro da programação e quatro sessões dedicadas ao agronegócio, incluindo um caso da Syngenta.

AgFeed — Universo TOTVS 2026 reforça aposta no agro ↗

§ Mundo Tech

Sob juramento, o Google contou três vezes em que seus agentes de IA saíram do ambiente de teste

Em 5 de outubro, representantes de OpenAI, Anthropic, Meta e Google depuseram sob juramento diante dos 51 vereadores da Câmara Municipal de Nova York. A presidente da Câmara, Julie Menin, pediu que cada empresa garantisse que seus agentes de IA sempre vão seguir as travas de segurança. Nenhuma garantiu. A representante da OpenAI disse que não é possível garantir que uma tecnologia seja livre de risco. E a do Google, Alice Friend, relatou três ocasiões em que agentes construídos sobre os sistemas da empresa saíram do ambiente controlado de teste e acessaram a internet real. Segundo ela, os agentes pararam assim que perceberam que estavam em sites reais, e o Google avisou os donos dos sites e as autoridades. A Câmara discute um pacote de projetos que inclui validação independente antes de liberar modelos mais poderosos, botão de desligamento operado por humanos e prazo de 24 a 72 horas para comunicar incidentes.

Não é motivo para pânico, e as próprias empresas foram transparentes. Mas é a confirmação, dada por quem constrói a tecnologia, de que o agente de IA precisa ser tratado como um operador novo, e não como um software comum: com limite do que pode acessar, registro do que fez e alguém responsável por desligá-lo. As três propostas de Nova York são, no fundo, um bom roteiro para a política interna de qualquer empresa que está colocando agentes para trabalhar.

O agente que opera a tela do sistema ficou até 90% mais barato

Em 7 de outubro, a Anthropic lançou o Claude Haiku 5.5, seu modelo pequeno, com preço de US$ 0,10 por milhão de tokens de entrada e US$ 0,50 de saída para pedidos de até 100 mil tokens, contra US$ 1 e US$ 5 do modelo anterior. Segundo a empresa, essa faixa cobre cerca de 90% dos pedidos. O dado que mais interessa a quem tem sistema antigo é outro: num teste de uso do computador (o modelo opera a tela, clica e preenche campos como uma pessoa faria), o novo modelo acertou 72,4% das tarefas, contra 15,7% do anterior. É um resultado divulgado pelo próprio fornecedor, não uma garantia de desempenho em qualquer aplicação.

Por que isso importa no agro: boa parte dos sistemas das usinas e cooperativas não tem uma forma moderna de conversar com outros sistemas, e a integração acaba sendo feita por alguém digitando de uma tela para outra. Um agente barato que sabe operar a tela muda a conta dessa integração. E traz de volta a pergunta do item anterior: o que ele pode acessar, e quem acompanha o que ele fez.

§ Sinal fraco

Em 22 de outubro, o celular pode começar a falar direto com o satélite

Passou quase sem ruído fora do setor de telecomunicações. Em agosto, a Anatel aprovou a ampliação do ambiente de testes para a conexão direta entre satélite e celular, conhecida como D2D (direct-to-device). A partir de 22 de outubro de 2026 e até abril de 2029, esse ambiente passa a permitir operação comercial, sem limite de número de aparelhos, antes mesmo de a regra definitiva estar pronta. O pedido de extensão foi da Telefônica Brasil, dona da Vivo.

O detalhe que importa: o celular comum, sem antena especial, se conecta ao satélite quando sai da área de cobertura, mantendo o mesmo número. E só operadoras com licença das frequências podem oferecer o serviço, o que significa que a empresa de satélite precisa de um acordo com Vivo, Claro ou TIM para chegar ao cliente. A decisão da Anatel não diz quando nem por quanto o serviço será vendido.

Para o agro, o ponto de partida é conhecido: segundo a ConectarAGRO, pouco mais de um terço da área produtiva do país tem 4G ou 5G. Parte das usinas e dos grupos resolveu o problema com torre e rede própria. O D2D não substitui essa rede, mas pode mudar o que acontece nos dois terços que ficam fora dela: o apontamento do operador, o alerta do motorista, o check-list de campo que hoje esperam o sinal para sair do aparelho. Vale perguntar desde já aos fornecedores dos aplicativos de campo como o sistema deles se comporta quando a conexão vai e volta.

§ Gatua Partners em Foco

Webtrac

Entre a fazenda e a indústria, a carga não pode mudar de peso

Esta edição falou de sistemas que ninguém estava olhando. O caso abaixo mostra o que acontece quando alguém passa a olhar.

Laranja sai da fazenda em caminhão de terceiros, rumo à indústria. Um cliente da Webtrac, Gatua Partner, passou a acompanhar esse trajeto com um rastreador portátil e praticamente eliminou a diferença de peso entre a saída da fazenda e a chegada à indústria. Os atrasos também caíram.

O monitoramento mostrou mais uma coisa: havia desvio de rota para fugir de pedágio, mesmo com o valor do pedágio já repassado ao motorista. Com o trajeto visível, esses desvios foram evitados.

A Webtrac publicou outros casos com o mesmo padrão:

  • Fertilizante desviado, carga recuperada: com controle de passagem por área e análise de rastros, um cliente recuperou os fertilizantes e evitou um prejuízo de aproximadamente R$ 70 mil.
  • Ração no cocho: câmeras passaram a acompanhar a distribuição de ração, com menos falhas e mais padrão na execução. As mesmas câmeras revelaram sinais de fadiga na condução, o que permitiu agir de forma preventiva.

Num desses casos, a própria Webtrac resume a ideia: quando você enxerga, você corrige.

Conheça os casos da Webtrac

A Webtrac é Gatua Partner, uma das empresas de tecnologia do nosso ecossistema que colocam conteúdo, gente e estrutura em cada entrega da Gatua ao longo do ano. Quando um Partner tem algo relevante para quem lê esta newsletter, ele aparece aqui. É assim que o ecossistema funciona nos dois sentidos.

§ Gatua Context

"Se falta gente, eu arrisco dizer que falta treinamento"

Esta edição falou de drone sem piloto, de geladeira que ninguém vigiava e de agente que sai do teste. Na semana passada publicamos no YouTube uma conversa que olha para o mesmo problema de dentro da usina.

Gravada no Estúdio Gatua Digital, durante o Campo Inteligente, ela reúne Márcio Venturelli, coordenador de tecnologia do Instituto SENAI de Tecnologia em Bioenergia, em Sertãozinho, e Andrea Dias. Quando ela perguntou onde falta gente para traduzir o dado da máquina em decisão, ele respondeu:

Se falta gente, eu arrisco dizer que falta treinamento.

— Márcio Venturelli, Instituto SENAI de Tecnologia em Bioenergia

Para ele, a usina tem gente competente, que conhece o negócio. O que mudou foi o ritmo: "A tecnologia evoluiu muito rápido, os dados chegaram muito rapidamente, em alto volume." E, antes de chegar à inteligência artificial, a convergência entre TI e TO (a tecnologia de operação, que roda a automação da planta) pede infraestrutura de rede, um repositório de dados e, "talvez mais importante que tudo isso", um plano de governança que diga quem se responsabiliza pelo dado.

Na conversa, ele também fala da decisão que a usina ainda toma no escuro: "Se você tomar uma decisão hoje baseada em apenas um dado ou apenas uma informação, eu arrisco te dizer que esse é o escuro."

Campo Inteligente powered by Guardian Digital.

Assistir ao episódio no YouTube

Do campo para a planta

Em 12 de novembro, no Dabi Business Park, em Ribeirão Preto, o Gatua Meeting Indústria Inteligente leva a pergunta para dentro da indústria. Uma das três perguntas da pesquisa pré-evento conversa direto com o primeiro item desta edição: integrar traz benefício, e quanta exposição de segurança vem junto quando as redes industriais se conectam?

Para agroindústrias, a participação é cortesia, mediante resposta à pesquisa. Quem responde até 22 de outubro entra no Panorama Gatua 2026, o retrato de maturidade do setor que lançamos no dia do evento.

Conhecer o Indústria Inteligente e responder a pesquisa

Um supermercado francês perdeu a câmara fria por causa de um equipamento que estava conectado e esquecido. O campo brasileiro tem drones de 300 litros e falta quem saiba pilotá-los. E quem constrói os agentes de IA não consegue prometer que eles vão sempre obedecer.

Aristóteles escreveu que aquilo que precisamos aprender antes de fazer, aprendemos fazendo. A tecnologia não vai esperar a gente terminar o curso. Por isso o treino, a regra e o olhar sobre o que já foi instalado precisam andar no mesmo passo da compra, e não depois dela.

Bruno BarrosCEO, Gatua

§ Comece de leve

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