AgroReview

§ AgroReview · Edição #19 · 15 de junho de 2026

A maior safra da história e os prazos que chegam juntos

Bem-aventurado quem pôde conhecer as causas das coisas.

Virgil, Geórgicas, II.490

A última semana entregou o número mais alto da história agrícola brasileira — e acelerou três prazos ao mesmo tempo.

A Conab confirmou em 11 de junho: 358,6 milhões de toneladas de grãos na safra 2025/26 — recorde absoluto. A soja atingiu 180,1 milhões de toneladas — também recorde, o maior volume já colhido no país. O Brasil está no pico de sua capacidade produtiva.

Ao mesmo tempo: a Raízen saiu da fase de negociação e entrou na fase de transição de controle. O prazo de negociação com os EUA chega a seu limite em cinco dias. E o Plano Safra 2026/27 ainda não tem número definitivo para o produtor.

Esta edição explica o que fazer com isso — se você lidera uma agroindústria ou vende tecnologia para o setor.

§ O que realmente importa

Conab 9º levantamento: 358,6 mi t de grãos e soja histórica de 180,1 mi t

O que aconteceu

Em 11 de junho, a Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) divulgou o 9º levantamento da safra 2025/26, projetando produção total de 358,6 milhões de toneladas de grãos — novo recorde histórico (+1,8% sobre o ciclo anterior). A soja atingiu 180,1 milhões de toneladas (também recorde absoluto), com ganho de 8,6 milhões de toneladas em relação ao ciclo passado. O milho manteve 140,2 milhões de toneladas — segundo maior da série histórica. Em paralelo, o USDA divulgou o relatório WASDE de junho projetando que os estoques mundiais de milho sobem para 281,2 milhões de toneladas e que a safra global de soja em 2026/27 pode alcançar 441 milhões de toneladas — com o Brasil contribuindo com 186 milhões de toneladas no próximo ciclo.

Por que isso importa

Abundância de produção com preços em queda (soja abaixo de US$11,8/bushel) é uma equação familiar: o Brasil produz mais e ganha menos por unidade. Para processadoras, esmagadoras e agroindústrias que compram grãos como insumo, é uma janela de custo de matéria-prima controlado. Para quem exporta commodity: pressão de margem. O USDA também apontou que Brasil e Argentina empataram nas exportações de milho em 2025/26 (43 mi t cada) — a América do Sul começa a substituir os EUA como referência de formação de preço do cereal. Para empresas de crédito e cooperativas de insumo: produtor que vendeu soja abaixo de R$130/saca vai entrar no Plano Safra 2026/27 com margem mais apertada — e mais propenso a negociar financiamentos.

O que observar

confirmação final Conab pós-colheita + WASDE de julho com ajuste de demanda chinesa + impacto da super-safra de milho no custo de ração e, por consequência, no ciclo de terminação de bovinos no segundo semestre.

Raízen: Shell confirma R$ 3,5 bi e o maior capítulo de reestruturação do Brasil encaminha desfecho

O que aconteceu

Em 8 de junho, a assembleia geral de ratificação confirmou a adesão de 75,45% dos credores ao plano de recuperação extrajudicial da Raízen — o maior processo desse tipo na história corporativa do Brasil (R$ 64,7 bilhões). A Shell comprometeu R$ 3,5 bilhões em aporte de capital (a R$ 0,25/ação), com possibilidade de mais R$ 500 milhões via Aguassanta Investimentos (holding do co-controlador Rubens Ometto). O CEO Nelson Gomes permanece à frente da operação. O plano segue para homologação judicial: a lei brasileira dá 30 dias para objeções de credores antes da confirmação definitiva.

Por que isso importa

A cadeia sucroalcooleira sai da zona de risco de ruptura. A operação de bioenergia (etanol, açúcar, cana) continua. Mas quem vai definir as prioridades de investimento nos próximos ciclos não são mais os controladores históricos (Shell e Cosan) — são credores institucionais que assumirão ~80% das ações. Credores com esse perfil tendem a buscar retorno de curto prazo, não expansão estratégica de longo prazo. Para fornecedores de insumos, tecnologia e logística das usinas ligadas à Raízen: o risco de insolvência desordenada se encerra; o risco de mudança de foco estratégico começa. A pergunta que definia contratos antes ("qual é a visão de 5 anos?") cede espaço para: "qual é o payback em 18 meses?"

O que observar

prazo de homologação judicial (30 dias a partir de 8/jun) + plano de investimentos da gestão sob nova estrutura de controle + como a Shell posiciona o negócio de distribuição de combustíveis (6.800 postos no Brasil) na estrutura pós-reestruturação.

EUA x Brasil: o prazo vence em cinco dias — e a audiência do USTR foi para julho

O que aconteceu

O prazo de 30 dias que Lula e Trump definiram em maio para avançar nas negociações comerciais vence em 20 de junho — em cinco dias. Diferente do que se estimava anteriormente, o USTR (Escritório do Representante Comercial dos EUA) fixou a audiência pública para 6 de julho (e não para 22 de junho como indicavam os primeiros comunicados). O prazo para envio de argumentos escritos pelas partes é 1º de julho. A decisão definitiva sobre as tarifas de 25% sobre produtos brasileiros deve sair até 15 de julho.

Por que isso importa

O agro ficou majoritariamente fora das tarifas propostas — carnes, café, frutas, cereais, fertilizantes e sementes estão na lista de exceções americanas. Mas a incerteza de câmbio que uma tarifa de 25% sobre manufaturados brasileiros gera contamina toda a cadeia: câmbio alto comprime margens de quem importa equipamentos, componentes e sistemas. O que mudou em relação à edição anterior: o prazo bilateral vence sem resolução, e o calendário agora segue pelo rito do USTR — não pelo diálogo entre os governos. O campo de jogo mudou de "negociação" para "argumento técnico antes da audiência".

O que observar

se o governo brasileiro apresenta propostas concretas antes de 1º de julho + postura do setor exportador nas audiências + decisão definitiva em 15 de julho, que define o cenário do 2S26.

§ Radar de mercado

Conab: soja histórica de 180,1 mi t — +8,6 mi t acima do ciclo anterior

9º levantamento da safra 2025/26 (11/junho). Safra total de grãos: 358,6 mi t (recorde). Milho: 140,2 mi t (2ª maior da série histórica).

Agência Gov

WASDE junho: estoques mundiais de milho sobem e Brasil empata com Argentina em exportações

USDA eleva estoques globais de milho para 281,2 mi t no ciclo 2026/27. Brasil e Argentina projetam exportar 43 mi t de milho cada — a América do Sul torna-se referência de preço do cereal. Soja global 2026/27 projetada em 441 mi t (novo recorde).

A Gazeta News

Exportação de carne bovina em junho: média diária +29,8% vs 2025

Primeira parcial de junho: 15,64 mil t/dia exportadas a US$6,58/kg — maior preço para o período do ano desde 2022. China comprou US$1,04 bilhão em maio (+80% vs 2025).

FarmNews

Plano Safra 2026/27: anúncio em 1º de julho, R$ 550 bi projetados

Ministro da Agricultura confirmou o lançamento para 1º de julho. Volume 10% acima do ciclo anterior (R$ 516,2 bi). Variável crítica ainda em negociação: taxa de equalização de juros, que define o custo real para o produtor.

Diário do Comércio

EUDR: prazo para PMEs é 30 de junho — 15 dias

A regulação antidesmatamento da União Europeia (que exige rastreabilidade georreferenciada de soja, carne, café, cacau, madeira, borracha e óleo de palma exportados para a Europa) vence para micro e pequenas empresas em 15 dias. Para grandes exportadores: 30 de dezembro de 2026.

AgFeed

Cana 2026/27: Conab projeta 709,1 mi t (+5,3%) e etanol em novo recorde histórico

1º levantamento do ciclo: se confirmada, será a segunda maior safra da história. Etanol projetado em 40,69 bilhões de litros (+8,5% vs ciclo anterior) — potencial recorde. Área de colheita pode alcançar 9,1 mi ha — a maior já registrada.

ISTOÉ Dinheiro

Marco Legal da IA: parecer apresentado em 9 de junho, plenário ainda sem data

O relator Aguinaldo Ribeiro (PP-PB) apresentou o texto em 9 de junho à Comissão Especial. Hugo Motta havia prometido votação em plenário em junho. Até a publicação desta edição, data para o plenário não havia sido confirmada.

Câmara dos Deputados

§ Mundo Tech

Claude Fable 5: a Anthropic lança um novo modelo — e o governo americano bloqueia em 72 horas

A Anthropic lançou o Claude Fable 5 (junto com o Mythos 5) e o governo dos EUA bloqueou o acesso internacional em menos de 72 horas, citando "preocupações de segurança nacional" sem detalhar os riscos específicos. A restrição impede o uso por usuários fora dos EUA e por estrangeiros dentro do país — incluindo funcionários da própria Anthropic. O modelo estava disponível gratuitamente por 13 dias e seria oferecido depois via API (interface de programação, a forma como sistemas externos acessam o modelo). A Anthropic contestou a decisão, argumentando que a mesma interpretação poderia "comprometer lançamentos de praticamente toda a indústria de inteligência artificial".

O que isso revela para quem usa IA nas empresas: o risco de acesso a modelos de fronteira deixou de ser apenas técnico (o modelo tem capacidade suficiente?) e passou a incluir uma variável geopolítica (o modelo vai estar disponível amanhã?). Para agroindústrias ou empresas de tecnologia que integram IA em processos críticos — compliance de exportação, rastreabilidade, automação de contratos —, dependência exclusiva de um único fornecedor de modelo de IA é um risco de continuidade de negócio concreto. Isso não invalida o investimento em IA: invalida a estratégia de não ter alternativa.

Anthropic protocola IPO confidencial na SEC — e o mercado de IA entra numa nova fase

Em 1º de junho, a Anthropic protocolou um pedido confidencial de oferta pública inicial (IPO) junto à SEC (Securities and Exchange Commission, a comissão de valores mobiliários americana). A janela estimada para a estreia na bolsa é outubro de 2026. O valuation da empresa atingiu US$ 965 bilhões em maio, superando a OpenAI. A receita anualizada ultrapassou US$ 44 bilhões, com projeção de US$ 70 bilhões até 2028.

O que muda para quem usa ou compra IA no agro: quando a principal desenvolvedora de modelos de linguagem de ponta se torna pública, o modelo de negócio muda. Empresa pública tem mais obrigação de transparência de precificação — e mais pressão por crescimento via contratos enterprise com ROI documentado. IA que era experimentação passa a ser investimento rastreável. Quem compra IA vai ser cobrado a mostrar o retorno que gerou.

Microsoft Build 2026: Scout, modelos MAI e chip quântico — o que entra em operação

No Build 2026 (1-2 de junho), a Microsoft apresentou três anúncios com impacto direto para operações corporativas.

O Scout é um agente de IA que funciona em segundo plano mesmo com o computador bloqueado — organiza calendário, processa relatórios de despesas, redige e-mails com integração nativa em Outlook, Teams e OneDrive via plataforma aberta OpenClaw. É o primeiro agente com governança corporativa embutida disponível via Microsoft 365.

Os modelos MAI (Microsoft AI) — MAI-Transcribe-1 (transcrição de áudio), MAI-Voice-1 (síntese de voz) e MAI-Image-2 — são modelos proprietários que posicionam a Microsoft como desenvolvedora independente de IA, reduzindo a dependência histórica da OpenAI.

Para agroindústrias: o Scout é o caso prático mais próximo de um agente autônomo corporativo com controles de TI que já chegou ao mercado. Operações com volume alto de documentos de compliance de exportação, contratos de grãos e relatórios de rastreabilidade são os primeiros candidatos a automatização real.

§ Sinal fraco

O focinho bovino como dado — e o que isso revela sobre o compliance que vem

Na Bahia Farm Show 2026 — a 20ª edição da maior feira de tecnologia agrícola do Norte e Nordeste, realizada em Luís Eduardo Magalhães (BA) de 8 a 13 de junho com 500+ expositores —, uma startup de Salvador chamada Raiz apresentou algo específico e cirúrgico: biometria de focinho bovino.

O focinho de um bovino tem uma placa nasal com padrões únicos — equivalente à impressão digital humana. A solução fotografa esse padrão e usa reconhecimento de imagem para identificar o animal individualmente, sem brinco, sem chip, sem nenhum dispositivo físico implantado.

Parece um produto de nicho. O timing não é acidental.

A EUDR (regulação antidesmatamento europeia, prazo 30 de dezembro de 2026 para grandes operadores) exige que cada lote de carne bovina exportado para a União Europeia seja rastreável a uma propriedade específica com georreferenciamento por polígono. Mas o gargalo da cadeia frigorífica brasileira não é o abate nem a documentação da fazenda de origem — é o rastreio do animal entre fazendas. Bovinos no Brasil mudam de propriedade em média de três a cinco vezes antes do abate. Cada transferência é um ponto de ruptura na cadeia de custódia. Brincos caem. Chips falham. Registros manuais não são atualizados.

Biometria de focinho resolve exatamente esse problema: o dado vai com o animal, não com o acessório físico que o acompanha.

Para empresas de tecnologia no agro: a janela não é teórica. O prazo de dezembro de 2026 é concreto. A solução que conseguir integrar biometria, georreferenciamento e laudo exportável em formato compatível com o que a UE aceita vai ser comprada antes do prazo. A camada de integração entre biometria, ERP do frigorífico e certificação por destino vale mais do que qualquer dispositivo isolado.

§ Gatua Partners em Foco

Delaware Brasil

Webinar Delaware Brasil: Analytics moderno com Datasphere — quarta-feira, 17/06

A Delaware Brasil — empresa parceira da Gatua especializada em transformação digital e soluções de dados — realiza uma série mensal de webinars sobre dados, planejamento e inteligência artificial: temas cada vez mais estratégicos para empresas do agro também.

Nesta quarta-feira, 17 de junho, o tema é "Analytics moderno com Datasphere" — uma discussão direta sobre como arquiteturas modernas de dados permitem decisões mais rápidas e confiáveis em operações complexas.

O SAP Datasphere é uma plataforma de gestão de dados que integra fontes de ERP, operação e campo em um ambiente analítico único — exatamente o desafio que usinas, frigoríficos e cooperativas enfrentam ao tentar cruzar dados de produção, financeiro e rastreabilidade de origens distintas.

Inscreva-se aqui

§ Gatua Context

Gatua Digital — o podcast estreou

Na semana passada, lançamos o primeiro episódio do Gatua Digital no YouTube — gravado no Gatua Meeting: TI do Futuro.

O convidado inaugural foi Walace Fonseca, Executivo de Contas da Delaware Brasil, Platinum Partner SAP — o mais alto nível de parceria concedido a uma consultoria, com origem belga e 11 anos de Brasil. A conversa foi direta: a objeção mais comum que a Delaware enfrenta no agronegócio é velha conhecida — "SAP é caro e complexo" — e Walace veio mostrar por que essa percepção ficou no passado.

O SAP de hoje atende de 10 a 1.000 usuários, com implementação em cloud, modelo de assinatura mensal e IA já embarcada nos produtos — parte do que foi anunciado no Sapphire 2025, em Orlando. O modelo consultivo da Delaware — "entender o cenário antes de vender" — define o tom de uma conversa honesta sobre como usinas, fazendas e empresas do agro estão tomando esse tipo de decisão.

Se você lida com decisões de ERP ou tecnologia de gestão na agroindústria, vale os 30 minutos.

Assistir no YouTube — Gatua Digital EP. 01

Campo Inteligente — 20 de agosto, Ribeirão Preto

O próximo Gatua Meeting: executivos de agroindústrias e empresas de tecnologia discutindo o que está sendo implementado de verdade. As vagas são limitadas.

Garanta sua vaga

A maior safra da história chegou na mesma semana em que o prazo de negociação com os EUA fecha, a Raízen encerrou dois anos de reestruturação e o governo americano bloqueou um modelo de IA 72 horas após o lançamento.

O Brasil produz mais do que nunca. As regras do mercado que vai consumir essa produção ainda estão sendo escritas.

Bruno BarrosCEO, Gatua

§ Comece de leve

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