A carne inverteu o sinal: embarca menos, vende mais caro e compra boi mais caro ainda
Até a quarta semana de julho, o Brasil embarcou 195,21 mil toneladas de carne bovina in natura, com média diária de 10,85 mil toneladas — 9,91% abaixo do mesmo período de julho de 2025. Mantido o ritmo, julho deve fechar perto de 249,44 mil toneladas, o menor volume mensal do ano. Mas o preço fez o caminho oposto: a tonelada exportada saiu, em média, a US$ 6.368,89, alta de 14,77% sobre julho do ano passado — e a receita ainda cresceu 3,4%, mesmo com menos volume. Do lado de dentro, o que se via era o contrário do esperado: a arroba do boi gordo subiu. Em 30 de julho, São Paulo estava a R$ 349,58, o Pará avançou 0,62% para R$ 331,30, e Mato Grosso do Sul, Goiás, Minas e Mato Grosso ficaram entre R$ 326 e R$ 335. O motivo é a oferta: há pouco boi terminado, e as plantas frigoríficas trabalham com escalas de abate de cinco a sete dias úteis — praticamente sem folga. A Abiec projeta que os embarques à China caiam quase pela metade em 2026; no primeiro semestre, a China respondeu por 50,07% de toda a exportação brasileira de carne bovina.
Na edição passada eu disse para observar a arroba, porque quando o abate para a oferta interna tende a subir e o preço a cair. Não foi o que aconteceu, e a razão é boa de entender: o gado que sustentaria essa oferta não existe em quantidade. Menos boi confinado, menos animal terminado, e a indústria disputando o pouco que tem. O resultado é uma pinça: o frigorífico compra matéria-prima mais cara e, ao mesmo tempo, embarca menos volume porque a janela chinesa fechou. Preço bom de exportação não compensa isso sozinho. E há uma segunda camada, mais estrutural: com a China valendo metade da pauta e caindo pela metade, quem depender de um único destino vai passar o segundo semestre reagindo. Diversificação de mercado, aqui, não é slogan — é a diferença entre planejar o abate e improvisar. Só que planejar abate exige o que quase ninguém tem pronto: previsão de oferta de animal cruzada com previsão de demanda por destino, no mesmo lugar, na mesma semana.
o comportamento das escalas de abate em agosto (se continuarem em cinco dias, o preço da arroba não cede) + os resultados do 2º trimestre dos grandes frigoríficos, que começam a sair na semana que vem e vão mostrar quanto dessa pinça chegou à margem + se aparece destino novo com volume relevante para ocupar o espaço da China.