O Copom cortou a Selic — e, na mesma semana, o crédito do agro ficou mais caro
Em 5 de agosto, o Copom (o Comitê de Política Monetária do Banco Central, que define a taxa básica de juros da economia) cortou a Selic de 14,25% para 14% ao ano — o quarto corte consecutivo, por decisão unânime dos sete diretores. O comunicado, porém, veio mais duro do que o mercado esperava: o BC deixou os próximos passos em aberto e disse que a magnitude total do ciclo será definida "à luz de novas informações". O mercado projeta a Selic terminando 2026 em 13,75%. Só que, para o agro, o movimento do juro básico está sendo anulado por outro. Levantamento da Serasa Experian mostra que o setor registrou 1.990 pedidos de recuperação judicial em 2025 — o maior volume da série histórica iniciada em 2021 e alta de 56,4% sobre os 1.272 de 2024. Só entre produtores rurais que atuam como pessoa jurídica foram 753 pedidos, alta de 84,1%. A inadimplência no agro chegou a 8,8% no primeiro trimestre de 2026, o maior nível já registrado, e a população rural acumula R$ 54 bilhões em dívidas negativadas — das quais 93,9% do valor está com instituições financeiras. A consequência apareceu no balcão: os bancos endureceram a concessão, passaram a exigir garantias mais robustas e o Banco do Brasil, principal financiador do setor, adotou postura mais rígida com quem recorre à recuperação judicial. Em março, o CNJ (Conselho Nacional de Justiça) publicou o Provimento nº 216/2026, que padroniza o processamento de recuperação judicial e falência do produtor rural em todo o país — e condiciona o pedido à apresentação de documentos técnicos e contábeis que comprovem o exercício regular da atividade por pelo menos dois anos e a viabilidade econômica da operação.
Existe uma leitura confortável desse conjunto — "os juros estão caindo, o custo do capital melhora em 2026" — e ela está errada para o agro. O preço do dinheiro no setor tem duas partes: a taxa básica, que caiu 0,25 ponto, e o prêmio de risco, que é o quanto o banco cobra a mais por não ter certeza de que vai receber. Com inadimplência recorde e recuperação judicial batendo máxima histórica, o prêmio subiu mais do que a Selic caiu. E aqui está o ponto que muda decisão: prêmio de risco não é setorial, é individual. O banco não precifica "o agro", precifica o CNPJ que está na frente dele. Duas agroindústrias do mesmo porte, no mesmo município, com a mesma cultura, vão pagar taxas diferentes — e a diferença é o que cada uma consegue demonstrar sobre produtividade por área, custo real por safra, posição de estoque e garantia efetivamente livre. O Provimento 216 formaliza essa lógica dentro do Judiciário: para entrar em recuperação judicial, agora é preciso provar com documento técnico e contábil que a atividade é regular e viável. Provar virou pré-requisito nas duas pontas — para pegar dinheiro e para renegociar o que já se pegou. Quem tem essa informação dispersa entre planilha, sistema de campo e memória do gerente não está sem crédito: está pagando o prêmio de quem não consegue mostrar.
o comportamento das taxas efetivas nas renovações de custeio dos próximos 60 dias (é ali que se vê se o corte da Selic chegou ou foi absorvido pelo risco) + o volume de adesão à MP 1.376 e que documento os bancos aceitam como comprovação + o avanço de instrumentos fora do banco — CPR, fundos de crédito e DIP Finance —, que crescem exatamente quando o balcão fecha.