AgroReview

§ AgroReview · Edição #28 · 17 de agosto de 2026

Recorde de volume, resultado no vermelho

Não é pobre aquele que tem pouco, mas aquele que deseja mais.

Sêneca, Cartas a Lucílio, Carta II

A última semana produziu três recordes no agro brasileiro. A Conab elevou a safra de grãos para o maior número da história. A JBS entregou a maior receita trimestral de sua existência. E a arroba do boi gordo fechou a primeira quinzena de agosto no valor mais alto já registrado para o período.

No mesmo intervalo, o Cepea e a CNA divulgaram que o PIB do agronegócio caiu no primeiro trimestre. A JBS reportou o primeiro prejuízo em onze trimestres. E a São Martinho — maior grupo sucroenergético listado do país — viu o lucro cair quase 40%.

Não é contradição. É o dado mais importante do ano até aqui: o volume parou de decidir o resultado. Produzir mais deixou de ser garantia de ganhar mais, e o que separa quem sai no azul de quem sai no vermelho migrou para três coisas — custo por unidade, acesso a capital e capacidade instalada que você usa de verdade.

É por isso que vale dedicar sete minutos a esta edição.

§ O que realmente importa

A safra é a maior da história e o PIB do agro caiu — porque o problema não é a lavoura, é o preço

O que aconteceu

Em 13 de agosto, a Conab (Companhia Nacional de Abastecimento, a estatal que faz o levantamento oficial de safra) divulgou o 11º Levantamento e elevou a produção brasileira de grãos de 2025/26 para 360,8 milhões de toneladas — alta de 2,4%, ou 8,5 milhões de toneladas, sobre o ciclo anterior, com recordes em soja, milho, algodão e sorgo. A área plantada chegou a 83,5 milhões de hectares (+2,1%) e a soja isolada a 180,5 milhões de toneladas (+5,2%). Na mesma semana, o Cepea (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada, da Esalq/USP, que é a referência de preços do setor) em parceria com a CNA divulgou o número que anda na direção oposta: o PIB do agronegócio recuou 2,01% no primeiro trimestre de 2026, interrompendo uma sequência de crescimento que passou de 12% ao longo de 2025. O valor estimado ficou em R$ 3,13 trilhões — R$ 1,88 trilhão no ramo agrícola e R$ 1,25 trilhão no pecuário — e a participação do agro na economia brasileira caiu para 22,8%, contra 25,2% em 2025. Todos os quatro segmentos ficaram negativos: insumos -2,15%, segmento primário -4,15%, agroindústria -1,03% e agrosserviços -1,25%. E as duas instituições foram explícitas sobre a causa: a queda veio da retração dos preços reais recebidos pelo produtor, que superou os ganhos de produção — não de quebra de safra. Do lado do custo, o quadro reforça a pinça: o boletim do Imea (Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária) de junho já projetava, para a safra 26/27 em Mato Grosso, custeio da soja a R$ 4.315,29 por hectare (+3,21%), com fertilizantes e corretivos +5,40% e defensivos +10,97%, e preço de equilíbrio da soja 9,13% mais alto que no ciclo anterior. No milho o salto é maior: custeio a R$ 3.799,42/ha (+14,46%) e custo total a R$ 7.418,49/ha (+10,30%).

Por que isso importa

Existe uma leitura reflexa desses dois números juntos — "safra recorde e PIB em queda, algo está errado na conta" — e ela erra o ponto. A conta está certa: volume e receita deixaram de andar juntos. O PIB do agro é preço multiplicado por quantidade, e a quantidade subiu menos do que o preço caiu. O que isso significa na prática para quem lidera uma agroindústria é uma inversão do reflexo natural do setor. Por décadas, a resposta padrão à margem apertada foi produzir mais — mais área, mais moagem, mais abate — porque a escala diluía o custo fixo e o preço, mais ou menos, se comportava. Esse mecanismo parou de funcionar, e por um motivo estrutural: quando o setor inteiro aumenta o volume ao mesmo tempo, é o próprio setor que derruba o preço. O ganho individual da escala virou perda coletiva de preço. E aqui está a parte desconfortável: se o preço não é mais alavanca e o volume passou a ser parte do problema, sobra custo por unidade — e custo por unidade é a única das três variáveis que se enxerga a partir de dentro. Não se negocia, não se espera, se mede. O que muda decisão nos próximos 90 dias não é a projeção de safra: é saber, com precisão e no fechamento do mês e não do trimestre, quanto custa produzir uma tonelada, um litro, uma arroba na sua operação — e onde essa conta está pior do que você imagina.

O que observar

o 12º Levantamento da Conab e se a revisão de volume vem junto com nova queda de preço recebido (é o teste da tese) + o comportamento dos preços de fertilizantes e defensivos no fechamento das compras da safra 26/27, que é o que define o custeio real + o PIB do agro do segundo trimestre, que vai mostrar se o recuo do primeiro foi ponto ou tendência.

O financiamento do agro trocou de balcão: dois terços do primeiro mês da safra vieram de CPR, não de banco

O que aconteceu

Em 11 de agosto, o Mapa (Ministério da Agricultura e Pecuária) divulgou os números do primeiro mês da safra 2026/27. A agricultura empresarial contratou R$ 28,2 bilhões em crédito rural em julho, em 26.034 contratos. O detalhe está na composição: R$ 18,8 bilhões — 66,6% do total — vieram de CPR, a Cédula de Produto Rural (o título em que o produtor vende produção futura e recebe o dinheiro agora, normalmente financiado por trading, revenda de insumo ou investidor privado, não por banco público). Foram 12.940 operações de CPR contra o restante em outras modalidades. O financiamento convencional ficou em R$ 6,5 bilhões (23%); fora do Pronamp, médios e grandes contrataram R$ 5,9 bilhões (21%); no Pronamp, R$ 3,5 bilhões (12,4%). O Sul liderou com R$ 3,6 bilhões, seguido de Sudeste (R$ 2,5 bi) e Centro-Oeste (R$ 2,2 bi). Para a safra inteira estão programados R$ 97,6 bilhões em recursos equalizados (Portaria do Tesouro nº 2.170/2026). E do lado do mercado de capitais o movimento é ainda mais nítido — só que em duas direções opostas. As emissões de CRA (Certificado de Recebíveis do Agronegócio, o título de dívida lastreado em recebível do setor) caíram 50% no primeiro semestre de 2026 contra o primeiro semestre de 2025, com queda de 77% na média mensal. No mesmo período, os Fiagros (Fundos de Investimento nas Cadeias Agroindustriais, fundos negociados em bolsa que emprestam ao setor) captaram R$ 8,3 bilhões e passaram de 600 mil investidores na B3 — em cinco meses, a captação havia crescido 226,9% sobre o ano anterior. O motivo do descolamento está declarado pelos próprios gestores: o avanço das recuperações judiciais e as disputas sobre garantias fizeram o dinheiro ficar mais seletivo, não mais escasso.

Por que isso importa

Na edição passada eu pedi para observar exatamente isso — se o crédito começaria a migrar para fora do balcão do banco. Migrou, e mais rápido do que parecia. Dois terços do primeiro mês da nova safra saíram de CPR. Isso não é um detalhe de engenharia financeira: muda quem analisa a sua empresa e com que régua. Banco público com recurso equalizado trabalha com uma lógica de política agrícola — tem teto, tem enquadramento, tem histórico de relacionamento. Trading, fundo e investidor privado trabalham com lógica de retorno ajustado ao risco, e o risco eles precificam do jeito que sabem: exigindo informação. É por isso que CRA cai 50% e Fiagro triplica no mesmo semestre — não é que o apetite sumiu, é que ele mudou de instrumento e de critério. Fundo listado tem cotista, tem regulador, tem que explicar a inadimplência da carteira em relatório mensal. Ele não financia "o agro": financia o CNPJ que consegue apresentar posição de estoque conciliada, produtividade por área auditável, garantia sem duplicidade de ônus e projeção de fluxo que não seja um número redondo dentro de uma planilha. Para quem lidera uma agroindústria, isso rebaixa a "área de controladoria" de função administrativa para infraestrutura de captação. E existe um efeito de segunda ordem que quase ninguém está nomeando: com dois terços do crédito vindo de CPR, uma parte crescente do balanço do setor passou a ter como contraparte quem também compra o seu produto. Isso concentra risco de um jeito novo — financiador e comprador na mesma mesa, com acesso à mesma informação, e você do outro lado com a informação que conseguir mostrar.

O que observar

se a participação da CPR se mantém acima de 60% em agosto e setembro, quando entra o pico de custeio (é aí que se confirma se houve migração estrutural ou sazonalidade) + o que os Fiagros passam a exigir como documentação padrão nas novas operações, porque isso vira o benchmark do setor + a evolução das disputas de garantia nas recuperações judiciais em curso, que é o que está calibrando o apetite de todo mundo.

A FENASUCRO mostrou onde ainda existe margem na usina — e o balanço da São Martinho mostrou por que ela é obrigatória

O que aconteceu

A 32ª FENASUCRO & Agrocana aconteceu de 11 a 14 de agosto, no Centro de Eventos Zanini, em Sertãozinho (SP), e encerrou na sexta com recorde de países entre os visitantes — profissionais de mais de 80 países, mais de 600 marcas expositoras, cerca de 3 mil produtos e mais de 200 horas de conteúdo. Pela primeira vez o Brasil sediou o 13º Congresso Latino-Americano da ATALAC, em paralelo à feira. A feira pegou o setor num momento difícil, e o número que descreve isso saiu na segunda, 10 de agosto: a São Martinho reportou o primeiro trimestre da safra 2026/27 com lucro líquido de R$ 38,1 milhões — queda de 39,3% — e receita líquida de R$ 1,53 bilhão, recuo de 17,6%. O EBITDA ajustado (o resultado operacional antes de juros, impostos, depreciação e amortização — a medida de geração de caixa da operação) ficou em R$ 582,3 milhões, queda de 27,7%. O açúcar foi vendido a preços 25,7% menores que um ano antes. E aqui está o ponto que inverte a leitura da edição passada: o etanol foi o maior detrator, com queda de 26% na receita, resultado de volume 23% menor e preço 4,2% mais baixo. Ou seja: migrar mix para etanol era a decisão correta, e ela não salvou o trimestre. No meio da feira, em 13 de agosto, a 6ª edição do SINATUB Usina 4.0 apresentou onde o ganho ainda está disponível — e apresentou com número. A DCBio, que tem capacidade instalada de 2 milhões de toneladas de cana e vinha processando cerca de 1,3 milhão, projeta chegar a 1,9 milhão de toneladas nesta safra com a implantação de controle avançado de processo. A Alcoeste relatou ganho de 20 toneladas de cana processada por hora e mira safra recorde de 2,6 milhões de toneladas. A Usina Santa Isabel, que processa cerca de 4 milhões de toneladas por safra, apresentou +1,82 MW de carga combinada nos geradores, redução de 21% no desvio de pressão de escape e redução de 74% na variação de temperatura em um dos aparelhos de evaporação. A Tereos relatou 31 macroaplicações e 70 malhas de controle avançado (APC/RTO) rodando em cinco unidades, com fator de serviço de 90,2% — o percentual do tempo em que a tecnologia efetivamente ficou no ar.

Por que isso importa

Coloque os dois fatos lado a lado, porque juntos eles dizem uma coisa que nenhum dos dois diz sozinho. A São Martinho fez a jogada certa de mix e ainda assim perdeu quase 40% do lucro — o que prova que, neste ciclo, nenhuma decisão comercial resolve sozinha. E a DCBio mostrou que estava deixando 700 mil toneladas de cana por safra dentro da própria capacidade instalada, sem processar. Esse é o número mais barato do setor hoje. Não é expansão, não é aquisição, não é CAPEX de nova linha: é capacidade que já foi paga e não estava sendo usada, recuperada por controle de processo. Repare no que essas quatro usinas apresentaram — nenhuma delas falou de comprar mais moenda. Falaram de estabilidade: variação de pressão, variação de temperatura, malha de controle no ar 90% do tempo. Estabilidade não é um assunto de engenharia bonito de mostrar em feira; é a variável que determina quanto da capacidade nominal você converte em capacidade real. E o dado do fator de serviço da Tereos merece atenção especial de quem decide compra de tecnologia: 90,2% significa que 10% do tempo o sistema não estava operando — e é justamente esse número, e não a promessa de ganho no slide, que separa projeto que entrega de projeto que fica no piloto. Quando você for avaliar um fornecedor depois desta feira, a pergunta que revela mais é essa: qual é o fator de serviço da sua solução nos clientes que já a usam, e você me mostra o número?

O que observar

os próximos resultados trimestrais das usinas listadas, para ver se alguém reporta ganho de moagem sem investimento em capacidade nova (é a assinatura desse tipo de projeto) + se o preço do açúcar reage no segundo semestre, porque isso define se o setor tem folga para investir em 2027 + o que a paridade com a gasolina faz com o volume de hidratado, já que foi volume, e não só preço, que derrubou a receita de etanol da São Martinho.

JBS: a maior receita da história da empresa e o primeiro prejuízo em onze trimestres

O que aconteceu

A JBS divulgou o segundo trimestre de 2026 com receita recorde de US$ 23,9 bilhões (R$ 122,1 bilhões), alta de 14% — e prejuízo líquido de US$ 102 milhões (R$ 521 milhões), revertendo o lucro de US$ 528 milhões (R$ 2,7 bilhões) do mesmo período de 2025. Foi o primeiro resultado negativo depois de onze trimestres consecutivos no azul, puxado pelo ciclo desfavorável do gado nos Estados Unidos, enquanto a operação brasileira fez o caminho inverso. Na mesma semana, a companhia anunciou uma joint venture com o fundo soberano da Indonésia, com US$ 2,5 bilhões a serem investidos no negócio.

Por que isso importa

É o mesmo padrão da São Martinho e do PIB do agro, agora na maior empresa de proteína do mundo: topline em recorde, resultado no vermelho. E a JBS traz um dado que interessa a qualquer executivo de grupo com mais de uma operação — o prejuízo é global e o Brasil vai bem. Uma empresa que opera em vários países e várias proteínas descobriu que diversificação protege menos do que se supõe quando o problema é ciclo de matéria-prima, não mercado de destino. Para quem dirige um grupo com unidades em regiões ou culturas diferentes, o recado prático é sobre granularidade: resultado consolidado no fim do trimestre esconde exatamente a informação que decide o que fazer. Se a JBS não conseguisse separar o desempenho por geografia e por proteína quase em tempo real, ela estaria discutindo "um trimestre ruim" em vez de discutir o ciclo do gado americano. Consolidado explica o passado; abertura por unidade decide o próximo trimestre.

O que observar

o guidance da companhia para o ciclo do gado nos EUA no segundo semestre + o que a JV indonésia sinaliza sobre onde a JBS espera crescer demanda (é uma aposta em consumo asiático, não em oferta) + se os outros grandes frigoríficos brasileiros reportam o mesmo descolamento entre operação nacional e internacional.

§ Radar de mercado

Boi gordo tem a primeira quinzena de agosto mais valorizada da história

A média nominal ficou em R$ 347,60 por arroba, 13,5% acima da mesma quinzena de 2025 (R$ 306,50) e acima do recorde nominal anterior para o período, de 2021 (R$ 315,10). Em 14 de agosto, o indicador Cepea/Esalq fechou a R$ 346,75 em São Paulo. O mercado futuro segue precificando dezembro como máxima do ano.

Farmnews — bezerro, boi gordo, milho e soja na 1ª quinzena de agostoCepea — indicador do boi gordo

Mato Grosso fecha a segunda safra de milho com recorde

O estado colheu 99,10% da área até 8 de agosto, com produção estimada em 57,39 milhões de toneladas (+3,53%). No mercado, a saca de 60 kg fechou a sexta a R$ 66,09.

AgriBrasilis

Algodão exporta 155 mil toneladas em julho, com receita 27,2% maior

O volume cresceu 21,8% e a receita chegou a US$ 262,4 milhões. O principal destino foi Bangladesh (19,3%) — vale reparar em quem está comprando, num momento em que parte da pauta brasileira segue sob sobretaxa americana.

AgriBrasilis

O Congresso Brasileiro do Agronegócio chegou aos 25 anos pedindo política de Estado

Realizado em 10 de agosto, em São Paulo, pela ABAG, o encontro registrou que as exportações do agro em 2025 foram recorde: US$ 169,2 bilhões (+3%), o equivalente a 48,5% de tudo que o Brasil exportou. A pauta central foi coordenação entre produção, indústria, energia, tecnologia e logística diante da tensão geopolítica.

25º Congresso Brasileiro do AgronegócioForbes Agro — o agro brasileiro e o mercado de US$ 1,5 trilhão

Mais uma reestruturação bilionária no Matopiba

A 051 Capital conduz a renegociação de R$ 1,5 bilhão em dívidas de produtores da região. É o tipo de operação que explica a seletividade dos fundos citada no Bloco 2.

AgriBrasilis

O Paraná projeta déficit de 1,6 milhão de toneladas de trigo e o Brasil pode importar até 9 milhões

O maior produtor nacional do cereal não fecha a própria conta. Para moinhos e indústria de panificação, é custo de matéria-prima exposto a câmbio e a frete internacional.

AgriBrasilis

El Niño com 100% de probabilidade entre agosto e outubro

A confirmação chega exatamente na janela de plantio da safra 2026/27, com o Paraguai já registrando anomalia de +1,5 °C. Quem já contratou insumo tem custo travado e produtividade em aberto.

AgriBrasilis

O agro na bolsa passou de 3 milhões de pessoas físicas

Dado divulgado pela B3 em 10 de agosto. Mais investidor pessoa física na ponta significa mais exigência de divulgação e previsibilidade de quem capta.

AgriBrasilis

§ Mundo Tech

A Europa adiou a parte difícil da lei de IA por 16 meses — e manteve a parte que já vale para você

Em 24 de julho a União Europeia publicou o Digital Omnibus on AI (Regulamento UE 2026/1744), que entrou em vigor em 27 de julho e empurrou as obrigações para sistemas de IA de alto risco de agosto de 2026 para dezembro de 2027. Mas o que não foi adiado começou a valer em 2 de agosto de 2026: as regras de transparência, entre elas o dever de informar a uma pessoa que ela está interagindo com um sistema de inteligência artificial e não com um humano. E em 2 de dezembro de 2026 entra a obrigação de marcar conteúdo gerado artificialmente, inclusive em sistemas que já estavam no mercado antes de agosto.

O erro de leitura aqui é achar que adiamento é folga. Especialistas foram diretos: não é prazo extra de adequação, é mudança de sequência. E a parte que ficou de pé é a mais barata de cumprir e a mais fácil de flagrar — basta um cliente descobrir que estava conversando com um agente sem ter sido avisado.

Para quem lidera no agro, isso alcança de dois lados. Primeiro, se a sua empresa exporta para a Europa e usa IA em qualquer ponto que toque cliente, fornecedor ou documento de exportação, você entrou no escopo de transparência agora, não em 2027. Segundo — e é o ponto que quase ninguém faz —, quem vende software para você também entrou. Vale a pergunta no próximo contrato: onde exatamente há IA dentro deste produto, e o fornecedor consegue declarar isso por escrito? Empresa que não sabe responder isso sobre o próprio produto não vai conseguir responder pelo seu processo.

O preço da IA parou de cair em linha reta — e um fornecedor subiu a tarifa em até 1.100%

A narrativa consolidada dos últimos meses era simples: modelo fica melhor e mais barato, todo trimestre. A semana quebrou a linha reta. O Google lançou o Gemini 3.7 Flash com salto de desempenho em código (de 34,4% para 43,6% no benchmark FrontierCode), janela de 1 milhão de tokens e preço cortado pela metade, a US$ 0,75 por milhão de tokens de entrada. No dia 12 de agosto, o Gemini passou de 1 bilhão de usuários ativos mensais. Na direção oposta, a chinesa DeepSeek elevou o preço da API do V4 Pro em até 1.100% em algumas cargas de trabalho, chegando a US$ 1,32 por milhão de tokens — abandonando a estratégia de entrada por preço baixo. E o pano de fundo explica: as grandes empresas de tecnologia acumulam cerca de US$ 1,5 trilhão em compromissos de compra de computação, chips, data center e energia, mais outros US$ 1,5 trilhão em obrigações de arrendamento, enquanto a fundição chinesa SMIC opera a 93,7% de utilização e já subiu preços.

Token, aqui, é a unidade de cobrança dos modelos — grosso modo, um pedaço de palavra. Você paga por quanto texto entra e quanto sai.

O que isso muda para quem lidera: a premissa de que "vai ficar mais barato no ano que vem" deixou de ser segura para dimensionar um projeto. Ela vale para modelos de escala, sustentados por quem tem bilhões em compromisso de infraestrutura, e não vale para os fornecedores menores que estavam competindo por preço e agora precisam de margem. Se o seu caso de uso foi aprovado internamente com uma projeção de custo caindo, vale reabrir a conta com o cenário de tarifa estável ou em alta — e checar uma coisa no contrato: quem pode reajustar o preço do token no meio do ano, e com quanto aviso.

IBM e OpenAI vão levar modelos para dentro de sistemas legados — e é aí que mora o agro

Também na última semana, IBM e OpenAI ampliaram a aliança para colocar os modelos da OpenAI dentro de fluxos corporativos em serviços financeiros, governo, telecomunicações e varejo — com consultores da IBM encarregados justamente da parte que ninguém gosta de vender: a integração com sistemas legados.

Guarde esse movimento, porque ele descreve o gargalo real da agroindústria brasileira melhor do que qualquer manchete sobre modelo novo. O problema da usina, do frigorífico e da cooperativa nunca foi ter acesso a um modelo bom — está a um cartão de crédito de distância. É que o dado que o modelo precisa está preso em um ERP customizado há doze anos, num sistema de balança que não expõe interface e numa planilha que só uma pessoa sabe atualizar.

Quando a maior consultoria de integração do mundo trata sistema legado como o produto principal da parceria, isso confirma onde está o custo verdadeiro de um projeto de IA — e ajuda a calibrar propostas. Se um fornecedor te apresenta prazo curto e não dedica a maior parte do escopo a extrair e conciliar o seu dado, ele está vendendo a parte fácil.

§ Sinal fraco

Em julho eu escrevi aqui que o avião podia virar cliente da usina. Na semana passada, 40 investidores estrangeiros vieram medir o tamanho disso

Levantei esse sinal em julho, quando ele ainda era uma tese: a aviação como próximo grande comprador da cadeia de cana. Na última semana ele saiu da tese e ganhou número, delegação e agenda de governo — e é isso que o traz de volta a este bloco.

Passou quase sem manchete, no meio de uma feira que discutia preço de etanol: a ApexBrasil trouxe ao Brasil, pela primeira vez, uma delegação internacional de potenciais investidores em SAF e e-SAF — o combustível sustentável de aviação, e sua versão sintética produzida com hidrogênio e carbono capturado. A agenda técnica aconteceu durante a 32ª FENASUCRO, com 40 participantes da França, Austrália, Japão, China e Estados Unidos interessados em biorrefinarias brasileiras.

O tamanho declarado chama atenção: as oportunidades prospectadas representam potencial estimado de US$ 7 bilhões em investimento. E o prazo também: de três a cinco anos entre a avaliação de mercado e o início de operação. A agenda reuniu MME, EPE, Finep, ANP, MDIC, BNDES e agências estaduais de investimento — o que indica que não era visita de cortesia, era estruturação de projeto.

A diferença entre julho e agora é a que importa: em julho existia um mercado potencial. Agora existe capital fazendo diligência, com prazo declarado e interlocutor institucional montado. Tese não cobra nada de ninguém. Diligência cobra documento.

O ponto que quase ninguém está colocando na mesa não é o dinheiro. É quem passa a ser o cliente da usina. Açúcar e etanol se vendem para um mercado: tem preço de tela, tem indicador diário, e a decisão da usina é quando fixar. SAF se vende para uma cadeia de aviação regulada, que compra molécula com origem comprovada, pegada de carbono certificada, volume firme e contrato de década — porque a companhia aérea, do outro lado, tem meta de emissão para cumprir e auditor para responder.

E é aqui que o sinal fraco encontra o resto desta edição. Uma due diligence de US$ 7 bilhões, com horizonte de três a cinco anos, não olha o histórico de moagem numa planilha consolidada. Olha série temporal de disponibilidade industrial, rastreio de origem da biomassa, medição confiável na ponta e capacidade de auditoria — exatamente o que as quatro usinas do SINATUB estavam apresentando como ganho operacional, e que aqui reaparece como critério de elegibilidade para receber capital.

A usina que passar os próximos três anos tratando controle avançado de processo como projeto de eficiência vai descobrir, no meio de uma negociação, que estava construindo um dossiê de investimento sem saber. E a que não tratar vai descobrir a mesma coisa pelo lado inverso.

§ Gatua Partners em Foco

Duas coisas do nosso ecossistema entram direto na conversa desta semana — e não por coincidência de calendário. As duas falam de camada de análise sobre dado que a empresa já coleta.

BRQueiroz

Publicamos com a BRQueiroz: "O agro já tem a infraestrutura. O que falta é entender o que ela está dizendo"

NEO: plataforma de inteligência operacional para ambientes críticos

Na última semana saiu um artigo que escrevemos em parceria com a BRQueiroz, e o número que abre o texto explica muita coisa desta edição. Analisando os dados do ITDBr 2025 (o índice de transformação digital produzido pela PwC Brasil com a Fundação Dom Cabral), o agronegócio brasileiro pontua 4,4 em infraestrutura digital — e apenas 1,8 em fronteira tecnológica.

Traduzindo a distância entre os dois números: o setor comprou servidor, rede, sensor e nuvem. Não comprou a camada que interpreta o que tudo isso está dizendo. O artigo também recorre a pesquisas da Deloitte sobre a integração entre OT (a tecnologia que roda a operação — automação, controle, sensor de campo) e TI (a tecnologia que roda a informação da empresa), que é justamente onde esse vão se manifesta.

Em operação crítica isso não é uma imperfeição de arquitetura, é dinheiro. Usina em pico de moagem não tem segunda chance: janela não volta. É por isso que a proposta do NEO, a plataforma de inteligência operacional da BRQueiroz, é descrita da forma como está no artigo — ela não substitui o monitoramento, se coloca por cima dele, para correlacionar os sinais em vez de empilhar alertas.

Leia esse ponto ao lado do Bloco 2 desta edição. A DCBio não descobriu 700 mil toneladas de capacidade porque comprou moenda: descobriu porque passou a enxergar o que a própria planta já estava informando. É a mesma tese, dita por dois caminhos diferentes na mesma semana.

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Darede

Webinar da Darede — quinta, 20 de agosto, das 10h às 12h: quando o dashboard deixa de informar e passa a agir

Nas palavras da própria Darede, a diferença entre os dois tipos de empresa que lidam com dados em 2026 é simples: "as que ainda olham dashboards e as que têm dashboards que agem."

Na quinta-feira, 20 de agosto, das 10h00 às 12h00, a Darede — parceira AWS Premier — realiza um webinar sobre como essa transição está acontecendo na prática, usando tecnologia da AWS que está redefinindo BI (business intelligence, a camada de análise e visualização de dados da empresa): o Amazon Quick, com IA generativa em linguagem natural — ou seja, você pergunta em português o que quer saber, em vez de pedir um relatório e esperar.

O que a Darede lista como entrega do encontro:

  • O panorama de para onde o mercado de dados está indo, com casos reais
  • Demonstrações ao vivo de Quick conduzidas pelos arquitetos AWS do Darede
  • Q&A aberto para tirar dúvidas do seu próprio cenário

Se você chegou até aqui nesta edição, já sabe por que estou destacando isso. O Bloco 2 inteiro fala de uma coisa: neste ciclo, a decisão precisa chegar antes do fechamento do mês. Dashboard que você olha na segunda-feira descreve a semana que passou. É uma conversa útil para quem está exatamente nesse ponto.

Inscrições no webinar da Darede

BRQueiroz e Darede são Gatua Partners — empresas de tecnologia do nosso ecossistema que colocam conteúdo, gente e estrutura em cada entrega da Gatua ao longo do ano. Quando um Partner tem algo relevante para quem lê esta newsletter, ele aparece aqui. É assim que o ecossistema funciona nos dois sentidos.

§ Gatua Context

Fechamos a série de podcasts do TI do Futuro: 10 episódios, e o que ficou claro ouvindo todos eles

Podcast Gatua — série TI do Futuro, com as empresas participantes

Na última semana publicamos o último episódio da série gravada no espaço do podcast do Gatua Meeting TI do Futuro. Foram 10 episódios no total, com apresentação da Andréa — e eu queria registrar isso aqui porque não é um número de produção, é um retrato.

Passaram pelo estúdio empresas Partners, patrocinadores do evento e referências do setor. CAST, sobre automação industrial como prevenção de parada de produção — e a analogia que ficou: trocar a correia dentada no tempo certo custa R$ 100; deixar romper custa vinte vezes mais. PWIT, sobre o risco de decidir com dado fragmentado, e a ordem que boa parte das indústrias inverte: arrumar a casa primeiro, IA depois. Check Point, sobre o ambiente de ameaças crescendo na mesma velocidade da adoção de IA. Pentagro, sobre o mercado entrando em fase de consolidação depois de dez anos de soluções fragmentadas. CHB, sobre como resolveram alucinação de IA fechando o modelo em um data warehouse próprio com agentes ultra-especializados. Darede e AWS, com o número mais desconfortável do lote: de cada 100 projetos de IA testados, cerca de 5 geram retorno real — e a causa não é a tecnologia, é adotar sem entender a dor e sem calcular ROI. Usina Nardini, com uma frase que virou eixo: no começo era raridade de tecnologia, hoje chove solução, e mesmo assim decidir ficou mais difícil. Delaware Brasil, desmontando a objeção de que SAP é necessariamente caro e demorado. PwC, sobre pilotos que existem e fundamentos de governança de dados que ainda travam a escala — com o case de uma indústria que descobriu décadas de dado não qualificado ao migrar de sistema. E SERCOMPE com Check Point, fechando a série no ponto mais difícil de todos: fazer a diretoria enxergar segurança como pilar de negócio, e não como custo de TI.

Dez conversas, dez ângulos, uma convergência: ninguém falou de falta de tecnologia. Todos falaram de dado que não conversa, decisão tomada sem base e fundamento que não foi construído antes de acelerar.

Ouvir os episódios no canal da Gatua

E é exatamente aqui que começa o próximo ciclo

Uma série de podcast que fecha não é um fim de conteúdo — é o fim de uma etapa. O TI do Futuro gerou pesquisa, palco, 10 episódios e um eBook. O próximo ciclo de inteligência da Gatua tem data: 18 de setembro, no Dabi Business Park, em Ribeirão Preto. É o Campo Inteligente, e a tese é "do campo à decisão: dado operacional em inteligência".

Faço questão de repetir o que ele não é: a Gatua não faz evento. O que a gente faz é um ciclo de inteligência, e ele começa antes do dia 18 — com a pesquisa pré-evento, um diagnóstico confidencial respondido por quem toca a operação e que a sala só vê revelado ao vivo, no palco. Depois vira painel, vira podcast, vira eBook. Foi assim que a série que acabou de fechar existiu.

No TI do Futuro, 84 gestores de TI responderam. 73% das empresas não medem o ROI de tecnologia com metodologia formal — leia isso de novo ao lado dos 5 em 100 projetos que a Darede citou no podcast, porque é a mesma frase dita de dois lugares. E 44% apontam a cultura organizacional resistente como o principal obstáculo à transformação digital, à frente de orçamento, de gente e de tecnologia.

O Campo Inteligente faz a mesma pergunta, agora para quem está na ponta da operação agrícola — o lado que esta edição inteira acabou descrevendo. As inscrições estão abertas, e são 150 vagas.

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Foi uma semana de recordes que não chegaram ao resultado. A maior safra da história com o PIB do agro em queda. A maior receita da JBS com o primeiro prejuízo em onze trimestres. A decisão de mix correta na São Martinho com o lucro caindo 40%.

O fio é sempre o mesmo: crescer parou de ser resposta. Quando o setor inteiro cresce junto, o preço absorve o ganho, e o que sobra de alavanca é a parte que ninguém vê de fora — custo por unidade, capacidade instalada realmente usada, e a informação que você consegue apresentar para quem vai te financiar. A DCBio tinha 700 mil toneladas guardadas dentro da própria planta. Não estavam num investimento futuro; estavam num dado que ela não estava lendo.

Sêneca escreveu que não é pobre quem tem pouco, mas quem deseja mais. Vale a versão operacional disso nesta segunda-feira: no ciclo que estamos, ganha menos quem quer mais volume — e ganha mais quem entende melhor o que já tem.

Bruno BarrosCEO, Gatua

§ Comece de leve

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