AgroReview

§ AgroReview · Edição #15 · 18 de maio de 2026

Os recordes são do ciclo que passou

Omnia, Lucili, aliena sunt, tempus tantum nostrum est.

Sêneca (Epístolas Morais a Lucílio, Epístola I, 65 d.C.)Tudo nos é alheio, Lucílio; só o tempo nos pertence.

A última semana produziu uma colisão de dados que qualquer executivo vai encontrar na agenda nos próximos dias.

Do lado dos recordes: a Conab projeta 358 milhões de toneladas na safra 2025/26 — a maior da história, com soja em 180,1 milhões de toneladas. Exportações de carne bovina na parcial de maio cresceram 65% em volume versus o mesmo período de 2025. No papel, o agronegócio brasileiro nunca esteve tão grande.

Do lado da conta que ainda não fecha: o Plano Safra 2026/27 — que financia o próximo ciclo — é descrito pelo próprio Ministério da Agricultura como "o mais difícil de construir em anos". O boi gordo caiu 6% em menos de 30 dias enquanto a realidade da cota chinesa se materializa no preço. A Petrobras correu para reativar fábricas de ureia depois de décadas de dependência de 80% de importação. E usinas reescrevem estratégia de mix em tempo real porque o açúcar afundou e o etanol ficou 30% mais rentável.

Os recordes são do ciclo que passou. A conta do próximo está aberta.

§ O que realmente importa

Petrobras reativa fábricas de ureia: a resposta doméstica à dependência de importação começa a tomar forma

O que aconteceu

Em 14 de maio, o presidente Lula visitou a Fafen-BA (Fábrica de Fertilizantes Nitrogenados da Bahia), em Camaçari, reativada em janeiro de 2026 com investimento de R$ 100 milhões. A planta produz 1.300 toneladas diárias de ureia — cerca de 5% da demanda nacional. Com Fafen-BA, Fafen-SE (Sergipe) e ANSA (Araucária Nitrogenados S.A., no Paraná) operando, a Petrobras projeta cobrir 20% do mercado interno de ureia. A entrada da UFN-III (Unidade de Fertilizantes Nitrogenados III), em Três Lagoas/MS — ainda em obras — levaria esse número a aproximadamente 35%.

Por que isso importa

O Brasil importa 80% dos fertilizantes que consome — o maior ponto de vulnerabilidade logística e de custo da cadeia agroindustrial. Cada vez que uma rota de importação é pressionada — conflito em rota marítima, restrição de exportação da China, variação cambial abrupta — o impacto chega direto no custo por hectare dos produtores e, por consequência, na margem de quem integra essa cadeia. A retomada das fábricas da Petrobras não resolve o problema agora, mas é o primeiro movimento concreto em anos para mudar uma dependência que todos conhecem e ninguém havia encaminhado. Para Diretores de Suprimentos de agroindústrias que compram insumos ou integram cadeias com produtores: o fertilizante doméstico vai ganhar peso gradual no mix de compras.

O que observar

O prazo de entrada em operação da UFN-III em Três Lagoas/MS — essa unidade é a que muda o quadro em escala real. E o diferencial de preço entre ureia doméstica e importada após as primeiras vendas em volume.

Plano Safra 2026/27 — o mais difícil de construir em anos, com anúncio previsto para junho

O que aconteceu

O Ministro da Agricultura André de Paula confirmou que o Plano Safra 2026/27 será anunciado no início de junho, mas reconheceu que a construção ainda depende de alinhamento com a equipe econômica. A CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil) entregou ao governo proposta de R$ 623 bilhões em crédito rural (R$ 518,2 bi para agricultura empresarial + R$ 104,9 bi para familiar) e defende a migração para um modelo plurianual, com previsibilidade de recursos em vez do plano anual sujeito a cortes de orçamento. O próprio Secretário de Política Agrícola classificou o ciclo 26/27 como o "mais difícil de construção" — combinação de inadimplência rural em alta, juros elevados e pressão fiscal.

Por que isso importa

O Plano Safra define o volume de crédito e a taxa de juros equalizada — taxa subsidiada pelo governo para tornar o crédito rural mais acessível — disponível para financiar a produção do próximo ciclo, que começa em julho. Para agroindústrias que processam grãos, carne ou cana, ou que integram e financiam cadeias de produção: a saúde financeira dos seus fornecedores depende diretamente desse crédito. Um plano menor ou com juros mais altos do que o esperado significa produtor mais restrito — e queda de demanda por insumos, serviços e capacidade de expansão. Quem planeja 2027 com base nos volumes de 2025/26 está usando a premissa errada se o crédito apertar.

O que observar

A taxa de juros equalizada que o governo vai oferecer — esse número, mais do que o volume total, define o acesso real ao crédito para o ciclo. Anúncio esperado para início de junho.

Boi gordo cai 6% em maio: a cota China começa a fechar e o preço acusa

O que aconteceu

O boi gordo recuou de R$ 367/arroba — máxima nominal histórica registrada em meados de abril — para R$ 345–350/arroba na primeira quinzena de maio: queda de mais de 6% em menos de 30 dias. O movimento acompanha o início do fechamento gradual da cota isenta de tarifa para a China (1,1 milhão de toneladas anuais — limite que deve ser atingido antes do fim de junho), com frigoríficos reduzindo progressivamente abates para o mercado chinês. Do lado positivo: exportações totais de carne bovina na parcial de maio cresceram 65% em volume e 102% em receita diária versus maio de 2025, com preço médio de exportação em US$ 6,34/kg (+22,1% YoY). O mercado americano absorveu parte relevante do volume em abril, no maior valor do ano.

Por que isso importa

A diversificação de destinos está funcionando em volume — mas ainda não em preço ao produtor. A China pagava prêmio de demanda que outros mercados não replicam na mesma velocidade. Frigoríficos que apostaram toda a estratégia na cota chinesa chegam ao segundo semestre com mais pressão do que os que abriram habilitações para Japão, Oriente Médio e EUA. O timing de certificação para novos mercados passou de vantagem competitiva para condição de operação.

O que observar

O andamento da abertura do mercado japonês para carne bovina brasileira — em negociação ativa — e se o USDA mantém déficit projetado nos EUA, que cria demanda adicional para o Brasil no segundo semestre.

Açúcar cai e usinas reescrevem o mix: etanol lidera a safra 2026/27

O que aconteceu

Os preços de açúcar e etanol caíram desde a abertura intensa da safra 2026/27, com usinas operando a plena capacidade e comprador sumido. Mas o etanol hidratado está 30% mais rentável que o açúcar, empurrando o mix das usinas para 53% etanol / 47% açúcar na temporada — maior participação do biocombustível em anos. A Conab projeta 40,69 bilhões de litros de etanol para a safra 26/27. A StoneX estima 36,1 bilhões só no Centro-Sul. A estratégia etanol está definindo o resultado de quem errou e de quem acertou o mix na virada do ano.

Por que isso importa

Usinas que definiram estratégia de mix etanol entram no segundo semestre com margem mais confortável que concorrentes açucareiros. Mas a decisão de mix tem efeito em cascata: logística de produto (duto, tanque e caminhão têm custos e contratos diferentes), offtake com distribuidoras, compliance do RenovaBio (programa federal que exige emissão de CBIOs — Certificados de Biocombustível Intensivo em Carbono, que representam cada tonelada de CO₂ evitada na cadeia do biocombustível). Para Diretores Industriais de usinas: o ciclo 26/27 vai testar se a infraestrutura de etanol da empresa está dimensionada para o mix mais pesado da última década.

O que observar

Em 14 de maio, a Índia proibiu as exportações de açúcar com efeito imediato até 30 de setembro de 2026 — para proteger estoques domésticos após produção abaixo do esperado. O movimento reduz a oferta global e pode sustentar os preços internacionais. Brasil e Tailândia ganham espaço para absorver a demanda que a Índia deixa de suprir. Se os preços do açúcar se estabilizarem ou subirem no mercado internacional nas próximas semanas, usinas que apostaram mais no etanol terão deixado margem na mesa — mas com os dados disponíveis na virada da safra, o etanol era a escolha mais racional.

§ Radar de mercado

Conab eleva safra de grãos 2025/26 para recorde histórico de 358 mi t

Soja a 180,1 mi t, maior da série histórica; milho total (verão + safrinha) projeta 127 mi t.

Radar Digital Brasília

Milho safrinha entra em fase decisiva com estresse hídrico

La Niña + bloqueio atmosférico atingem florescimento e enchimento de grãos em MT, MS, PR e SP em maio; Conab projeta 109,1 mi t; plantio atrasado no sul do país amplia o risco.

SouAgro

Milho: Indicador Esalq/B3 (Campinas-SP) a R$ 40,03/saca de 60 kg em abril

Queda de 4,8% no mês; preço cede mesmo com estresse hídrico na safrinha; estoques elevados de passagem e colheita de verão pressionam.

Broto Notícias

Exportações de carne bovina: US$ 1,57 bilhão em abril (+30% vs. abr/25)

Preço médio de exportação US$ 6,34/kg em maio (+22,1% YoY); parcial de maio aponta para novo recorde mensal.

Farmnews

Soja: exportações de abril batem 16,75 mi t (+9,7% vs. abr/25)

Safra 25/26 caminha para 180 mi t; preços internos pressionados pela apreciação do real; diferença significativa entre regiões (R$ 127/sc no Sul vs. R$ 101/sc no Norte de MT).

Etanol hidratado: projeção de 40,69 bilhões de litros para safra 26/27

Conab e StoneX confirmam liderança do biocombustível no mix; petróleo acima de US$ 80/barril sustenta paridade favorável do etanol na bomba.

Cana Online

Índia proíbe exportações de açúcar até 30 de setembro de 2026

Proibição decretada com efeito imediato em 14 de maio para proteger estoques domésticos ante produção abaixo do esperado; abrange açúcar bruto, branco e refinado; analistas apontam que o movimento reduz oferta global e pode sustentar preços internacionais; Brasil ganha espaço para absorver parte da demanda que a Índia deixa de atender.

Deccan Herald

CNA propõe Plano Safra plurianual: saída do modelo anual sujeito a cortes

Entidade defende previsibilidade de 3–4 anos para eliminar incerteza de orçamento; proposta em discussão com Ministério da Agricultura antes do anúncio de junho.

CNA Brasil

§ Mundo Tech

Microsoft e OpenAI encerram exclusividade de nuvem — o que muda para quem adota IA

Em 27 de abril, Microsoft e OpenAI reestruturaram formalmente o acordo comercial que definia sua parceria desde 2019: a exclusividade de nuvem acabou. A OpenAI agora pode servir todos os seus produtos — incluindo GPT-5 e modelos futuros — via AWS, Google Cloud, Oracle ou qualquer outro provedor. A Microsoft retém acesso prioritário em lançamentos e licença de IP até 2032, mas deixou de ser a única porta de entrada para os melhores modelos do mercado.

Para executivos que estão definindo arquitetura de IA nas suas empresas: o poder de barganha com fornecedores de nuvem aumentou. O argumento de vendor lock-in — "só aqui você acessa o GPT em escala" — perdeu força. Isso não muda o que os modelos fazem, mas muda quem define os termos do contrato.

Fortinet: Brasil registrou 753,8 bilhões de tentativas de ataques em 2025 — 2x mais que em 2024

O relatório da Fortinet publicado em 11 de maio revela 753,8 bilhões de tentativas de ataques cibernéticos ao Brasil em 2025 — mais de duas vezes o volume de 2024. Malware cresceu 535%. Ransomware: 35 mil incidentes registrados. 10% dos ataques de ransomware no país miram diretamente o setor agro. Para CTOs de agroindústrias: quem não tem inventário atualizado de superfície de ataque — sensores IoT no campo, ERPs agrícolas em nuvem, automações de processo em usinas e frigoríficos — opera às cegas em um ambiente que dobrou de agressividade em 12 meses.

Google I/O começa terça-feira — o que acompanhar

O maior evento de produto do Google começa amanhã, dia 19, e vai ao ar até 20 de maio. Anúncios esperados: nova versão do Gemini (3.5 ou salto para 4.0), Gemini Spark — agente autônomo persistente com capacidade de trabalhar em múltiplos dispositivos sem esperar comandos — e a plataforma corporativa de agentes do Google Enterprise. A agenda também inclui Android 17 e óculos XR com Gemini. Para agroindústrias: a plataforma corporativa de agentes do Google vai concorrer diretamente com o Microsoft Copilot e os agentes OpenAI. Quem está definindo qual "sistema operacional de agentes" vai rodar nos seus processos vai ter mais uma peça nessa equação nos próximos dois dias.

§ Sinal fraco

Usinas apostam em etanol — e os sistemas de gestão ainda falam açúcar

O mix de 53% etanol / 47% açúcar projetado para a safra 26/27 é o mais favorável ao biocombustível em anos. A decisão já está feita para a maioria das usinas. O que ainda não aconteceu é a adaptação dos sistemas que suportam essa operação.

A lógica operacional de uma usina que produz mais etanol é diferente da lógica de uma usina açucareira. Os contratos de offtake com distribuidoras têm mecanismos de precificação vinculados à paridade do petróleo, não ao câmbio e ao ICE (Bolsa de Commodities de Nova York, onde o açúcar é precificado internacionalmente). A logística é diferente: o etanol move majoritariamente por caminhão ou duto, não por porto e contêiner. A estrutura de compliance do RenovaBio — com emissão, rastreabilidade e liquidação de CBIOs — exige integração com sistemas que poucas usinas têm nativamente no ERP.

O mercado de sistemas de gestão para usinas foi construído, ao longo dos últimos 20 anos, num paradigma açucareiro. As customizações de etanol existem, mas como módulos adicionais, não como arquitetura principal. Com o mix se invertendo estruturalmente — e podendo se firmar acima de 55% etanol se o açúcar continuar caindo — a janela para ERP agroindustrial redesenhado para biocombustível como core se abre.

Para empresas de tecnologia que vendem software de gestão agroindustrial: a pergunta que vai aparecer nas RFPs das usinas daqui a dois ou três anos já pode ser respondida com roadmap agora. A urgência ainda não chegou. Mas o padrão está mudando.

§ Gatua Context

Cibersegurança, plataformas de agentes de IA, arquitetura de nuvem após o fim da exclusividade OpenAI-Azure, Google I/O — boa parte do que passou por esta edição são exatamente as conversas que os CTOs, CIOs e Diretores de TI das agroindústrias brasileiras estão tendo agora.

Na quinta-feira, dia 21 de maio, essa conversa acontece ao vivo.

O que 78 líderes de TI do agro já sinalizaram antes mesmo do evento começar:

  • 78% têm IA na agenda estratégica em 2026 — mas apenas 9% operam em múltiplas áreas com resultado comprovado. O gap entre intenção e execução é o tema do dia.
  • IA e automação é a prioridade número 1 para os próximos 12 meses — seguida de analytics, cibersegurança e governança de dados.
  • 43% das empresas vão reduzir investimento em TI em 2026 em relação a 2025. O desafio não é só implementar — é justificar.
  • O maior obstáculo não é orçamento. É cultura. 41% apontaram resistência organizacional como o principal freio — à frente de budget insuficiente e dificuldade de demonstrar ROI.

Esses dados vêm direto de quem vai estar na sala: São Martinho, COFCO International, ACP Bioenergia, Nardini, Viralcool, Alta Mogiana, Coopercitrus, Zilor, Grupo Balbo e mais de uma dezena de agroindústrias do interior.

O TI do Futuro não é mais um evento de tecnologia. É onde os líderes de TI do agro sentam com os pares para discutir o que está funcionando — e o que não está — sem filtro de consultoria.

Se você ainda não confirmou presença ou quer indicar alguém da sua equipe:

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Os recordes mostram onde o Brasil chegou. O Plano Safra mais difícil em anos mostra o quanto ainda precisa ser construído.

Até a próxima segunda.

Bruno BarrosCEO, Gatua

§ Comece de leve

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