AgroReview

§ AgroReview · Edição #31 · 8 de setembro de 2026

A prova deixou de ser do país

A atenção é a forma mais rara e mais pura da generosidade.

Simone Weil, em carta a Joë Bousquet (1942)

Esta edição chega um dia atrasada. Ontem foi 7 de setembro, feriado da Independência, e a AgroReview não saiu — então ela sai hoje, na terça, com a leitura da última semana inteira.

E foi uma semana que fechou um assunto que a gente vinha acompanhando há mais de um mês. Na quinta-feira, 3 de setembro, a União Europeia efetivamente suspendeu a entrada da nossa proteína animal. O que ninguém previu foi a resposta brasileira, apresentada dois dias antes: em vez de insistir que o país inteiro está em ordem, o Brasil propôs à Comissão Europeia auditar fábrica por fábrica, fazenda por fazenda — com certificadoras privadas credenciadas.

É uma mudança de unidade. A prova sai do país e vai para o estabelecimento. E ela não chegou sozinha: na mesma semana, a Expointer fechou com R$ 6,18 bilhões em negócios enquanto o crédito rural do primeiro mês da safra caiu 55%, e a projeção fechada do PIB do agro para 2026 saiu em –7,8%. Três números que, juntos, dizem a mesma coisa — a régua mudou de lugar, e quase ninguém foi avisado.

§ O que realmente importa

A Europa fechou na quinta — e o Brasil respondeu propondo trocar a unidade da prova: do país para o estabelecimento

O que aconteceu

Em 3 de setembro entrou em vigor integralmente o Regulamento (UE) 2023/905, e o Brasil ficou fora da lista de países autorizados a exportar produtos de origem animal para o bloco. A regra cobre carne bovina, suína, frango, pescado, leite, mel, ovos e derivados, e proíbe a importação de produtos vindos de sistemas que usem determinados antimicrobianos — sobretudo os reservados ao tratamento humano e os usados como promotores de crescimento. O Brasil foi o único país citado por não ter apresentado, no prazo, as garantias exigidas. Os números do que está em jogo: em 2025 o país vendeu US$ 1,05 bilhão de carne bovina à UE (5,86% da receita total do setor com exportação) e US$ 763 milhões de frango (8% do valor exportado pelo segmento). O Brasil era o segundo maior fornecedor de carne bovina ao bloco. A Comissão Europeia não estabeleceu data para retomada. E aqui está o movimento que muda o jogo: em 1º de setembro, o Brasil propôs à UE um modelo de auditoria por estabelecimento, e não por país — adesão voluntária, verificação em campo por certificadoras independentes credenciadas pelo Inmetro (o instituto federal que acredita organismos de certificação), transição prevista até 2029, e o SIF (Serviço de Inspeção Federal, a fiscalização oficial do Mapa) mantendo a supervisão. A base já existe: em 29 de maio o Mapa publicou a Portaria nº 1.635, homologando o Protocolo Privado de Exportação de Bovinos Livres de Antimicrobianos, que roda sobre identificação e cadastro no Sisbov (o sistema oficial de rastreabilidade bovina), certificação dos animais e avaliação sistemática do manejo de antimicrobianos e aditivos nas propriedades aderentes. O protocolo foi construído por Abiec, ABCAR e CNA e já integra as garantias oficiais apresentadas pelo Brasil.

Por que isso importa

Na edição passada eu escrevi que o Brasil não foi barrado por usar antimicrobiano, e sim por não conseguir demonstrar como fiscaliza. A semana confirmou isso — e trouxe a consequência prática, que é maior do que o embargo. Quando o país não consegue provar pelo conjunto, a prova desce para a unidade. Foi exatamente isso que o Brasil ofereceu: em vez de "confie no nosso sistema nacional", passa a ser "audite este frigorífico, esta fazenda, este lote". E repare no precedente citado na própria proposta: o varejo europeu já compra assim há anos, com GlobalGap e BRC — certificações privadas, auditadas por terceiros, verificadas planta a planta. Ou seja, o modelo não é uma invenção brasileira de emergência. É o modelo que o comprador já usa, chegando agora à porta do regulador. Para quem lidera um frigorífico, uma granja ou uma cooperativa, isso muda três coisas de uma vez. Primeiro, o custo da conformidade deixa de ser diluído no país e passa a ter o seu CNPJ. Segundo, e é a parte boa: quem se adequa deixa de pagar pelo vizinho que não se adequou — na proposta, o estabelecimento certificado não é penalizado pela falha de um fornecedor não aderente. Terceiro, e é o que menos gente percebeu: certificação privada auditada é uma exigência de sistema, não de papel. Auditor de terceira parte não aceita ficha de galpão; ele pede o histórico por lote, com data, responsável técnico e trilha de alteração. Quem já tem isso rodando vira fornecedor preferencial em 2027. Quem não tem vai descobrir que "adequação" significa implantar registro digital de manejo antes de discutir preço.

O que observar

se a Comissão Europeia aceita o modelo por estabelecimento — é o que define se a discussão volta a ser técnica ou continua diplomática + quantos frigoríficos habilitados aderem ao protocolo privado nas próximas semanas, porque adesão baixa derruba o argumento + se o importador europeu passa a pedir o certificado direto ao fornecedor brasileiro, antecipando a exigência antes de a Comissão decidir.

A Expointer vendeu R$ 6,18 bilhões enquanto o crédito rural do primeiro mês da safra caía 55%

O que aconteceu

A 49ª Expointer encerrou no domingo (6 de setembro), em Esteio (RS), com R$ 6,18 bilhões em negócios — alta de 40% sobre os R$ 4,41 bilhões do ano passado. Máquinas e implementos agrícolas responderam por R$ 5,46 bilhões, 88% do total, contra R$ 3,77 bilhões em 2025. O setor automobilístico movimentou R$ 668,7 milhões, os animais R$ 21,9 milhões, e comércio e alimentação R$ 17 milhões. A agroindústria familiar bateu recorde com R$ 14,4 milhões. Passaram pelo parque 909.036 visitantes em nove dias, com pico de 155.825 no sábado (5). No mesmo período, o quadro do crédito é o oposto: os desembolsos de crédito rural somaram R$ 12,7 bilhões em julho, primeiro mês da safra 2026/27, contra R$ 28,3 bilhões em julho de 2025 — queda de 55%. O custeio caiu de R$ 19,9 bilhões para R$ 9,2 bilhões; as linhas de investimento, a maioria com juros de dois dígitos, despencaram de R$ 4,1 bilhões para menos de R$ 1 bilhão. As causas apontadas não são só o atraso na publicação das regras de equalização pelo Tesouro: são estruturais — inadimplência em alta, maior seletividade dos bancos, garantias pressionadas e forte redução da cobertura de seguro rural.

Por que isso importa

Na edição passada eu escrevi que a Expointer seria o termômetro mais rápido para saber se o Plano Safra virou máquina no pátio. O termômetro respondeu — e respondeu diferente do que o crédito sugeria. As duas informações são verdadeiras ao mesmo tempo, e é aí que está o aprendizado. Vale ser honesto sobre duas coisas antes de comemorar. A primeira: a base de comparação é fraca — o setor gaúcho de máquinas fechou 2025 com faturamento 49% menor que 2024, então parte dos 40% é recuperação de um ano ruim, não expansão. A segunda: o número da feira é negócio anunciado, não faturamento reconhecido, e nenhum balanço de feira informa como aquilo foi pago. E é exatamente essa a pergunta que importa. Se o crédito oficial caiu 55% e a venda de máquina subiu 45%, o dinheiro veio de outro lugar — caixa próprio, financiamento do próprio fabricante, barter (troca de máquina por produto), CPR. É a mesma migração que a gente vem acompanhando desde a edição 28: o crédito não sumiu, ele trocou de balcão. E isso tem um efeito colateral que quase ninguém está medindo: quando o financiamento sai do banco e vai para o fornecedor ou para o barter, a garantia deixa de ser terra e passa a ser safra — o risco muda de natureza e fica menos visível no sistema. Para quem vende tecnologia ao agro, há uma janela concreta aqui, e ela é curta. Toda máquina nova que saiu daquele pátio chega à fazenda com sensor embarcado e sem integração — cada uma falando o dialeto do seu fabricante. O produtor que comprou de três marcas diferentes acabou de criar, sem querer, um problema de consolidação de dados que ele ainda não sabe que tem. Quem chegar com telemetria multimarca, gestão de frota e integração com o ERP nos próximos seis meses chega no momento exato em que a dor aparece.

O que observar

os desembolsos de agosto quando o Banco Central publicar — é o que separa atraso administrativo de queda estrutural + quanto das vendas anunciadas na Expointer vira faturamento reconhecido no 4º trimestre das fabricantes + a participação de barter e CPR no financiamento dessas compras, que é onde o risco novo está se acumulando.

O PIB do agro deve cair 7,8% em 2026 — e o que encolhe é a porteira, não a cadeia

O que aconteceu

A projeção fechada para 2026, elaborada pelo Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada, da Esalq/USP) em parceria com a CNA e divulgada no Radar Macroeconômico da Faesp, aponta queda de 7,8% no PIB do agronegócio brasileiro no ano. Em valor, o setor deve movimentar R$ 3,13 trilhões e responder por 22,8% do PIB do país. A quebra por segmento é onde está a informação: o ramo agrícola cai 13,7% (R$ 1,88 trilhão), com o segmento primário — a porteira para dentro — recuando 21%. Já a pecuária cresce 2,8% (R$ 1,25 trilhão), com a bovinocultura de corte sendo o único subsetor com aumento no valor de produção. E os elos de baixo da cadeia crescem: agrosserviços +7,6% e agroindústria +7,9%. A explicação não é quebra de safra: é preço recebido baixo somado a custo de produção elevado, num ambiente de Selic a 14%. A agropecuária mantém cerca de 7,9 milhões de ocupados.

Por que isso importa

A edição 28 tratou do primeiro trimestre, quando a queda era de 2%. Agora veio a projeção do ano fechado, e ela é quase quatro vezes maior. Mas o número de manchete — os 7,8% — é o menos útil. O que importa é que dentro de um setor que cai 7,8%, existe um pedaço caindo 21% e outro subindo quase 8%. Isso não é recessão do agro. É transferência de valor dentro da própria cadeia. Quando o preço da commodity cai e o custo não acompanha, quem produz a matéria-prima absorve a compressão inteira, e quem compra essa matéria-prima para transformar — a agroindústria — ganha margem. Os agrosserviços crescem pelo mesmo motivo: transporte, armazenagem, trading e originação são remunerados por volume movimentado, e o volume não caiu. Para quem lidera uma agroindústria, essa é a leitura mais acionável do ano: o seu fornecedor está em compressão de margem de dois dígitos, e isso vai aparecer na sua operação como risco de fornecimento, pedido de antecipação e inadimplência de barter — não como boa notícia de custo de insumo. Para quem vende tecnologia ao agro, a implicação é de rota comercial, e ela contraria o mapa que a maioria ainda usa: o orçamento está onde a margem está. Vender projeto de transformação digital para o segmento primário em 2026 é vender para quem está com 21% menos valor de produção. Vender para agroindústria e agrosserviços é vender para os dois únicos elos que fecham o ano no positivo. É a mesma conversa, com um interlocutor diferente.

O que observar

se o próximo levantamento da Conab confirma volume alto e mantém o diagnóstico de que a queda é toda de preço + o comportamento do preço recebido pelo produtor na abertura da safra 26/27 + se o investimento em TI do setor migra visivelmente da fazenda para a indústria e o serviço nos orçamentos de 2027.

O preço da IA corporativa saiu do assento e foi para o consumo — e o fornecedor passou a vender o botão de desligar junto

O que aconteceu

O Google passou a oferecer no Gemini Enterprise uma cobrança por consumo — paga-se pelo uso de modelo e de agente, sem assinatura-base e sem compromisso antecipado —, convivendo com o modelo tradicional por usuário. Junto vieram três controles que dizem mais do que o preço: teto mensal rígido de gasto por projeto, com alertas automáticos por e-mail em 50%, 80% e 100% do orçamento e pausa das chamadas de API quando o limite é atingido; detecção de anomalia, que identifica picos de gasto e aponta a causa raiz; e um agente de FinOps que resume em linguagem natural para onde o orçamento de IA está indo. Há também planos de economia com 10% de desconto para compromisso de um ano e 20% para três anos, e até 50% de desconto em execução diferida — cargas que podem rodar em janelas de menor demanda. As tarifas fora da região global estão em US$ 0,825 por milhão de tokens de entrada e US$ 4,125 por milhão de tokens de saída até 31 de dezembro de 2026, e a cobrança do Memory Bank — o serviço gerenciado de memória dos agentes — começou em 1º de setembro.

Por que isso importa

Leia esse anúncio de trás para frente e ele conta uma história melhor do que a tabela de preços. Um fornecedor só constrói freio de emergência quando o carro já saiu de controle com alguns clientes. Teto rígido, alerta em três estágios e pausa automática de API não são recursos de marketing — são a admissão de que o consumo de agentes estoura orçamento de forma que a licença por usuário nunca estourou. E faz sentido: assento é previsível, porque tem um humano no limite. Agente não tem limite humano — ele roda em laço, chama outros agentes, escreve na memória e cobra por isso. Para quem lidera TI numa agroindústria, isso muda uma decisão prática e imediata: se o seu piloto de IA foi orçado com licença por usuário, o orçamento do ano que vem não vai fechar. A conta de agente é variável e depende de volume de execução, não de número de gente. Antes de aprovar o próximo, peça três coisas ao fornecedor — qualquer fornecedor, não só o Google: qual é a unidade de cobrança, existe teto rígido que efetivamente para a execução, e quem recebe o alerta. Se a resposta para a segunda for "a gente monitora", isso é um "não" com roupa melhor. E há um detalhe que vale para quem negocia contrato: descontos de 10% e 20% por compromisso de um e três anos são a confirmação, agora explícita, do que a gente vem falando desde a edição 25 — o fornecedor está pedindo previsibilidade de longo prazo em troca de preço, porque ele mesmo não aposta mais em queda contínua de custo. E a semana entregou a prova disso no mesmo intervalo de dias: a OpenAI lançou o GPT-6 Astra cobrando 2,5 vezes o preço por token do modelo anterior (está no Bloco Tech, logo abaixo). De um lado o fornecedor entrega o freio; do outro, o modelo de ponta fica mais caro. Ao dimensionar um projeto plurianual, a premissa segura continua sendo preço estável, não preço em queda.

O que observar

se os demais fornecedores de IA corporativa passam a oferecer teto rígido com parada de execução — é o que transforma isso em padrão de mercado e não em diferencial de um + a primeira fatura de consumo cheia dos projetos que entraram em produção neste semestre + se o financeiro, e não a TI, começa a ser o assinante do contrato de IA.

§ Radar de mercado

Soja e boi gordo sustentam ganhos na semana; milho perde fôlego na sexta

O indicador da soja em Paranaguá fechou sexta (4) a R$ 160,87 a saca de 60 kg, depois de abrir a semana em R$ 159,44. O boi gordo Cepea/Esalq foi a R$ 347,70 a arroba, com alta de 0,96% no acumulado de setembro. O milho Esalq/B3 fechou a R$ 70,93, com alta semanal de cerca de 1%, mas perdeu força no último pregão.

Canal Rural — Cepea: soja e boi gordo sustentam ganhos na semanaPiranot — milho recua na sexta mas fecha a semana em alta

Balança comercial tem superávit de US$ 7,39 bilhões em agosto e o agro cresce 11,4%

As exportações totais somaram US$ 33,16 bilhões (+12,2%) e o superávit avançou 23,8%. O agronegócio exportou US$ 7,388 bilhões no mês. No acumulado do ano, a agropecuária soma US$ 57,855 bilhões (+9,5%). As vendas para os Estados Unidos cresceram 12,19% em agosto — primeiro sinal de recuperação desde o tarifaço.

Comex do Brasil — superávit de US$ 7,4 bi e recuperação das vendas aos EUATribuna do Sertão — superávit acumulado de US$ 55,318 bi até agosto

Brasil e EUA marcam novas rodadas de negociação sobre o tarifaço

Depois da reunião virtual dos ministros Mauro Vieira e Márcio Elias Rosa com o representante de Comércio americano Jamieson Greer, os dois lados acertaram dar sequência às conversas. O primeiro objetivo brasileiro é ampliar a lista de produtos fora da tarifa adicional; a reversão das medidas fica para depois. Já estão isentos aeronaves civis, energia, suco de laranja, ferro-gusa, metais preciosos, celulose e fertilizantes.

ND Mais — Brasil e EUA acertam novas rodadas de negociaçãoMuita Informação — nova rodada para ampliar exceções

Vazio sanitário da soja termina em Mato Grosso e o El Niño manda esperar a chuva

O período em que é proibido manter soja viva no campo, para quebrar o ciclo da ferrugem asiática, encerrou no domingo (6). O Imea projeta 48,88 milhões de toneladas de soja no estado na safra 26/27, mas a orientação técnica é aguardar a regularização das chuvas — provavelmente na segunda quinzena — antes de acelerar a semeadura.

Portal Mais Agro — fim do vazio sanitário libera o plantio, mas o clima pede cautelaCanal Rural — Famato detalha as perspectivas de chuva

Centro-Sul amplia etanol e reduz açúcar no começo da safra 26/27

Com moagem menor, preço internacional do açúcar mais baixo e expansão do etanol de milho em Goiás e Mato Grosso, as usinas deslocaram mix. A produção de açúcar da região até o fim de julho ficou em 16,9 milhões de toneladas, contra 19,2 milhões no mesmo ponto da safra anterior. As chuvas previstas para setembro podem gerar paralisações industriais.

Revista Cultivar — Centro-Sul amplia moagem de cana e produção de etanolLiras da Liberdade — usinas do Centro-Oeste ampliam etanol e reduzem açúcar

O consumo de eletricidade dos data centers deve crescer 26% no mundo em 2026

De 447 TWh em 2025 para 565 TWh neste ano. A separação é o dado: servidores convencionais crescem 1,2%, enquanto os equipamentos otimizados para IA avançam 84,2%. O Global Data Center Outlook da JLL projeta capacidade global de 200 GW até 2030, com investimentos que podem chegar a US$ 3 trilhões.

Convergência Digital — energia para IA e resfriamento líquido são os motores em 2026TI Rio — expansão da IA eleva em 26% o consumo de energia dos data centers

Proteína animal projeta novo avanço em 2027

A produção de ovos deve chegar a 66,5 bilhões de unidades (+2,6% sobre 2026) e a de carne de frango pode alcançar 16,6 milhões de toneladas (+2,8%). É o contraponto direto ao ramo agrícola: a pecuária é o único ramo que fecha 2026 no positivo.

Diário do Comércio — setor de proteínas animais projeta crescimento de produção e exportações

A semana no calendário

Hoje saem o IGP-DI e o Boletim Focus do Banco Central; ao longo da semana vêm os dados das lavouras do Paraná pelo Deral e a balança comercial parcial de setembro.

Safras & Mercado — agenda do mercado agrícola de 7 a 11 de setembro

§ Mundo Tech

A OpenAI lançou o modelo mais avançado já feito — e a primeira coisa que fez foi tirar dele a capacidade que mais funcionou

Na quinta-feira (3 de setembro) a OpenAI apresentou o GPT-6 Astra, o modelo mais capaz já colocado no mercado. A empresa o chamou de "o modelo mais inteligente e alinhado do mundo", e o presidente Greg Brockman disse que ele pode um dia ser lembrado como a chegada da AGI (inteligência artificial geral — o ponto em que uma máquina passa a resolver qualquer tarefa cognitiva no nível de um humano competente). Os números da apresentação sustentam o barulho: 97,6% no FrontierMath Tier 4 e 99,9% no ARC-AGI-3, dois testes desenhados justamente para não serem saturados; 72,6% no OSWorld 2.0 — que mede a capacidade de operar um computador sozinho, clicando e navegando — com cerca de 47% menos tempo por tarefa que o modelo anterior. A janela de contexto foi a 1 milhão de tokens (o tamanho do texto que o modelo consegue considerar de uma vez), e num teste de recuperação de informação em documentos longos ele acerta 100% na faixa de 256 mil a 512 mil tokens, contra 91,5% do antecessor. E aqui está a parte que mais importa: o Astra é o primeiro modelo da OpenAI a atingir o limiar "crítico" de cibersegurança da própria empresa — ele fez 100% no ExploitBench, o teste de descoberta e exploração de vulnerabilidades. Por causa disso, a versão liberada ao público no dia seguinte saiu capada: ela recusa uma classe inteira de pedidos ligados a cibersegurança. O lançamento já vinha atrasado desde julho, quando a empresa segurou o modelo para adicionar salvaguardas. O preço subiu junto: 2,5 vezes o do modelo anterior por token, a US$ 10 por milhão de tokens de entrada e US$ 50 por milhão de saída na API. Está disponível nos planos ChatGPT Plus, Pro, Business e Enterprise, na API, na AWS, no AWS Bedrock e no Azure.

Duas leituras para quem lidera, e nenhuma delas é sobre benchmark.

A primeira é sobre segurança, e ela é desconfortável. Um fornecedor acabou de dizer publicamente que construiu uma ferramenta boa demais em encontrar falhas de software para entregá-la inteira. Isso é responsável — e é também a confirmação, vinda de dentro, do que aquelas 100 empresas de tecnologia escreveram na carta aberta da semana anterior: a capacidade ofensiva está crescendo mais rápido que a defensiva. A versão capada protege o público geral. Não protege ninguém de quem tiver acesso a um modelo equivalente sem a trava — e modelos com pesos abertos seguem sendo publicados. Se o seu plano de segurança de automação industrial estava na fila de priorização, ele acabou de ganhar o argumento que faltava.

A segunda é sobre custo, e ela contraria o senso comum. A crença dominante nos últimos dois anos era que modelo novo chega mais barato. O modelo de ponta de 2026 chegou 2,5 vezes mais caro que o de meses atrás. Some isso ao fato de que os números de benchmark foram medidos no esforço máximo — o que consome mais tokens e demora mais — e você tem a equação real: capacidade maior, por token mais caro, gastando mais tokens. Não dimensione o orçamento de IA de 2027 com o preço que você pagou em 2026.

E vale a ressalva de sempre: esses resultados são reportados pelo próprio fornecedor, na configuração que mais o favorece. Vale como direção, não como contrato.

A energia virou a variável escondida do seu contrato de nuvem

O número do radar merece uma leitura separada, porque ele muda a forma de ler proposta comercial de tecnologia. O consumo elétrico dos data centers no mundo cresce 26% em 2026 — mas a média esconde a verdade: servidor comum cresce 1,2%, equipamento de IA cresce 84,2%. Não é a nuvem que está consumindo mais. É a IA dentro dela.

Isso importa para quem contrata porque a conta de energia não fica no data center: ela chega ao contrato, na renovação. E vale registrar a assimetria brasileira aqui, que quase nunca aparece nessa conversa: o agro é um dos poucos setores que está dos dois lados desse balcão. Uma usina de cana com cogeração vende energia; um frigorífico com biogás vende energia. A mesma empresa que vai pagar mais caro por processamento de IA pode estar vendendo o insumo que encarece.

Para quem dirige uma agroindústria, a pergunta prática é uma só, e ela cabe na próxima renovação de contrato: o meu fornecedor tem cláusula de repasse de custo de energia, e ela tem teto? Contrato plurianual de nuvem assinado sem essa resposta é contrato com uma variável em aberto num período em que essa variável é a que mais cresce.

O mercado de aditivos que substituem antimicrobianos é o outro lado da porta que a Europa fechou

Enquanto a discussão desta semana foi toda sobre documentação e auditoria, existe uma segunda camada da mesma regra que quase não circulou: a proibição dos promotores de crescimento antimicrobianos não cria só um problema de prova — cria um mercado de substituição de insumo. Se o antibiótico sai da ração, alguma coisa entra no lugar para sustentar conversão alimentar e sanidade de lote.

Essa coisa tem nome e tem tamanho. O mercado global de aditivos funcionais sem promotores antimicrobianos — probióticos, prebióticos e simbióticos entre as principais ferramentas — é projetado em US$ 7,8 bilhões até 2028. E o Brasil tem biotecnologia nacional desenvolvida para exatamente esse nicho.

A implicação para quem lidera produção animal é direta e não é regulatória: a adequação à regra europeia não termina no sistema de registro, ela continua na formulação da ração. E a implicação para quem vende tecnologia é menos óbvia — quando o insumo sanitário sai da rotina e entra a nutrição funcional, o controle de resultado deixa de ser binário e passa a ser estatístico. Sem dado de lote, conversão e mortalidade em série histórica, ninguém consegue provar que a substituição funcionou. É software, não é ração.

§ Sinal fraco

Faltam 113 dias para a segunda porta europeia — e o Brasil está construindo, por causa da primeira, exatamente a infraestrutura que a segunda vai cobrar

Toda a atenção da última semana foi para 3 de setembro. Mas existe uma data maior, mais cara e muito mais próxima do que parece: 30 de dezembro de 2026.

É quando o EUDR — o regulamento europeu que proíbe a entrada de produtos ligados a desmatamento ocorrido após 31 de dezembro de 2020 — passa a valer para operadores médios e grandes. Para as demais micro e pequenas empresas, o prazo é 30 de junho de 2027. São sete commodities e seus derivados: gado bovino, soja, café, cacau, óleo de palma, borracha e madeira. Cerca de um terço das vendas brasileiras à União Europeia está na mira — algo na casa de US$ 17 bilhões por ano. A consultoria BIP estima que a conta da adequação para o agro brasileiro pode chegar a US$ 17,5 bilhões.

O Brasil foi classificado pela Comissão Europeia como país de risco padrão — a faixa do meio, ao lado de Argentina e Paraguai, num grupo de cinquenta países. Risco padrão não é alívio: significa diligência devida completa, com avaliação e mitigação de risco, e rastreabilidade no nível da propriedade rural. Na prática, o importador europeu precisa apresentar uma declaração com a geolocalização de onde aquele lote saiu — e quem fornece essa informação é o exportador brasileiro.

Agora junte as duas coisas, porque é aqui que está o sinal.

Para responder ao antimicrobiano, o Brasil está montando neste momento um arranjo muito específico: protocolo privado homologado por portaria, identificação individual no Sisbov, certificadoras independentes credenciadas pelo Inmetro, auditoria de terceira parte estabelecimento por estabelecimento, transição até 2029. Isso não é um sistema de controle de antibiótico. É um sistema de prova de origem por unidade produtiva — que é, palavra por palavra, o que o EUDR vai exigir em 113 dias, com outra finalidade.

E, no entanto, os dois assuntos estão sendo tocados como se fossem projetos diferentes, por áreas diferentes, com orçamentos diferentes. Sanidade animal de um lado, ESG do outro. São o mesmo projeto. A geolocalização da fazenda que comprova ausência de desmatamento é a mesma que ancora a rastreabilidade do lote. A certificadora que audita manejo de antimicrobiano é a mesma que pode auditar cadeia de fornecedores. A trilha de dados é uma só.

Quem enxergar isso agora faz uma implantação e atende duas regulações. Quem não enxergar vai fazer duas, com dois fornecedores, dois contratos e dois ciclos de auditoria — e vai começar a segunda em novembro, com o prazo em cima.

Para quem vende tecnologia ao agro, essa é a leitura comercial da década, e ela é simples de enunciar: pare de vender conformidade e comece a vender a camada de prova. Quem chegar ao frigorífico ou à cooperativa oferecendo "adequação ao EUDR" está competindo com dez fornecedores num pregão de preço. Quem chegar dizendo "essa mesma base de dados resolve o antimicrobiano de agora, o EUDR de dezembro e o crédito rural com gate ambiental por satélite que já está em vigor" está vendendo infraestrutura — e infraestrutura não se troca na renovação seguinte.

§ Gatua Partners em Foco

BRQueiroz

Vinte e dois anos seguidos passando na mesma auditoria

Esta edição inteira falou de renovação no sentido difícil: o certificado que vence, a auditoria que chega, a prova que precisa ser refeita. Vale olhar para uma que veio no sentido oposto.

A BRQueiroz acaba de renovar, pelo vigésimo segundo ano consecutivo, sua parceria oficial como Microsoft Partner.

O ponto não é o selo — é o que sustenta o selo. Manter esse status por 22 anos seguidos exige atualização técnica constante, certificações renovadas e histórico consistente de projetos entregues, a cada ciclo, do zero. Não é diploma na parede: é a mesma pergunta sendo feita todo ano, e respondida todo ano. Que é exatamente o que a Europa cobrou do Brasil na quinta-feira. A prova não é um evento, é uma rotina.

Para quem contrata, isso vira acesso a soluções Microsoft atualizadas e homologadas, suporte técnico certificado, conformidade em projetos de nuvem e infraestrutura — e duas décadas de implementações reais atrás de cada recomendação.

Se você está modernizando infraestrutura, migrando para a nuvem ou tentando ganhar produtividade com ferramentas confiáveis, vale conversar com quem já passou por essa auditoria vinte e duas vezes.

Conhecer a BRQueiroz

A BRQueiroz é Gatua Partner — uma das empresas de tecnologia do nosso ecossistema que colocam conteúdo, gente e estrutura em cada entrega da Gatua ao longo do ano. Quando um Partner tem algo relevante para quem lê esta newsletter, ele aparece aqui. É assim que o ecossistema funciona nos dois sentidos.

§ Gatua Context

Campo Inteligente é semana que vem — sexta-feira, 18 de setembro

Os 19 Gatua Partners, apoiadores oficiais do Campo Inteligente

Esta edição inteira girou em torno de uma pergunta só: o que a sua operação consegue mostrar? A Europa fez essa pergunta ao país e não aceitou a resposta. A proposta brasileira devolveu a pergunta para o estabelecimento. O EUDR vai repetir a mesma pergunta em dezembro. E o teto de gasto que o fornecedor de IA passou a vender é a mesma coisa por outro caminho: mostrar para onde o dinheiro está indo.

É exatamente sobre isso o próximo ciclo de inteligência da Gatua. Campo Inteligente, sexta-feira, 18 de setembro, no Dabi Business Park, em Ribeirão Preto. O tema é "do campo à decisão: dado operacional em inteligência" — como o que acontece no talhão, na frota e na balança vira informação confiável na hora de decidir.

É um dia inteiro: palestras, painéis e uma sala fechada com cerca de 150 executivos do agro. O que torna o Gatua Meeting diferente não é o formato — é de onde vem o conteúdo do palco. A Gatua não monta uma grade e sai buscando plateia; a gente produz uma leitura do setor e a apresenta para quem a ajudou a produzir.

Porque o Campo Inteligente já começou. Todo participante do público agro responde a uma pesquisa pré-evento — um diagnóstico rápido e confidencial, respondido por quem toca a operação. Ninguém vê o resultado antes: ele é revelado ao vivo, no palco. É a sala se enxergando nos próprios números.

No TI do Futuro, em maio, 84 gestores de TI responderam. Dois números que ainda ecoam: 73% das empresas não medem o ROI de tecnologia com metodologia formal e 44% apontam a cultura organizacional resistente como o principal obstáculo à transformação digital — à frente de orçamento, de gente e de tecnologia. Na sala: 30 agroindústrias, 13 empresas parceiras, 146 pessoas presentes.

A pauta do dia 18 sai das respostas de quem estiver na sala. O que aparecer no consolidado da pesquisa é o que vira painel e o que a sala vê no telão.

Ninguém chega para assistir a um programa pronto — você chega para discutir o retrato que você mesmo ajudou a produzir.

Por isso responder já é participar. A pesquisa é para quem opera no agro — agroindústria, usina, frigorífico, cooperativa, grupo agrícola — e quem responde entra sem pagar, com almoço incluso. Não é desconto: é cortesia. São 150 vagas, e a pesquisa leva poucos minutos. Falta pouco mais de uma semana.

Se você é de uma empresa de tecnologia, a pesquisa não é para você — e isso é proposital. A resposta de fornecedor distorce o retrato que abre o evento no palco, e a proporção entre quem opera e quem fornece é o que faz essa sala valer para os dois lados. O ingresso Tech é comprado direto na página do evento.

O Campo Inteligente é assinado por Guardian IT — Campo Inteligente powered by Guardian IT —, com Darede como patrocinadora Diamante, e tem os 19 Gatua Partners como apoiadores oficiais.

E se você ainda não leu o estudo que gerou os números do TI do Futuro, a Edição Aberta do eBook segue disponível, gratuitamente:

A régua mudou de lugar em quatro frentes na última semana, e em nenhuma delas houve aviso prévio.

A prova de sanidade saiu do país e foi para o estabelecimento. O crédito da máquina saiu do banco e foi para o fornecedor. O valor da cadeia saiu da porteira e foi para a indústria. E o preço da IA saiu do assento e foi para o consumo — no mesmo dia em que o modelo mais capaz já construído chegou 2,5 vezes mais caro que o anterior. Quatro assuntos sem relação aparente, todos dizendo que a unidade de medida que você usava no ano passado não mede mais a mesma coisa.

Simone Weil escreveu que a atenção é a forma mais rara e mais pura da generosidade. É uma frase sobre pessoas, mas serve bem para o trabalho de quem dirige: prestar atenção é caro, exige tempo e não rende manchete. É por isso que a mudança de régua quase sempre é percebida depois — não porque foi escondida, mas porque ninguém estava olhando para o lugar certo.

Faltam 113 dias para 30 de dezembro. Dá tempo, se a decisão for tomada agora.

Bruno BarrosCEO, Gatua

§ Comece de leve

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