AgroReview

§ AgroReview · Edição #13 · 4 de maio de 2026

Agrishow fecha, Mercosul abre: o que a semana revela sobre o momento real do setor

O segredo da felicidade é a liberdade, e o segredo da liberdade é a coragem.

Tucídides, História da Guerra do Peloponeso, II.43

A Agrishow de 2026 encerrou na sexta-feira com a primeira queda em intenção de negócios em mais de uma década. No mesmo dia, o acordo Mercosul-UE entrou em vigor — a maior abertura de mercado já conquistada pelo agro brasileiro. E o milho safrinha, que já enfrentava seca severa no Centro-Oeste, viu a restrição hídrica avançar para o Paraná, que entrou na condição mais crítica da série.

Três sinais simultâneos que apontam na mesma direção: o campo está operando com margens comprimidas e o ciclo de decisão foi encurtado. O produtor foi à Agrishow — e comprou com mais critério. O exportador tem uma janela inédita com a Europa — e um prazo de compliance de dezembro no horizonte. O mercado de milho vai ter que reajustar estimativas antes do próximo boletim da Conab.

Semanas assim revelam quem planejou e quem estava esperando condições melhores.

§ O que realmente importa

Agrishow 2026 encerra com R$ 11,4 bilhões — primeira queda em 11 anos, mas o padrão de exigência mudou

O que aconteceu

A Agrishow 2026 encerrou na sexta-feira, 1º de maio, com R$ 11,4 bilhões em intenção de negócios — queda de 22% em relação a 2025. É a primeira retração nas vendas da feira em mais de uma década. O público ficou estável em 197 mil visitantes. As causas apontadas pelo setor: juros altos, inadimplência ainda elevada e preços de commodities abaixo do esperado. No campo tecnológico, os lançamentos confirmaram a consolidação da IA embarcada: a Solinftec apresentou o Alice IA Multiagente, que executa decisões no campo sem intervenção humana; a HURAL apresentou o Hural Rover, pulverizador elétrico totalmente autônomo; e a Bosch estimou que IA pode reduzir em até 62% o uso de defensivos ao identificar pragas em tempo real.

Por que isso importa

A queda de 22% não é sinal de desinteresse em tecnologia — é sinal de triage financeira. O produtor foi à feira, avaliou com cuidado, e comprou o que entregava retorno mensurável no ciclo. As empresas que relataram metas atingidas foram as que chegaram com proposta clara de ROI (retorno sobre investimento), não com demonstração. O padrão de exigência mudou: não basta mostrar que a tecnologia funciona — é preciso demonstrar quanto e quando. Para empresas de tecnologia que vendem para o agro: quem estava preparado para essa conversa fechou negócio. Quem dependia do ambiente de euforia da feira anterior vai reavaliar.

O que observar

Os primeiros LOIs (letters of intent — cartas de intenção de compra) assinados durante a feira que viram contrato efetivo até o fim de maio — eles vão revelar quais tecnologias superaram o corte de critério do produtor.

Mercosul-UE: uma semana em vigor — e a janela da EUDR já está no relógio

O que aconteceu

O acordo Mercosul-UE entrou em vigor na sexta-feira, 1º de maio. Desde então, a União Europeia elimina tarifas de importação para mais de 5 mil produtos brasileiros — cerca de metade do universo tarifário. Para o agronegócio: frango, café, frutas, óleos vegetais, carnes e soja têm tarifas zeradas ou reduzidas, com cotas. O mercado europeu que o Brasil acessa representa mais de R$ 130 trilhões em PIB e cerca de 700 milhões de consumidores. No horizonte: o EUDR — regulamento europeu antidesmatamento — entra em aplicação para grandes operadores em 30 de dezembro de 2026. O regulamento exige declaração de diligência devida por lote de soja, carne bovina, cacau, café, madeira e borracha, com comprovação de origem em áreas livres de desmatamento.

Por que isso importa

As cotas são limitadas, e os primeiros contratos fechados dentro das cotas capturam parte desproporcional do benefício nos primeiros meses. Quem não tiver certificação de origem e conformidade sanitária em ordem agora não apenas perde a cota — vai enfrentar bloqueio por compliance ambiental em dezembro. A janela de adequação para a EUDR, para quem ainda não começou, é curta: são sete meses para um processo que envolve rastreabilidade de origem, auditoria ambiental e declaração eletrônica no sistema da Comissão Europeia.

O que observar

Quais empresas brasileiras fecham os primeiros contratos dentro das cotas até o fim de maio — e quem está acelerando a adequação à EUDR antes que o prazo de dezembro se torne emergência.

Fontes:Momento MT

Milho safrinha: seca avança para o Paraná e Conab registra recuo de 3,6% na estimativa

O que aconteceu

A Conab divulgou o 7º levantamento da safra 2025/26 com a segunda safra de milho estimada em 109,1 milhões de toneladas — queda de 3,6% em relação ao ciclo anterior. A restrição hídrica que atingia o Centro-Oeste avançou para o Paraná, que entrou na condição mais crítica da série, com estresse hídrico direto sobre a produtividade do milho safrinha. Minas Gerais e São Paulo também constam no alerta de restrição hídrica da Conab. O período crítico de floração e enchimento de grãos — em que a cultura não recupera perdas — se estende por mais dias com as condições atuais.

Por que isso importa

O milho safrinha representa mais de 70% da produção nacional. Com a estimativa já recuando no 7º levantamento e condições climáticas ainda adversas em múltiplos estados, o próximo boletim vai capturar perdas que o mercado ainda não precificou integralmente. O milho futuro para setembro/2026 já opera abaixo de R$ 68/saca. Para usinas de etanol de milho, indústrias de ração e tradings com contratos de entrega no segundo semestre: a janela de revisão de exposição está se fechando nos próximos dias.

O que observar

O boletim climático desta semana para o Paraná e o Mato Grosso do Sul — e se a Conab antecipa nova revisão na estimativa antes do 8º levantamento.

Google investe US$ 40 bilhões na Anthropic — a maior aposta da infraestrutura de IA corporativa

O que aconteceu

O Google anunciou investimento de até US$ 40 bilhões na Anthropic — US$ 10 bilhões imediatamente e US$ 30 bilhões condicionados a metas de desempenho. A Anthropic, criadora dos modelos Claude, foi avaliada em US$ 350 bilhões, com perspectiva de ultrapassar US$ 800 bilhões e abrir capital ainda em 2026. A receita anualizada da empresa passou de US$ 9 bilhões no final de 2025 para mais de US$ 30 bilhões em 2026. O Google Cloud fornece ainda 5 gigawatts de capacidade de computação por cinco anos. Contexto: a Amazon havia investido US$ 5 bilhões na Anthropic com possibilidade de ampliar para mais US$ 20 bilhões. O mercado de IA agêntica deve crescer de US$ 7,9 bilhões em 2025 para US$ 196 bilhões até 2030 — crescimento de 25 vezes.

Por que isso importa

O que o Google comprou com US$ 40 bilhões não foi apenas participação em uma startup de IA — foi posição estratégica na camada de infraestrutura sobre a qual a IA corporativa vai rodar nos próximos cinco anos. A lógica: Google fornece a computação, a Anthropic fornece os modelos e os agentes. Para quem lidera TI em uma agroindústria: a escolha de infraestrutura de IA que você fizer nos próximos 12 meses — Google Cloud, AWS ou Azure — vai determinar quais modelos e agentes estarão disponíveis em 2027, com qual custo e qual nível de integração. Essa curva não vai esperar o cenário de crédito melhorar para começar.

O que observar

O Google I/O 2026, programado para 19 e 20 de maio, onde o Google deve anunciar novos modelos Gemini e ferramentas de agentes corporativos — e como se posicionam frente ao que a OpenAI lançou nas últimas semanas.

Fontes:TechCrunch

§ Radar de mercado

Boi gordo: recorde nominal em abril, futuro com deságio significativo

Média de R$ 363,6/arroba (CEPEA) em abril de 2026, +12,2% vs. abril/2025, novo recorde nominal histórico. Mercado futuro para maio e julho já opera com deságio expressivo frente ao físico — sinal de que o mercado antecipa correção. Quem não tiver hedge (proteção de preço) está exposto.

Farmnews

Soja: acumulando perda em 2026 apesar do volume de exportação

Embarques em alta no acumulado do ano, mas preço físico cai. Volume recorde não sustenta cotação — a compressão de margem do produtor de soja continua.

Farmnews

Milho: queda de ~20% frente a abril/2025, restrição hídrica avançando

Seca se expande para Paraná, Minas e São Paulo além do Centro-Oeste. Conab registra recuo de 3,6% na estimativa da segunda safra.

Broto Notícias

Agro brasileiro: US$ 38,1 bilhões em exportações no Q1 2026 (+0,9%)

Desempenho histórico no acumulado, mas crescimento modesto. China responde por 29,8% do destino (US$ 11,33 bilhões).

Ministério da Agricultura

Tarifas EUA: 45% das exportações agro sob pressão — impacto estimado de US$ 2,7 bilhões em 2026

CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil) estima perda de US$ 2,7 bilhões se tarifas de 10% sobre produtos brasileiros se mantiverem. O Mercosul-UE é o principal instrumento de diversificação de risco agora disponível.

ISTOÉ Dinheiro

IA agêntica: de US$ 7,9 bilhões para US$ 196 bilhões até 2030 — Google aposta US$ 40 bi na dianteira

25% das empresas brasileiras já têm IA em produção — dobro do registrado no ano anterior. O mercado de IA agêntica cresce 25 vezes em cinco anos.

Portal Information Management

Google I/O 2026: 19 e 20 de maio

Próximo grande evento de IA do Google, com foco em novos modelos Gemini e ferramentas para agentes corporativos.

Canaltech

§ Mundo Tech

Google aposta US$ 40 bilhões na Anthropic — o que isso significa para quem usa IA no agro

O que o Google comprou com US$ 40 bilhões não foi apenas participação em uma empresa de IA. Foi posição estratégica na camada de infraestrutura sobre a qual a IA corporativa vai rodar nos próximos cinco anos.

A lógica é direta: Google fornece a computação (5 gigawatts de Google Cloud por cinco anos), a Anthropic fornece os modelos e os agentes. O resultado são clientes corporativos que contratam os dois juntos — com o Google Cloud como base e os modelos Claude como camada de inteligência. A receita da Anthropic saiu de US$ 9 bilhões no final de 2025 para mais de US$ 30 bilhões em 2026 — esse crescimento não vem de pessoas usando um chatbot pessoal. Vem de empresas que embutiram os modelos em processos críticos de operação.

O contexto para agroindústrias: a Agrishow de 2026 confirmou que IA embarcada no campo já executa decisões sem intervenção humana — o Alice Multiagente da Solinftec, o Hural Rover autônomo, a visão computacional da Bosch em tempo real. O Google está posicionando a infraestrutura que vai rodar a próxima geração desses sistemas.

Para quem lidera TI em uma agroindústria: a escolha de infraestrutura de IA que você fizer nos próximos 12 meses vai determinar quais modelos e agentes estarão disponíveis em 2027, com qual custo, com qual nível de integração — e com qual parceiro de suporte. Essa escolha não pode ser postergada até o crédito melhorar.

§ Sinal fraco

A Agrishow que caiu 22% revelou mais sobre o comprador do que sobre o mercado

A primeira queda em intenção de negócios da Agrishow em mais de uma década pode ser lida de duas formas. A diferença entre as duas leituras importa muito para quem vende tecnologia para o agro.

A leitura simples: o campo está com dinheiro curto, as vendas caíram. Verdade.

A leitura que passa despercebida: o público foi estável — 197 mil visitantes. As empresas que relataram metas cumpridas ou superadas foram exatamente aquelas com proposta de valor clara, não as que dependiam do ambiente de euforia de feiras anteriores. O comprador foi à Agrishow com a decisão mais adiantada — e comprou o que tinha ROI mensurável no ciclo atual.

O que isso revela: o produtor rural não está rejeitando tecnologia. Está fazendo triage. A pressão financeira dos últimos três anos transformou o processo de compra. O que antes entrava como "investimento de modernização" precisa agora passar pelo teste de "quanto isso devolve, e quando". Isso não é retração — é maturidade de mercado.

Para empresas de tecnologia que têm o agro como cliente: o comprador que fechou contrato na Agrishow não é menos exigente do que o de 2024. É mais exigente. E o que ele quer ouvir não mudou de preço — mudou de argumento. A tese de produto que vencia na euforia da safra não é a mesma que vence em um mercado de triage.

A pergunta que cada empresa de tech deveria fazer esta semana: se eu mostrar o resultado mensurável da minha solução em 18 meses, o meu cliente consegue aprovar o contrato? Se a resposta for "não sei", é o exercício mais urgente do trimestre.

§ Gatua Context

O Gatua Meeting — TI do Futuro acontece em 21 de maio, no Dabi Business Park, em Ribeirão Preto.

A Agrishow de 2026 confirmou em hardware o que já víamos em software: IA deixou de ser experimento e virou operação. O Alice Multiagente não manda dados para o gestor interpretar — ele toma a decisão e executa. O Hural Rover não aguarda instrução — ele pulveriza. O Google não está avaliando se vale investir em IA corporativa — ele colocou US$ 40 bilhões na mesa.

O TI do Futuro vai ao próximo passo: o que muda para quem lidera TI quando a infraestrutura de IA passa a executar processos críticos sem supervisão humana constante? Como você estrutura arquitetura, governança e time quando o agente substitui o analista em tarefas de missão crítica?

São 150 vagas, para CTOs, VPs de Tecnologia e Diretores de TI de agroindústrias.

Inscreva-se — Gatua Meeting: TI do Futuro

A semana encerrou a maior feira do agro com um resultado que revela o campo de hoje: quem tem dinheiro compra com critério, quem não tem espera. O Mercosul-UE abriu uma janela real — mas com prazo. O milho safrinha viu a seca avançar para novos estados. E o Google colocou US$ 40 bilhões no tabuleiro da IA corporativa.

O que diferenciou quem fechou negócio na Agrishow é o mesmo que vai diferenciar quem captura as cotas do Mercosul e quem revisa a exposição ao milho antes que o mercado precifique: ter chegado preparado.

Boa semana.

Bruno BarrosCEO, Gatua

§ Comece de leve

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