AgroReview

§ AgroReview · Edição #23 · 13 de julho de 2026

Recorde de exportação, e a conta de provar o que se produz

Se um homem não sabe a que porto se dirige, nenhum vento lhe será favorável.

Sêneca, Cartas a Lucílio (Carta 71)

O agro brasileiro acabou de fechar o melhor primeiro semestre exportador da história: US$ 87 bilhões. Nunca embarcamos tanto.

E, na mesma semana, o Brasil foi retirado da lista de países habilitados a exportar carne para a União Europeia — não por qualidade, não por preço, mas por não ter provado dentro do prazo o que faz com antimicrobianos na pecuária.

É essa a tensão da última semana. O vento nunca esteve tão bom. O porto é que está em disputa — e a entrada nele passou a depender de documento, de dado e de sistema.

§ O que realmente importa

A União Europeia respondeu ao Brasil — e a resposta foi não

O que aconteceu

O Brasil ficou fora da lista de países habilitados a exportar produtos de origem animal para a União Europeia sob as novas regras de antimicrobianos, que passam a valer em 3 de setembro de 2026. A base é o Regulamento de Execução (UE) 2026/1189. O Brasil foi o único país citado por não ter entregue, no prazo, as garantias de que não usa antimicrobianos considerados críticos para a saúde humana. O bloco rejeitou o pedido brasileiro de transição — a proposta de restringir o uso apenas na fase final de engorda não foi aceita; a UE exige controle documental ao longo de toda a vida do animal. A lista europeia de substâncias proibidas inclui não só antibióticos, mas também os ionóforos (aditivos amplamente usados na ração bovina para melhorar conversão alimentar). As regras alcançam bovinos, equinos, aves, aquicultura, mel e tripas. Do lado brasileiro, o MAPA reagiu: publicou a Portaria SDA/MAPA nº 1.617/2026 (que proíbe a fabricação, venda e uso de aditivos melhoradores de desempenho com antimicrobianos relevantes para a medicina humana) e colocou em vigor, em 1º de julho, um novo sistema nacional de rastreabilidade do uso de antimicrobianos na pecuária — desenhado para documentar o ciclo de vida completo do animal.

Por que isso importa

Sinalizamos esse risco em junho. Agora ele tem data, número de regulamento e consequência. E a consequência é assimétrica por proteína: aves (ciclo de ~40 dias) e suínos (~150 dias) conseguem se adequar dentro de 2026, porque o ciclo se renova rápido e a produção é integrada. Bovino, não. O ciclo de um boi vai de 24 a 36 meses — o animal que será abatido para exportar em 2027 já nasceu, já foi alimentado, e o histórico dele não foi registrado sob a regra nova. Na prática, isso significa uma janela de exclusão de vários anos para a carne bovina no mercado europeu, mesmo com o sistema entrando em vigor agora. Só Mato Grosso, maior exportador do país, vendeu US$ 274,4 milhões à UE em 2025. E aqui está o ponto que interessa a quem lidera: o que separa o Brasil da UE hoje não é a prática — é a prova. O sistema de rastreabilidade que o governo publicou é a peça de compliance; o que ainda não existe, na maioria das operações, é o encanamento que liga prontuário veterinário, manejo, confinamento, abate e certificado de exportação sem quebra de dado no meio.

O que observar

a adesão real ao sistema do MAPA nas próximas semanas + se a UE reabre negociação antes de 3 de setembro + como frigoríficos vão segregar linha "UE-compliant" da linha geral.

US$ 87 bilhões: o recorde de exportação e o que ele esconde

O que aconteceu

O agronegócio brasileiro exportou US$ 87 bilhões no primeiro semestre de 2026 — o maior valor já registrado para o período, segundo o Ministério da Agricultura. O resultado foi sustentado por volume, não por preço: soja em grão bateu recorde de embarque (69,6 milhões de toneladas, +7,1%), e carne bovina, suína e de frango, algodão, farelo de soja, café solúvel, DDG, arroz e óleo de milho também marcaram recordes. O milho somou US$ 1,7 bilhão (+20,6%), puxado por Vietnã e Egito. A China segue líder absoluta entre os compradores: 35,1% de tudo que o agro brasileiro vendeu, US$ 30,5 bilhões no semestre. Na contramão, o açúcar bruto caiu 24,5% em receita, reflexo de uma queda de 21,9% no preço médio internacional.

Por que isso importa

Recorde de receita puxado por volume, com preço caindo, é um recorde que trabalha mais. Significa mais carga movimentada, mais armazenagem, mais logística, mais certificação — para ganhar a mesma coisa, ou menos por tonelada. E a composição do recorde é o alerta: mais de um terço da pauta depende de um único comprador. É exatamente a estrutura que transforma qualquer decisão externa — uma cota que fecha, uma lista sanitária que muda, uma tarifa que entra em vigor — em impacto direto na margem. Diversificar destino não é discurso: é a única forma de tirar peso do lado de fora da balança. E cada destino novo cobra o seu próprio pacote de rastreabilidade e certificação.

O que observar

os números de julho da balança (o primeiro mês pós-cota chinesa) + se algum destino novo aparece com volume relevante + o comportamento do preço médio da soja e do açúcar no 2º semestre.

R$ 15 bilhões para exportadores — e a linha inclui inovação tecnológica

O que aconteceu

A Câmara dos Deputados aprovou a Medida Provisória 1345/26, que libera R$ 15 bilhões em linhas de crédito para empresas exportadoras atingidas pela instabilidade internacional e pela elevação unilateral de tarifas. O texto aprovado — da comissão mista, com relatoria do senador Alan Rick — incluiu a agroindústria e a mineração entre os beneficiários. As linhas operam dentro do Plano Brasil Soberano em quatro modalidades: capital de giro, compra de máquinas, ampliação da produção e investimento em inovação tecnológica. A MP segue para o Senado.

Por que isso importa

Nasceu como resposta ao tarifaço, mas o que ficou no texto é mais amplo — e mais útil. Uma linha de crédito subsidiada que aceita "investimento em inovação tecnológica" como destino, dentro de uma agroindústria que acabou de descobrir que precisa provar documentalmente o que faz com cada animal, é uma coincidência de calendário que vale a pena olhar com atenção. Para o executivo de agroindústria: existe dinheiro nomeado para o problema que caiu na sua mesa esta semana. Para quem vende tecnologia ao agro: o argumento de venda deixou de ser só ROI — passou a ser acesso a mercado, com uma fonte de funding identificável do outro lado.

O que observar

a tramitação no Senado + as regras operacionais das linhas (quem opera, qual taxa, qual prazo) + se rastreabilidade entra explicitamente como uso elegível.

§ Radar de mercado

Tarifas EUA: a decisão sai terça (15/7)

O USTR (Escritório do Representante Comercial dos EUA) deve anunciar até terça-feira o resultado da investigação da Seção 301. A CNI estima que cerca de 4 mil produtos brasileiros podem ser atingidos, com até US$ 14,9 bilhões em exportações em risco. Carne bovina, café, terras raras e peças de aeronaves estão fora da proposta de tarifa de 25%. Há ainda uma segunda investigação em curso, sobre suspeitas de trabalho forçado em cadeias produtivas.

Mais GoiásInfoMoney

Café dispara com risco de geada

O arábica subiu 7,74% na semana encerrada em 10/7 e fechou a R$ 1.762,83 por saca no indicador CEPEA/Esalq (o CEPEA é o centro de pesquisa da Esalq/USP que serve como referência oficial de preço para commodities agrícolas). No mês, a alta acumulada passa de 13%. O gatilho: previsão de geada no Sul de Minas, Mogiana Paulista e Paraná, que levou fundos a cobrir posições em Nova York e Londres.

Divulgar Dinheiro/CEPEAArapuã News

Boi gordo recua

A arroba caiu 1,56% em São Paulo na semana, para R$ 324,70, acumulando queda de 3,48% no mês — o efeito do redirecionamento de volume que deixou de ir à China começa a aparecer na oferta interna.

Vitória News/CEPEA

Cana: 4ª safra seguida acima de 600 milhões de toneladas

O Centro-Sul deve produzir cerca de 635 milhões de toneladas em 2026/27, segundo a Hedgepoint, com mix de açúcar estimado em torno de 47,5%. Margem apertada dos dois lados: preço internacional do açúcar em queda e oferta abundante de etanol no mercado interno.

Portal do Agronegócio

Semana de números

Terça (14/7) sai o Levantamento Sistemático da Produção Agrícola de junho, do IBGE. Sexta (17/7), a intenção de plantio 2026/27 para soja, milho, arroz, algodão e feijão. A produção 2025/26 segue projetada em 358,6 milhões de toneladas, recorde.

SAFRAS & Mercado

Agro brasileiro registrou mais de 39 mil ataques cibernéticos em 2025

média de mais de 3,2 mil tentativas de invasão por mês. A conectividade cresceu mais rápido que a defesa: 84% dos produtores usam alguma solução digital, mas 56% ainda gerenciam a operação por planilha.

Portal do Agronegócio

§ Mundo Tech

O Brasil lidera a adoção de agentes de IA — e não sabe dizer se está dando certo

Um dado que merece dois minutos de atenção: segundo o relatório Tech Trends 2026 LATAM, da GFT Technologies, 18% das organizações brasileiras já colocaram agentes de IA rodando dentro do fluxo de trabalho — contra uma média global de 13%. Estamos à frente.

O problema aparece na linha de baixo. Só cerca de 18% das organizações conseguem medir o retorno das iniciativas de IA. E apenas cerca de 30% têm maturidade adequada de governança e controle sobre o que esses agentes fazem.

Traduzindo para a mesa do executivo: a adoção cresceu; o impacto comprovado, não. Estamos numa fase em que muita empresa tem agente de IA rodando, ninguém sabe exatamente quanto ele economizou, e menos gente ainda sabe exatamente o que ele acessa e o que ele pode responder errado. Isso não é um problema de tecnologia — é um problema de arquitetura e de escopo. Agente que pode ir a qualquer lugar do dado alucina; agente cercado dentro de um domínio bem definido responde. E o que não é medido não sobrevive ao próximo corte de orçamento.

A Microsoft começou a trocar OpenAI e Anthropic por modelo próprio dentro do Excel e do Outlook

Reportagem da Bloomberg de 7 de julho mostra que a Microsoft passou a processar parte das requisições de IA do Excel e do Outlook com seus modelos próprios (a família MAI), no lugar dos modelos de OpenAI e Anthropic. São dezenas de milhares de requisições por semana. Os modelos MAI também já rodam no GitHub Copilot.

A frase de Mustafa Suleyman, chefe da divisão de IA da Microsoft, é direta:

Pagamos muito dinheiro à Anthropic — então nosso objetivo é reduzir e, no fim, eliminar esse custo.

Para quem lidera no agro, o recado não é sobre qual modelo é melhor. É sobre dependência invisível. Se a sua empresa usa IA embutida no pacote de produtividade, o modelo que responde às suas perguntas pode mudar sem que ninguém do seu time decida nada — com efeito no custo, na qualidade da resposta e em onde o seu dado transita. Vale a pergunta ao time de TI: nós sabemos qual modelo está por trás de cada ferramenta de IA que usamos, e o que acontece quando ele troca?

§ Sinal fraco

O avião pode virar o próximo grande cliente do agro brasileiro

Enquanto a semana discute lista sanitária e tarifa, um mercado novo está sendo montado quase em silêncio — e ele tem o Brasil no centro.

O SAF (Sustainable Aviation Fuel, ou combustível sustentável de aviação) é o combustível de avião feito a partir de fontes renováveis — entre elas, etanol. As projeções do setor apontam demanda de 40 a 50 bilhões de litros até 2035, empurrada por mandatos internacionais de descarbonização do transporte aéreo.

E o Brasil não está começando do zero. A Lei do Combustível do Futuro (2024) e a regulamentação do ProBioQAV já criam demanda doméstica obrigatória: a partir de 2027, as companhias aéreas terão de reduzir em 1% as emissões dos voos domésticos via SAF — meta que sobe gradualmente até 10% em 2037.

O detalhe que quase ninguém comenta é de onde vem a matéria-prima. O etanol de milho saiu praticamente do zero para responder por cerca de um quarto de todo o etanol produzido no país em menos de dez anos — e o modelo brasileiro tem vantagem ambiental sobre o americano, porque as usinas usam biomassa como fonte de energia e operam majoritariamente sobre a safrinha, aproveitando área agrícola que já existe.

Junte as pontas: um país com grão sobrando, usina de etanol se multiplicando, e um comprador global obrigado por lei a comprar. O que decide quem captura esse valor não é a capacidade de produzir — é a capacidade de provar a pegada de carbono de cada litro, do talhão ao tanque. Outra vez, a rastreabilidade é o gargalo. E outra vez, ela é um problema de dado.

§ Gatua Context

Gatua Digital Studio, gravado no TI do Futuro: Mario Arias (CHB) e o antídoto contra a IA que alucina

Aquele dado do Bloco Tech — o Brasil adota agente de IA acima da média mundial, mas não sabe medir o retorno nem governar o escopo — tem uma resposta prática. E ela veio de dentro de uma usina.

Neste episódio do Gatua Digital Studio, gravado durante o TI do Futuro, conversamos com Mario Arias, CEO da CHB — empresa Partner da Gatua, que completa 40 anos em 2026 desenvolvendo software para a cadeia sucroalcooleira.

Em 2023, a CHB percebeu que a maior demanda das usinas tinha deixado de ser operacional e passado a ser estratégica — e mudou o próprio modelo de negócio. O lema saiu de "gestão de processo" para "da estratégia ao controle".

Mas o trecho que conecta direto com o que discutimos nesta edição é o de IA. Mario descreve o problema com todas as letras:

Qual é o grande problema da IA? Ela alucina. (...) Ela está comparando laranja com banana.

A solução da CHB foi arquitetural, não mágica:

  • Fecharam a IA dentro do próprio Data Warehouse — a base consolidada que reúne os indicadores de mais de 4.000 tabelas do sistema. A IA não sai dali.
  • Dentro desse limite, criaram 50 agentes ultra especializados — um para colheita, outro para custo, cada um restrito ao seu "quadradinho" de dado.
  • Resultado: mais de 95% de assertividade nas consultas — algo raro nesse tipo de aplicação.
  • E a fase 2 já está em construção: um projeto preditivo que analisa a frota inteira de uma usina e antecipa quais veículos vão quebrar, quando e por quê — cruzando dados de máquina, peças e manuais técnicos, para intervir antes da parada.

Por que isso importa num setor que trabalha com janela: como o próprio Mario explica, no agro há operações que só podem ser feitas com chuva, outras só sem chuva, e várias que criam dependência em cadeia. Cada equipamento parado empurra a fila inteira. Índice operacional não é métrica de manutenção — é métrica de safra.

E sobre a parceria com a Gatua, ele foi direto: o valor está em ter acesso a pares desenvolvedores e às próprias usinas — inclusive as que não são clientes da CHB — para ler a tendência do mercado inteiro, e não só a da própria base.

Se eu falo só com as usinas que usam CHB, não tem jeito, é enviesado. É importante falar com o mercado inteiro para a gente ver a tendência, para onde está indo, o que já está resolvido, o que precisa ser abordado.

Mario Arias, CEO da CHB
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Foi uma semana de recorde e de porta fechada ao mesmo tempo — e as duas coisas contam a mesma história.

O Brasil produz. Isso está resolvido: US$ 87 bilhões em seis meses não deixam dúvida. O que ainda não está resolvido é a segunda metade da frase — provar, com dado, o que foi produzido e como. É isso que a União Europeia cobrou esta semana. É isso que o SAF vai cobrar amanhã. E é a mesma lacuna que faz uma empresa ter agente de IA rodando sem saber dizer quanto ele rendeu.

Produzir a gente já sabe. Comprovar é o trabalho da próxima década.

Bruno BarrosCEO, Gatua

§ Comece de leve

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