O Plano Safra anunciou R$ 416 bilhões. Em dois meses, chegaram R$ 52 bilhões.
Dados do Banco Central compilados pela Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) mostram que os produtores contrataram R$ 52,4 bilhões em crédito rural em julho e agosto, os dois primeiros meses da safra 2026/27. Isso é 12,6% dos R$ 416,3 bilhões anunciados para o ciclo (sem contar as CPRs) e o pior início das últimas cinco temporadas. No mesmo bimestre da safra passada foram R$ 71,2 bilhões, queda de 26,4%. O número de contratos caiu de 457,8 mil para 375,1 mil, e a área financiada ficou em 5,07 milhões de hectares, contra 14,2 milhões no início da safra 2023/24. Do outro lado da mesa, a renegociação de dívidas aberta pela Medida Provisória 1.376/2026 somava, em 23 de setembro, R$ 3,6 bilhões contratados em 28,7 mil operações, de um teto de R$ 25,8 bilhões. A taxa média ficou em 8,56% ao ano, com prazo médio de nove anos. A ministra do Desenvolvimento Agrário, Fernanda Machiaveli, atribuiu o ritmo lento ao tempo que os bancos levaram para adaptar os sistemas e disse que o volume "vai crescer ao longo dos próximos 30 dias". A CNA relatou produtores esbarrando em burocracia nas agências. O prazo para contratar termina em 12 de novembro.
Na edição passada vimos que quase um quarto da carteira de crédito rural está em atraso, renegociação ou prorrogação. Os números desta semana mostram o outro lado dessa carteira: o dinheiro novo não está entrando, e a saída desenhada para a dívida velha também não. Vale separar as duas coisas, porque os motivos são diferentes. No Plano Safra, o recurso foi anunciado, mas o banco empresta olhando o risco, e com a carteira nesse estado ele empresta menos, pede mais garantia e demora mais. Na renegociação, o próprio governo diz que o problema foi operacional: o banco precisou adaptar o sistema para executar a regra. Uma política pode estar publicada há dois meses e não chegar a quem precisa porque o processo do balcão ainda não foi montado. Para quem dirige uma agroindústria, a consequência é concreta. O produtor que não conseguiu custeio no banco vai buscar em outro lugar, e esse lugar costuma ser a trading, a revenda ou a própria agroindústria, via barter. O risco de crédito que o banco recusou muda de balanço. Se a sua empresa adianta insumo contra entrega de safra, a sua carteira de fornecedores está virando uma carteira de crédito, e ela precisa ser analisada como tal: histórico de entrega, área, produtividade e o que já está dado em garantia a terceiros.
os dados de setembro, que é o mês de maior contratação de custeio para a soja e mostram se a torneira voltou a abrir ou se o ano começou mesmo mais curto + se a renegociação acelera antes de 12 de novembro, como disse a ministra, ou se o prazo é prorrogado + se a parcela da safra financiada fora do banco (barter, CPR, fornecedor) cresce na mesma proporção que o crédito bancário cai.


