AgroReview

§ AgroReview · Edição #21 · 29 de junho de 2026

O Plano Safra de amanhã, o prazo americano de terça e o agro que não vê jogo do lado de fora

A diligência é a mãe da fortuna.

Miguel de Cervantes, Dom Quixote

Hoje é dia de Copa.

Às 14h, o Brasil entra em campo contra o Japão nos 16 avos de final da Copa do Mundo 2026, no NRG Stadium, em Houston. É o primeiro jogo eliminatório da seleção — e boa parte do país vai parar.

O agro não para.

Amanhã, 30 de junho, o governo federal lança o Plano Safra 2026/27 — com estimativas entre R$ 570 bilhões e R$ 652 bilhões em crédito rural. Na terça-feira, 1º de julho, vence o prazo para envio de comentários formais ao USTR (Escritório do Representante Comercial dos EUA) sobre as tarifas de 25% que têm decisão final em 15 de julho. E no campo, a colheita da segunda safra de milho avança com um paradoxo que não espera pelo apito: volume em nível recorde projetado de 140 milhões de toneladas — e preços em queda.

É essa a natureza do agronegócio: as estações não combinam data com o calendário humano.

§ O que realmente importa

Plano Safra 2026/27: amanhã, entre R$ 570 bi e R$ 652 bi — e o que mudou nos juros

O que aconteceu

O governo federal lança o Plano Safra 2026/27 amanhã, 30 de junho, às vésperas do início do novo ano agrícola em 1º de julho. As estimativas consolidadas apontam para recursos entre R$ 570 bilhões e R$ 652 bilhões — crescimento de pelo menos 10% sobre o ciclo anterior (R$ 516 bi). A principal mudança negociada pelo Ministério da Agricultura junto ao Ministério da Fazenda: redução de 2 pontos percentuais nas taxas de juros em relação ao ciclo 2025/26, com expectativa de faixa entre 6% e 11% ao ano para a agricultura empresarial. O ciclo anterior praticou as taxas mais altas dos últimos anos.

Por que isso importa

O Plano Safra não é só crédito — é o termômetro de quanto capital vai entrar no campo no próximo ciclo. Com margens pressionadas pela queda nas cotações de milho e soja, juros menores representam oxigênio direto para a decisão de custeio e investimento. Para empresas de tecnologia que vendem ao agro: o volume de crédito disponível determina o apetite do cliente para adotar novas soluções. Quando o crédito aperta, o tomador de decisão congela. Quando afrouxa — especialmente com juros menores — a janela de venda abre.

O que observar

valor final e taxas por linha de crédito publicados amanhã + abertura das primeiras operações em 1º de julho + reação das cooperativas e tradings ao texto publicado.

USTR: a semana mais crítica das tarifas — o que o agro ganhou e o que ainda está em risco

O que aconteceu

Esta é a semana de encerramento do processo formal do USTR sobre as tarifas de 25% aplicadas ao Brasil. O prazo para envio de comentários escritos formais vence em 1º de julho (amanhã à noite). A audiência pública ocorre em 6 e 7 de julho, em Washington. A decisão final está marcada para 15 de julho. O agro saiu relativamente bem nas isenções: carnes bovinas, café, frutas, cereais, sementes, plantas medicinais e forragens foram excluídas da sobretaxa — porque os EUA simplesmente não têm como suprir esses volumes internamente. Mas a CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil) estima que a manutenção das sobretaxas nos itens não isentos pode retirar R$ 13,5 bilhões (US$ 2,7 bilhões) da balança comercial anual — o equivalente a 22% do volume total que o setor agropecuário enviou aos EUA no ciclo anterior.

Por que isso importa

As isenções revelam algo estrutural: os EUA precisam de proteína, café e grãos brasileiros — e não têm alternativa de escala no curto prazo. A tarifa é instrumento político, não sanitário. O que está em jogo nas próximas semanas são a segunda e terceira linha da pauta exportadora: processados, semielaborados e ingredientes agroindustriais que não chegam às manchetes, mas que compõem cadeias de valor de muitas empresas do agro. O prazo de 1º de julho é a última janela formal para influenciar o texto antes da decisão.

O que observar

audiência pública de 6-7 de julho + lista final de isenções e exclusões no decreto de 15 de julho + posição do MAPA e da CAMEX após a decisão.

Milho: safra recorde, preços no piso — e a conta que não fecha

O que aconteceu

A colheita da segunda safra de milho avança no Centro-Oeste com produção total projetada em 140,46 milhões de toneladas para o ciclo 2025/26 — volume expressivo. Mas os preços caem. A referência FOB em Paranaguá recuou de US$ 231 para US$ 208 por tonelada entre maio e junho de 2026. No mercado doméstico, as cotações acumulam quedas ao longo do ano. O motivo é global: Brasil e Argentina chegaram ao mercado com grandes safras simultaneamente, disputando os mesmos compradores — China, Egito, Irã, União Europeia.

Por que isso importa

A lógica "produzir mais = ganhar mais" falha quando todos produzem mais ao mesmo tempo. O produtor de milho está colhendo volume recorde com margens menores do que no ano passado — e o custo de frete e armazenagem continua pressionado. Para a cadeia de aves e suínos (os dois maiores consumidores de milho no Brasil), a queda no preço do grão é alívio de custo. Para o produtor, é um problema de liquidez que vai influenciar a decisão de plantio da próxima safra. A pergunta que o mercado está fazendo: quem vai comprar esse milho — e onde?

O que observar

destinos de exportação de milho em julho (China, Egito, Irã?) + impacto na decisão de plantio da safrinha 2026/27 + preços nos contratos futuros CBOT.

§ Radar de mercado

Soja: ANEC projeta 15,21 mi t exportadas em junho

Acumulado jan-jun: 73,95 mi t — ritmo acima de 2025. Programação para a semana de 21-27 de junho: 3,47 mi t embarcadas.

CNN Brasil

UE veto: ABPA pede ao MAPA proibição total de antimicrobianos em aves

Após as portarias de abril e maio que proibiram uso em bovinos, equinos e peixes, a Associação Brasileira de Proteína Animal formalizou pedido para ampliar a restrição às aves — buscando reabertura da lista europeia antes de 3 de setembro.

CompreRural

Etanol: continua pressionado nas usinas paulistas

Hidratado acumulou nova queda de 0,67% na semana de 5 de junho, prolongando a pressão do piso de R$ 4,26 por litro. A decisão de mix para o ciclo 2026/27 é o tema central das usinas em julho.

CEPEA

Marco Legal da IA: junho encerra sem votação

O PL 2.338/2023 aguarda plenário na Câmara. Hugo Motta havia sinalizado votação ainda em junho. O mês encerra sem data confirmada. O texto é público: empresas podem iniciar o mapeamento de compliance agora.

Plano Safra: lançamento amanhã, 30/06

Crédito disponível a partir de 1º de julho. R$ 570 bi a R$ 652 bi. Juros projetados: 6-11% ao ano para agricultura empresarial.

USTR: prazo de comentários vence amanhã

1º de julho: último dia para objeções formais por escrito. 6-7 de julho: audiência pública em Washington. 15 de julho: decisão final e início da aplicação das tarifas.

§ Mundo Tech

Agentes de IA como identidade não rastreada — o risco que o agro ainda não mapeou

O Relatório de Cibersegurança 2026 da Check Point consolidou o que especialistas vinham sinalizando: agentes de IA — sistemas que executam tarefas de forma autônoma, como copilots do M365, chatbots integrados ao ERP, ou assistentes que geram relatórios — deixaram de ser ferramentas. Tornaram-se identidades digitais que operam dentro das organizações: acessam sistemas, leem dados sensíveis, tomam ações. Sem passar pelo controle de TI. Sem auditoria.

O indicador que resume o risco: aumento de 97% em prompts classificados como "de alto risco" — instruções enviadas a sistemas de IA que podem comprometer dados ou operações internas.

Para o executivo do agro: cada ferramenta de IA contratada diretamente pelo financeiro, pelo campo ou pelo comercial — fora da alçada de TI — é uma identidade não auditada que acessa dados reais. A questão não é se a ferramenta é confiável. É se você sabe o que ela acessa, com qual frequência e com quais permissões.

Falamos sobre isso em profundidade com Fernando De Falchi (Check Point) no Gatua Digital Studio — o episódio está no Gatua Context desta edição.

Microsoft lança família MAI: sete modelos próprios e independência do OpenAI

No Microsoft Build 2026, em junho, a Microsoft apresentou a família MAI — sete modelos de IA desenvolvidos internamente, sem dependência do OpenAI. Os mais relevantes para o mundo corporativo: MAI-Thinking-1 (raciocínio complexo, treinado com dados licenciados sem compartilhamento externo) e MAI-Code-1-Flash (converte descrições em texto para código funcional em segundos).

Para empresas do agro que usam Microsoft 365, Azure ou Copilot: os modelos passam a rodar na infraestrutura proprietária da Microsoft — com possibilidade de treinamento com dados internos sem envio a servidores de terceiros.

Para cadeias que estão construindo sistemas de controle sanitário, rastreabilidade veterinária ou conformidade de exportação — o que os prazos europeus estão exigindo — isso representa uma camada de controle de dados que o modelo anterior não oferecia.

§ Sinal fraco

A armadilha da commodity — e o valor que o agro ainda não está capturando

O Brasil vai colher mais de 140 milhões de toneladas de milho este ciclo. E os preços estão caindo.

Não porque o milho perdeu importância. Mas porque o Brasil chegou ao mercado como commodity pura — no mesmo momento que a Argentina, com o mesmo produto, disputando os mesmos compradores.

Essa situação — safra recorde com preço deprimido — não é uma anomalia. É uma tendência que vai se repetir toda vez que o crescimento de volume não for acompanhado de diferenciação de produto ou de destino.

A lição é mais ampla do que o milho.

A Europa já exige rastreabilidade de origem animal para aceitar proteína brasileira — o veto de setembro é o exemplo mais recente. Os EUA sinalizaram, nas rodadas do USTR, que as isenções comerciais vêm acompanhadas de exigências crescentes de certificação de origem e prática agrícola. O Japão remunera com prêmio produtos com histórico documentado de manejo.

O padrão que está se formando: rastreabilidade como passaporte de acesso a mercados premium.

Produtores e agroindústrias que conseguirem demonstrar, de forma auditável, a origem e o manejo da sua produção — uso de antimicrobianos, defensivos, pegada de carbono, consumo de água — vão acessar mercados e margens que o mercado de commodity padrão simplesmente não vai ofertar.

O que falta não é tecnologia — ela já existe. É integração: sistemas de gestão de campo, prontuário veterinário eletrônico, ERP e plataformas de exportação precisam conversar entre si com padrão reconhecido pelos destinos de exportação.

Quem construir essa integração — ou conectar o que já existe com rastreabilidade auditável — vai estar na posição certa quando os próximos prazos chegarem.

E eles sempre chegam.

§ Gatua Context

TI do Futuro — Ep. 03: Fernando De Falchi (Check Point) no Gatua Digital Studio

Gravamos em maio, no Gatua Digital Studio em Ribeirão Preto, um dos episódios mais densos do TI do Futuro.

Fernando De Falchi, Security Engineering Manager da Check Point, conversou sobre cibersegurança na era da IA — governança, prevenção e o que muda nos próximos dois anos.

A Check Point tem mais de 30 anos de mercado e inventou a tecnologia Stateful Inspection — presente em todos os firewalls do mundo. Fernando trouxe para a conversa o que acontece quando a IA chega dos dois lados: na defesa e no ataque.

Assistir no YouTube
  • Como governar mais de 100.000 ferramentas de IA públicas disponíveis para qualquer colaborador
  • Por que automação é o que permite à TI responder na mesma velocidade dos atacantes
  • O case da vulnerabilidade Oracle de 2024 — quem recebeu o alerta no momento certo evitou o incidente
  • "Prevenção sempre" — o mantra da Check Point e o que ele significa na prática hoje
  • O que a Check Point está desenvolvendo para os próximos dois anos no campo de segurança para IA

Amanhã sai o Plano Safra. Na terça fecha o prazo americano. No campo, o milho avança com preços em queda e perguntas sem resposta sobre destino. O agro não escolhe quando os sinais chegam — e esta semana, eles chegaram juntos.

Hoje, às 14h, o Brasil entra em campo no NRG Stadium, em Houston, contra o Japão — nos 16 avos de final da Copa do Mundo. Histórico favorável: 11 vitórias, 2 empates e apenas uma derrota em 14 confrontos oficiais. Não é garantia de nada. Mas é uma boa base para entrar em campo.

Vai, Brasil.

Bruno BarrosCEO, Gatua

§ Comece de leve

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