AgroReview

§ AgroReview · Edição #30 · 31 de agosto de 2026

Na quinta-feira a Europa fecha a porta

A natureza gosta de esconder-se.

Heráclito de Éfeso, fragmento 123

Três prazos vencem nos próximos dias, e todos os três cobram a mesma coisa.

Na quinta-feira, 3 de setembro, a União Europeia suspende a entrada de carne bovina, frango, pescado, tripas e mel do Brasil. Hoje, 31 de agosto, Brasil e Estados Unidos voltam à mesa para negociar o tarifaço. E na Expointer, que abriu no sábado, o setor de máquinas vai descobrir se o Plano Safra virou compra ou ficou no anúncio.

A edição passada tratou de decisões tomadas fora da nossa porteira. Esta semana essas decisões viraram conta. E a conta tem um número: US$ 504 milhões — o que o Brasil deve deixar de vender à Europa até dezembro. Não por usar antimicrobiano proibido. Por não ter conseguido demonstrar, no prazo, como fiscaliza o uso.

§ O que realmente importa

A União Europeia suspende a carne, o frango, o pescado e o mel do Brasil nesta quinta-feira

O que aconteceu

A partir de 3 de setembro, o Brasil sai da lista de países autorizados a exportar produtos de origem animal para a União Europeia. A medida vem do Regulamento (UE) 2023/905, que passa a valer integralmente nessa data e proíbe a importação de produtos vindos de sistemas que usem determinados antimicrobianos — sobretudo os reservados ao tratamento humano e os usados como promotores de crescimento. 92 países apresentaram as garantias exigidas e foram aprovados, incluindo Argentina, Uruguai e Paraguai. O Brasil foi o único citado por não ter entregue, no prazo, as informações que comprovam o controle. Os produtos atingidos somaram US$ 2,026 bilhões em vendas à UE em 2025 — US$ 1,064 bilhão em carne bovina e US$ 781,4 milhões em frango. A Abiec (associação das indústrias exportadoras de carne bovina) estima perda de US$ 504 milhões (R$ 2,6 bilhões) até o fim de 2026, e acima de US$ 1 bilhão se a suspensão atravessar 2027. No primeiro semestre deste ano, a carne bovina brasileira embarcada para a UE tinha crescido 19%, para 51,2 mil toneladas. A ABPA (associação da proteína animal) avalia que o mercado de frango não deve se desequilibrar com a interrupção. E há um detalhe que muda a leitura: uma auditoria europeia feita em agosto em aves e mel, no Paraná, Mato Grosso do Sul e São Paulo, não questionou o uso de substância proibida — questionou a capacidade do serviço veterinário oficial de demonstrar como fiscaliza as prescrições veterinárias dentro das granjas. O Mapa prestou esclarecimentos e trabalha com a expectativa de retorno à pré-lista já a partir de 3 de setembro.

Por que isso importa

Guarde uma frase desta notícia, porque ela vale mais do que o número: o Brasil não foi barrado por usar antimicrobiano. Foi barrado por não ter conseguido provar como fiscaliza. A auditoria de agosto deixou isso explícito — o que faltou não foi controle, foi a demonstração organizada do controle. Isso muda a natureza do problema. Um problema de prática se resolve mudando o que se faz no campo, e leva anos. Um problema de documentação se resolve mudando como se registra, e leva meses. O segundo é mais barato — mas só se alguém tratar registro como sistema, e não como papel que se junta quando o auditor avisa que vem. Para quem lidera um frigorífico, uma granja ou uma cooperativa, a consequência prática é direta. A pergunta que a Europa fez ao governo brasileiro é a mesma que o seu comprador vai fazer a você: mostre o histórico de prescrição veterinária, por lote, com data e responsável técnico. Quem tem isso em sistema responde em dias. Quem tem em ficha de papel no galpão responde em semanas — e semanas é tempo demais quando o certificado sanitário depende disso. Vale também guardar a proporção, porque ela evita pânico: os US$ 2 bilhões da UE representam uma fração das exportações brasileiras de proteína animal, que vão para mais de 150 países. O problema não é o tamanho da perda. É que a mesma exigência já apareceu no crédito rural com o gate ambiental por satélite, já apareceu no EUDR com a rastreabilidade de origem, e agora aparece na sanidade animal. É o mesmo pedido, chegando por portas diferentes: prove.

O que observar

se o Brasil volta à pré-lista europeia logo após 3 de setembro, como o Mapa espera — é o teste real da velocidade de resposta documental do país + se os importadores europeus passam a pedir o histórico de prescrição direto ao frigorífico, e não só ao governo + o comportamento do preço do frango e da carne no mercado interno nas duas primeiras semanas de setembro, que é onde o volume redirecionado aparece primeiro.

Brasil e Estados Unidos voltam hoje à mesa para negociar o tarifaço

O que aconteceu

Depois de uma conversa por telefone de cerca de 1h20 entre Lula e Trump, as equipes técnicas dos dois países retomam nesta segunda-feira, 31 de agosto, a negociação sobre as tarifas americanas aplicadas a produtos brasileiros. As tarifas em vigor atingem cerca de US$ 6,6 bilhões em exportações do Brasil para os EUA. Antes da última rodada, o Brasil ofereceu reduzir alíquotas de importação de cerca de 300 produtos, incluindo bens de capital como máquinas e equipamentos. Os americanos consideraram a oferta insuficiente e pediram abertura para uma faixa maior de setores — química, autopeças e eletroeletrônicos entre eles. Entre os argumentos que os EUA usam para sustentar as tarifas estão desmatamento, acordos preferenciais, propriedade intelectual, Pix, etanol e importação de produtos associados a trabalho forçado. Dentro do governo brasileiro há o receio de que, se o impasse se arrastar, o tarifaço se torne permanente.

Por que isso importa

O que mudou aqui não é a alíquota — é o calendário. Desde julho o setor operava com uma tarifa em vigor e nenhuma data de conversa marcada. Agora há data. E isso importa porque a lista de argumentos americanos deixou de ser só comercial: desmatamento, trabalho forçado e propriedade intelectual não se resolvem com redução de imposto de importação. São temas de comprovação. Repare no padrão da edição: a Europa cobra prova de fiscalização veterinária; os Estados Unidos colocam desmatamento e trabalho forçado na mesa de tarifa. São dois blocos, dois instrumentos, e a mesma moeda de troca. Para quem exporta ou fornece a quem exporta, a decisão prática desta semana não é apostar no resultado da negociação — é olhar quanto do seu faturamento depende dos EUA e quanto tempo você levaria para responder, com documento, a uma pergunta sobre origem da matéria-prima ou sobre a cadeia de fornecedores. E para quem vende tecnologia: quando um tema sai da pauta ambiental e entra na pauta tarifária, ele deixa de ser projeto de sustentabilidade e vira projeto de receita. Muda quem assina o orçamento.

O que observar

o que sai da reunião desta segunda e se há novo encontro marcado — sem data de sequência, a leitura de "permanente" ganha força + se os EUA especificam exigências verificáveis sobre desmatamento e cadeia de fornecedores, que é o que converteria a negociação em demanda documental para exportadores + o efeito no câmbio, que é o canal por onde isso chega ao produtor antes de chegar ao contrato.

O crédito rural caiu 55% no primeiro mês da safra, as recuperações judiciais bateram recorde — e a Expointer começou

O que aconteceu

Os desembolsos de crédito rural somaram R$ 12,7 bilhões em julho, o primeiro mês da safra 2026/27, contra R$ 28,3 bilhões em julho de 2025 — queda de 55%. O custeio caiu de R$ 19,9 bilhões para R$ 9,2 bilhões (–54%), o investimento recuou 76%, e o número de contratos despencou de 179,2 mil para 77,2 mil. Os dados são do Banco Central, com posição de 3 de agosto, e não incluem operações de CPR; parte do atraso é explicada pela publicação tardia da autorização de equalização, em 23 de julho. No mesmo período, o levantamento Monitor RGF-BIZDOC mostrou 1.263 CNPJs do agro em recuperação judicial no fim do primeiro semestre — alta de 66% em 12 meses e recorde da série. O índice de recuperações por mil empresas ativas chegou a 1,80 no agro, contra 0,70 na indústria e 0,25 no comércio. É nesse cenário que abriu, no sábado (29), a 49ª Expointer, em Esteio (RS), até 6 de setembro: cerca de 135 empresas de máquinas e implementos, mais de 1 milhão de visitantes esperados, e o primeiro grande teste de mercado depois do anúncio do Plano Safra 2026/27. O setor gaúcho de máquinas fechou 2025 com faturamento 49% menor que o de 2024, segundo o Simers.

Por que isso importa

Uma queda de 55% no desembolso pode ser atraso administrativo — a equalização saiu tarde e empurrou contrato para agosto. Mas o número que não é atraso é o outro: os contratos caíram pela metade. Volume adiado volta no mês seguinte com o mesmo número de contratos. Metade dos contratos sumindo é gente que não tomou crédito, não que tomou depois. Some isso ao recorde de recuperações judiciais e o quadro fica legível: o dinheiro do Plano Safra existe, e o problema está do lado de quem toma. Quem tem margem apertada e garantia comprometida não é aprovado, e quem é aprovado hesita. É por isso que a Expointer desta semana vale mais do que uma feira. Ela é o termômetro mais rápido que temos: em nove dias, o produtor gaúcho decide na frente do estande se o crédito anunciado virou máquina no pátio. Para quem vende tecnologia ao agro, guarde a implicação, porque ela contraria o instinto: quando o crédito de investimento trava, o orçamento não some — ele muda de rubrica. Compra de trator é CAPEX e depende de financiamento aprovado. Software, telemetria, gestão de frota e serviço são despesa operacional, aprovados por outro caminho e com decisão mais curta. Historicamente, em ciclo de crédito apertado, o que cresce é exatamente o que ajuda a esticar a vida do ativo que já está no pátio.

O que observar

o número de negócios fechados na Expointer no encerramento, dia 6, comparado com 2025 — é o primeiro dado real de reação ao Plano Safra + os desembolsos de agosto quando o Banco Central publicar, para separar atraso de queda estrutural + se as recuperações judiciais desaceleram no terceiro trimestre ou seguem a curva dos últimos 12 meses.

76% das empresas brasileiras já operam agentes de IA — e 80% já tiveram que desligar algum

O que aconteceu

Um estudo global da Sinch com 2.527 executivos mostrou que 76% das empresas brasileiras mantêm agentes de IA em produção — acima da média mundial (62%) e da taxa americana (67%). Agente, aqui, é um sistema que decide a próxima ação sozinho e executa, diferente do assistente, que responde e espera você agir. 66% das empresas brasileiras pretendem ampliar o investimento e 48% estão avaliando novos fornecedores para sustentar esses projetos. A outra metade do levantamento é a que quase não circulou: 80% das organizações brasileiras já interromperam ou reverteram alguma implementação de agente — e em 39% desses casos houve vazamento de dados ou de informações pessoais. Na América Latina, 41% das empresas desligaram agentes depois de vazamento; na América do Norte, 26%.

Por que isso importa

Os dois números precisam ser lidos juntos, porque separados cada um conta uma história falsa. Sozinho, o 76% diz que o Brasil está na frente. Sozinho, o 80% diz que nada funciona. Juntos, dizem outra coisa: o Brasil está aprendendo mais rápido porque está errando mais rápido. Isso é bom — desde que o erro seja barato. E aqui está o problema: em 39% dos casos, o erro foi vazamento de dado. Esse não é um erro barato. Repare que a América Latina desliga agentes por vazamento numa taxa quase 60% maior que a América do Norte. A diferença provavelmente não está no agente. Está no que a empresa deixou o agente alcançar — e em quantas empresas só descobriram o perímetro do agente depois do incidente. Para quem lidera uma agroindústria, a decisão que isso muda é de sequência, não de orçamento. Antes de aprovar o próximo piloto, defina por escrito a quais sistemas o agente terá acesso, o que ele pode escrever e não só ler, e onde fica o registro do que ele fez. Se essa folha não existir, o piloto não é barato — ele é caro com a fatura adiada. E na hora de comprar, o dado dos 48% avaliando novos fornecedores tem uma leitura comercial clara: o mercado brasileiro está em rodada de troca de fornecedor, e quem for trocado vai ser trocado por causa de governança, não de funcionalidade.

O que observar

se aparece o primeiro caso público de vazamento por agente de IA em empresa brasileira do agro — é o tipo de incidente que muda contrato de TI em todo o setor de uma vez + como os fornecedores respondem à pergunta de registro e perímetro nas próximas propostas + se a exigência começa a chegar por seguradora ou por cliente antes de chegar por regulação.

§ Radar de mercado

Soja fecha a semana acima de US$ 13 em Chicago e Paranaguá vai a R$ 157

Os contratos de vencimento mais curto se aproximaram de US$ 13,00 por bushel e os mais distantes romperam esse patamar; o novembro era negociado perto de US$ 12,79 na sexta (28). No porto de Paranaguá a referência subiu de R$ 154,00 para R$ 157,00 por saca. A alta veio da demanda chinesa e da preocupação com a oferta do Mar Negro.

Safras & Mercado — preços da soja sobem e movimentação ganha ritmoCanal Rural — mercado da soja ganha sustentação

Exportações do agro crescem 9,8% até a terceira semana de agosto

A soja avançou 11,4%, o café não torrado 26% e os animais vivos 141,9%. Carne bovina e açúcar registraram queda nos embarques. As exportações totais do país cresceram 14,3% no mesmo recorte.

Expressão Notícias — Secex: agro amplia exportações em agosto

Boi gordo perde força no fim de agosto, mas fecha o mês em alta em 26 das 28 praças

Os frigoríficos reduziram a necessidade de compra no spot na segunda metade do mês e a arroba desacelerou, ainda em patamar elevado. O milho fechou a R$ 69,05 a saca de 60 kg, alta de 0,38%.

Canal Rural — preço do boi sobe em 26 das 28 praças, aponta CepeaCepea — arroba perde força, carne segue firme

Sete cooperativas assumem a esmagadora de soja que era da Louis Dreyfus em Ponta Grossa

A unidade, com capacidade de 3,4 mil toneladas por dia, entrou em operação neste mês e foi apresentada em 17 de agosto. O foco é óleo degomado para biocombustível e farelo para mercado interno e exportação. Foi chamada de "a maior intercooperação da história" do Paraná.

Forbes Agro — cooperativas assumem fábrica de soja no Paraná

Primeiro grande embarque de sorgo brasileiro para a China

Em 20 de agosto, a Cofco International despachou de Santos o primeiro lote em escala com destino a Guangzhou, abrindo uma frente comercial nova para uma cultura que até aqui era quase toda consumida internamente.

Notícias do Campo — sorgo brasileiro tem primeiro embarque em grande escala à China

Mercado de genética bovina cresce 12,4% no primeiro semestre

Foram 12,3 milhões de doses de sêmen comercializadas no país e no exterior. Na mesma semana, a Expointer anunciou que será carbono neutro pela primeira vez.

Ruraltec — manchetes da semana de 22 a 28/08

Mapa abre consulta pública de 45 dias sobre importação e exportação de insumos

A minuta prevê canais verde, amarelo e vermelho conforme o risco na importação de defensivos e dispensa anuência do Mapa no Portal Único para padrões analíticos, matérias-primas, inertes, aditivos e adjuvantes — com exceção de produtos técnicos e ingredientes ativos.

AgriBrasilis — normativas da semana

A capacidade de data center do Brasil deve dobrar até o fim de 2026

De 826 MW para 1.746 MW, com mais de 13,4 GW já solicitados em pedidos de conexão à rede básica até 2038. O segmento passou a ser o de maior crescimento de demanda de energia no país, acima de indústria e mineração.

GRI Hub — mapa de projetos e players de data center no BrasilCenário Energia — expansão eleva demanda e desafios contratuais

§ Mundo Tech

Mais de 100 empresas de tecnologia assinaram uma carta dizendo que a defesa cibernética atual não dá conta da IA

Em 27 de agosto, mais de 100 empresas e entidades — entre elas OpenAI, Anthropic, Google, Microsoft, AWS, Cisco, Cloudflare, CrowdStrike, Oracle, AMD, Hugging Face e Perplexity — publicaram uma carta aberta chamada "Um apelo à ação coletiva em defesa cibernética". O texto sustenta três pontos: que as práticas de segurança em uso hoje não serão suficientes, que é preciso armar mais defensores com IA, e que a resposta precisa ser coletiva. A carta cita explicitamente hospitais, estações de tratamento de água e infraestrutura de internet como alvos expostos, e fala em uma "janela limitada" para reforçar defesas antes que a capacidade ofensiva dos modelos avance mais.

Vale ler isso junto com o que saiu na semana anterior: cinco agências americanas alertando sobre ataques com scripts gerados por IA contra controladores industriais Siemens, com alimentos e agricultura entre os setores citados. A diferença é quem está falando. Antes era o governo avisando o mercado. Agora são os próprios fabricantes das ferramentas dizendo que a defesa construída até aqui não acompanha o que eles mesmos estão lançando.

Para quem lidera uma agroindústria, o uso prático é simples e não custa nada: essa carta é um documento público, assinado por fornecedores, que sustenta um pedido de orçamento de segurança industrial. Se a área de TI vinha tentando aprovar inventário de ativos de automação e segmentação de rede e emperrava na priorização, o argumento mudou de "o time de TI acha" para "os fornecedores de IA do mundo inteiro assinaram".

A Alibaba abriu sua primeira nuvem da América do Sul — no Brasil

Em 27 de agosto, a Alibaba Cloud anunciou dois data centers no Brasil, os primeiros da empresa no país e na América do Sul. A operação local começou em São Paulo e foi desenhada com residência de dados no Brasil, aderência à LGPD e baixa latência, mirando empresas, startups, desenvolvedores e setor público. Com a nova região, a companhia chega a 106 zonas de disponibilidade em 31 regiões no mundo. O movimento faz parte de um compromisso global do grupo de US$ 53 bilhões em infraestrutura de inteligência artificial.

O que isso muda na prática para quem contrata nuvem no agro tem duas camadas. A primeira é preço: um quarto provedor relevante com região local é o tipo de evento que reabre negociação de contrato — não porque você vá migrar, mas porque passa a existir alternativa comparável na hora da renovação com AWS, Azure ou Google Cloud.

A segunda camada é mais delicada e vale dizer sem alarde: o agro brasileiro é, entre todos os setores da economia, o de maior exposição comercial à China. Colocar dado operacional sensível — volume, custo, origem, comportamento de compra de produtor — em infraestrutura de um grupo chinês é uma decisão que precisa ser tomada com a área jurídica na sala, não só com a de TI. Não é motivo para descartar. É motivo para classificar antes: que tipo de carga vai para onde.

O Google fechou com a Marvell um acordo de até US$ 120 bilhões em chips — com receita relevante só a partir de 2029

Ainda na última semana, o Google firmou com a Marvell um acordo avaliado em até US$ 120 bilhões até 2033 para chips de IA sob medida. O detalhe que importa está no cronograma: a receita significativa do contrato começa apenas em 2029. Na mesma semana, a Andreessen Horowitz lançou um fundo de US$ 1,1 bilhão dedicado a infraestrutura de hardware — máquinas, chips e robótica —, marcando uma virada de foco depois de duas décadas concentrada em software.

A leitura útil para quem assina contrato de tecnologia é a mesma que apareceu nas duas últimas edições, agora com mais uma evidência: a infraestrutura de IA está sendo comprometida com prazos longos e pagamentos que começam depois. Isso não derruba preço no curto prazo — sustenta. Ao dimensionar um projeto plurianual, a premissa segura hoje é preço estável, não preço em queda.

§ Sinal fraco

O Brasil está construindo, com prazo e orçamento, exatamente a prova que acabou de custar R$ 2,6 bilhões por não ter

Enquanto a Europa fechava a porta por falta de demonstração documental, o Brasil segue tocando — devagar e com pouca atenção — o programa que produz justamente esse tipo de prova para a pecuária.

O PNIB (Plano Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos), lançado pelo Ministério da Agricultura em dezembro de 2024, prevê identificar individualmente todo o rebanho brasileiro — estimado em 238 milhões de cabeças — até 31 de dezembro de 2032. A partir de 1º de janeiro de 2033, movimentar animal não identificado passa a ser infração. O método é conhecido: um brinco com número visual em uma orelha e, na outra, um botton com chip de radiofrequência. O custo de identificação por animal está entre R$ 8,50 e R$ 11,50 para propriedades com mais de 100 cabeças; abaixo disso, os estados fornecem os brincos.

O andamento é irregular. O Pará, que tinha prazo próprio para janeiro de 2027, esticou para 31 de dezembro de 2030 e tinha, em meados de novembro, 304 mil animais identificados num rebanho de 26 milhões. O Rio Grande do Sul opera rastreio individual no leite desde 2017 e roda projeto piloto. Mato Grosso aprovou implantação em fases a partir de janeiro de 2026. É um plano de duas décadas de atraso — o Sisbov foi anunciado em 2002 — que ainda é tratado, na maior parte do setor, como obrigação futura.

Agora faça a conta que ninguém fez esta semana. Identificar 238 milhões de cabeças, na faixa de R$ 8,50 a R$ 11,50 por animal, custa entre R$ 2 bilhões e R$ 2,7 bilhões — só o custo do identificador, e diluído ao longo de seis anos. A suspensão europeia que começa na quinta-feira, sozinha, deve custar R$ 2,6 bilhões até dezembro, segundo a Abiec. Quatro meses de embargo custam aproximadamente o mesmo que identificar o rebanho inteiro do país.

Não estou dizendo que uma coisa evita a outra — o embargo europeu é sobre antimicrobianos em aves, mel e pescado também, e rastreabilidade bovina não resolve prescrição veterinária em granja. O ponto é outro, e é o que faz disso um sinal: até esta semana, rastreabilidade individual era discutida no setor como custo regulatório sem retorno visível. A Europa acabou de colocar um preço no lado oposto da equação. Não ter a prova tem valor de mercado, e agora ele está publicado.

O que costuma acontecer depois que um número desses aparece é previsível: a exigência desce da regulação para o contrato. O frigorífico que exporta passa a pedir identificação ao fornecedor antes que a lei peça, porque é ele quem perde o certificado. O banco pergunta na renovação, como já pergunta sobre PRODES. E quem chegar em 2030 com o rebanho identificado e o histórico organizado não vai estar cumprindo uma norma — vai estar vendendo para quem exige, enquanto o vizinho negocia prazo.

Para quem vende tecnologia ao agro, esse é o tipo de janela que abre em silêncio: a infraestrutura de identificação está definida, os estados estão em ritmos diferentes, e a camada que ainda não tem dono é a que transforma brinco em dado utilizável — integração com sistema de manejo, com balança, com nota fiscal e com o certificado que o comprador vai pedir.

§ Gatua Partners em Foco

Darede

Uma competência da AWS que só sai depois de auditoria de caso real — e uma Partner da Gatua acabou de recebê-la

A AWS AI Services Competency é uma certificação que a Amazon Web Services concede apenas a parceiros que comprovam, ao mesmo tempo, duas coisas: cases de sucesso com clientes reais em soluções de inteligência artificial e qualificação técnica da equipe, verificada por certificações oficiais AWS. Não é selo de volume de venda. É avaliação de entrega.

A Darede — parceira Gatua, com mais de 400 certificações AWS acumuladas e atuação em migração, gestão de ambientes cloud, FinOps, cibersegurança e IA — acaba de ser reconhecida como AWS AI Services Competency Partner.

Na prática, para quem contrata, isso significa três coisas concretas:

  • Projeto de IA construído no padrão técnico que a AWS exige — não na interpretação de cada fornecedor sobre o que é boa prática
  • Acesso a metodologias já validadas globalmente, em vez de arquitetura desenhada do zero a cada projeto
  • Um parceiro reconhecido oficialmente como especialista — o que, num ano em que 80% das empresas brasileiras já tiveram que desligar algum agente de IA, deixou de ser detalhe

Se você está avaliando onde e como aplicar inteligência artificial na sua operação — e principalmente se está na fase de escolher com quem fazer isso —, vale conversar com quem já passou pela auditoria.

Falar com os especialistas da Darede

§ Gatua Context

Campo Inteligente, 18 de setembro: faltam menos de três semanas

Os 19 Gatua Partners, apoiadores oficiais do Campo Inteligente

Se você leu até aqui, já viu o fio que amarra esta edição. A Europa pede prova. Os Estados Unidos colocam origem e cadeia de fornecedores na mesa de tarifa. Oito em cada dez empresas brasileiras desligaram um agente de IA e boa parte descobriu o perímetro depois do incidente. Em todos os casos, o que decide não é o que a empresa faz — é o que ela consegue mostrar que faz.

É exatamente sobre isso o próximo ciclo de inteligência da Gatua. Campo Inteligente, sexta-feira, 18 de setembro, no Dabi Business Park, em Ribeirão Preto. O tema é "do campo à decisão: dado operacional em inteligência".

Vale repetir o que ele é: a Gatua não faz evento — faz inteligência de mercado. O Gatua Meeting entrega uma leitura do setor construída ao vivo, com cerca de 150 executivos do agro numa sala fechada, um dia inteiro, e um tipo de troca que não existe em relatório de consultoria: gente que opera contando para gente que opera o que funcionou e o que não funcionou.

E ele começa antes do dia 18. Todo participante do público agro responde a pesquisa pré-evento — um diagnóstico rápido e confidencial, respondido por quem toca a operação. Ninguém vê o resultado antes: ele é revelado ao vivo, no palco. É a sala se enxergando nos próprios números.

No TI do Futuro, em maio, 84 gestores de TI responderam. Dois números que ainda ecoam: 73% das empresas não medem o ROI de tecnologia com metodologia formal e 44% apontam a cultura organizacional resistente como o principal obstáculo à transformação digital — à frente de orçamento, de gente e de tecnologia. Na sala: 30 agroindústrias e 13 empresas parceiras, 146 pessoas presentes.

A pauta do dia 18 ainda não existe. Ela vai ser escrita pelas respostas de quem estiver na sala. O que aparecer no consolidado da pesquisa é o que vira painel e o que a sala vê no telão. Ninguém chega para assistir a um programa pronto — você chega para discutir o retrato que você mesmo ajudou a produzir.

Por isso responder já é participar. A pesquisa é para quem opera no agro — agroindústria, usina, frigorífico, cooperativa, grupo agrícola — e quem responde entra sem pagar, com almoço incluso. Não é desconto: é cortesia. São 150 vagas, e a pesquisa leva poucos minutos.

Se você é de uma empresa de tecnologia, a pesquisa não é para você — e isso é proposital. A resposta de fornecedor distorce o retrato que abre o evento no palco, e a proporção entre quem opera e quem fornece é o que faz essa sala valer para os dois lados. O ingresso Tech é comprado direto na página do evento.

O Campo Inteligente é assinado por Guardian IT — Campo Inteligente powered by Guardian IT —, com Darede e Axiagro como patrocinadoras Diamante, e tem os 19 Gatua Partners como apoiadores oficiais.

E se você ainda não leu o estudo que gerou os números do TI do Futuro, a Edição Aberta do eBook segue disponível, gratuitamente:

Três prazos, uma cobrança só.

Na quinta-feira a Europa suspende a nossa proteína animal — não porque encontrou substância proibida, mas porque não recebeu a demonstração de como fiscalizamos. Hoje o Brasil senta com os Estados Unidos para discutir tarifa, e metade dos argumentos americanos é sobre origem e cadeia de fornecedores, não sobre imposto. E oito em cada dez empresas brasileiras já desligaram um agente de IA, boa parte delas depois de descobrir, tarde, o que ele alcançava.

São três assuntos diferentes com a mesma raiz. Fazer certo deixou de ser suficiente. O que está sendo cobrado, em todas as portas ao mesmo tempo, é a capacidade de mostrar.

Heráclito escreveu que a natureza gosta de esconder-se. É verdade, e é o trabalho de quem opera: tirar do escuro o que a operação faz todo dia sem registrar. Quem faz isso por escolha, faz no seu ritmo e no seu custo. Quem espera a cobrança faz no ritmo de quem cobra — e o preço dessa semana já saiu: R$ 2,6 bilhões.

Bruno BarrosCEO, Gatua

§ Comece de leve

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