AgroReview

§ AgroReview · Edição #10 · 13 de abril de 2026

Recordes e frentes abertas

Nenhum vento é favorável para quem não sabe a que porto ir.

Sêneca

A semana abriu com um decreto e fechou com uma conta. No dia 2 de abril, Trump assinou tarifas recíprocas que colocam US$ 12 bilhões por ano em risco direto para o agro brasileiro — 25% sobre soja, 30% sobre carne bovina, 45% sobre suco de laranja. JBS, Marfrig e Minerva paralisaram novos pedidos para os EUA na hora. Três dias depois, o dólar rompeu R$ 5,00 pela primeira vez desde 2022 e travou a comercialização de soja e milho nos portos. No fim da semana, a Raízen voltou de Nova York sem acordo com credores — a maior reestruturação empresarial do país segue sem saída até o prazo legal de 6 de junho.

E, simultaneamente, a inadimplência rural bateu recorde histórico de 7,4% em fevereiro (era 2,9% um ano antes), o VBP projetado caiu 4,6% para 2026, e a Conab registrou safra recorde de 178 milhões de toneladas de soja com 82,1% colhida. O Brasil continua entregando volume. Mas cada nova frente aberta — tarifas, câmbio, crédito, reestruturação, fertilizantes — não chega mais em sequência. Chega ao mesmo tempo.

O tema desta edição é a simultaneidade dos riscos: os recordes ainda existem, mas a margem de manobra para absorver choques já foi consumida por outras frentes. Para quem decide capex, contrato de exportação ou exposição de crédito nesta semana, a pergunta não é mais se algo vai apertar — é em qual frente primeiro.

§ O que realmente importa

Tarifas Trump: US$ 12 bi/ano em risco e a reconfiguração forçada do destino das exportações

O que aconteceu

Trump assinou em 2/abril decreto de tarifas recíprocas: 25% sobre soja e proteínas brasileiras, 30% sobre carne bovina, 45% sobre suco de laranja concentrado — afetando pauta de US$ 38 bi em exportações. CNA estima perda imediata de US$ 12 bi/ano. JBS, Marfrig e Minerva (78% das exportações de carne ao mercado americano) paralisaram novos pedidos. Itamaraty manifestou "profunda preocupação" sem definir retaliação. Analistas trabalham com três cenários: negociação rápida (20%), retaliação calibrada (35%) ou absorção com redirecionamento de fluxos (45%).

Por que isso importa

O cenário mais provável — redirecionamento de fluxos — não é um alívio: é uma corrida. Os mercados que vão absorver o volume deslocado dos EUA (UE, China, Sudeste Asiático, Oriente Médio) vão privilegiar quem já tem certificação, rastreabilidade e contrato em andamento. Frigoríficos, esmagadoras e tradings que estão com exposição concentrada nos EUA precisam reavaliar contratos em aberto e calcular exposição cambial esta semana — não no próximo comitê de risco. Para quem financia produtores (cooperativas, fornecedores de insumos), é hora de rodar novo stress test de crédito.

O que observar

A resposta do Itamaraty até o fim de abril, a primeira rodada de negociação técnica e os primeiros movimentos de reprecificação em contratos de hedge cambial pelas grandes tradings.

Fertilizantes: a crise migra de "preço" para "disponibilidade física"

O que aconteceu

Ureia acumula alta de 75-89% em 12 meses — pico de US$ 710/t em março, hoje em US$ 694/t. MAP a US$ 850/t (+17%). A relação de troca soja/ureia piorou de 28-32 para 35-40 sacas por tonelada. Mas o sinal mais preocupante não é o preço: é a queda de 57% nas importações de nitrogenados em Mato Grosso do Sul em jan-fev/2026. China suspendeu exportações de fosfatados até agosto; conflito no Ormuz mantém pressão nas rotas. O Plano Nacional de Fertilizantes segue aparentemente estagnado.

Por que isso importa

O problema deixou de ser quanto custa e virou se vai chegar. Para Diretores Industriais e de Suprimentos, garantir contrato antecipado para a safra 26/27 deixou de ser otimização — virou continuidade operacional. Agroindústrias com milho safrinha em fase vegetativa já estão comprimindo margem nitrogenada no ciclo atual; quem financia insumo para produtor precisa travar volume agora, mesmo a preço pior, antes que a janela se feche. Trading Economics projeta ureia a US$ 791/t em 12 meses — o cenário-base já é mais alto, e o cenário-risco é falta física.

O que observar

O próximo leilão da Petrobras, a evolução do Plano Nacional de Fertilizantes no novo ministério de Agricultura e movimentos de verticalização/aquisição por grandes grupos para assegurar suprimento.

Inadimplência rural em 7,4% (recorde) e Raízen sem acordo em NY: o mapa de crédito no agro está rachando

O que aconteceu

O BC divulgou inadimplência de 7,4% em crédito rural PF em fevereiro — recorde histórico, 4,5 p.p. acima de fevereiro/2025. Em 2025, foram 1.990 pedidos de recuperação judicial no agro (+56,4% vs. 2024). Na frente corporativa, a semana de negociações da Raízen em NY (7-11/abril) terminou sem acordo: credores exigem indicações ao conselho como condição para converter ~R$ 29 bi em ações (até 70% das ON). Shell e Cosan resistem a aportes além dos R$ 4 bi já comprometidos. Prazo legal: 6 de junho.

Por que isso importa

São dois sinais do mesmo diagnóstico em escalas diferentes. Na base, margens comprimidas por preços baixos + câmbio travado + insumos caros estão empurrando produtor PF para inadimplência estrutural. No topo, a maior reestruturação empresarial do país mostra que nem holding com Shell e Cosan atrás consegue absorver choque de preço de commodity + capex sem reengenharia de capital. Cooperativas, fornecedores de insumos e tradings que carregam carteira de crédito com produtores precisam reprecificar risco antes do Plano Safra 26/27 sair — porque a premissa histórica de "inadimplência < 3%" morreu no último trimestre.

O que observar

A contraproposta dos credores da Raízen esperada para esta semana, o número final de RJs no agro no 1T26 e os primeiros sinais de endurecimento nas linhas de custeio do Plano Safra 26/27 em discussão.

PwC: IA passa de experimento a infraestrutura de decisão no agro — e o Radar Agtech confirma

O que aconteceu

Relatório PwC Agtech Innovation (09/04): com margens líquidas por hectare reduzidas em 73% nos últimos 4 anos, o agro brasileiro acelera adoção de IA como camada estrutural, não como piloto. Empresas projetam 10-20% do orçamento tech para IA/ML em 2026. O Radar Agtech 2025 (Embrapa/SP Ventures) confirma a direção: 2.075 agtechs mapeadas (+5%), com 83% usando IA e 35% como core — ante marketplaces e conectividade, que dominavam o ecossistema há três anos.

Por que isso importa

Quando a margem por hectare cai 73%, otimização deixa de ser diferencial competitivo e vira condição de sobrevivência. A IA que está amadurecendo agora — prescrição agronômica, scoring de crédito, automação de contratos, agentes autônomos em ERP — é exatamente a camada que reduz custo operacional marginal sem expandir capex. Para CTOs e Diretores de TI de agroindústrias: a janela de "pilotar para aprender" encurtou. Quem ainda está em PoC em meados de 2026 vai chegar atrasado no ciclo de contratação e integração — porque a ofensiva comercial dos fornecedores (Sankhya, TOTVS, SAP, Aliare, Senior) já está na fase de substituição, não de apresentação.

O que observar

A entrada de agentes autônomos em módulos críticos de ERP agrícola (crédito, compras, fiscal), os primeiros casos de uso real com Claude e Gemini integrados a gestão de safra, e movimentos de M&A entre as 2.075 agtechs mapeadas.

Mercosul-UE em 19 dias + compliance ambiental: dois relógios regulatórios correndo em paralelo

O que aconteceu

Aplicação provisória do Acordo Mercosul-UE confirmada para 1º de maio — 19 dias. Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai finalizados; decreto de promulgação brasileiro em fase avançada. Em paralelo, desde 01/abril o crédito rural passou a ser vinculado a PRODES/INPE: áreas com desmatamento bloqueadas automaticamente. E a EUDR tem prazo de 30/12/2026 para grandes operadores e 30/06/2027 para PMEs — rastreabilidade georreferenciada obrigatória para quem exporta soja, carne, café ou madeira para a UE.

Por que isso importa

A sobreposição de calendário é o problema. Quem quer entrar nas cotas do Mercosul-UE a partir de maio precisa, simultaneamente, ter rastreabilidade EUDR encaminhada e CAR regularizado para não perder crédito de custeio — três compliances distintos se retroalimentando. Agroindústrias e tradings sem sistema de rastreabilidade georreferenciada estão em risco duplo: perdem janela de exportação premium e perdem linha de custeio interna. Não é projeto para o próximo ano — é entrega para o próximo mês.

O que observar

A publicação do decreto de promulgação brasileiro, os primeiros bloqueios automáticos de crédito via PRODES e a regulamentação detalhada das cotas de carne bovina (99 mil t) dentro do acordo.

§ Radar de mercado

Exportações do agro somam US$ 8,3 bi em março (+1,1%)

Desempenho modesto após recorde de fevereiro; soja, café e açúcar recuaram em volume; exportações para EUA no trimestre caem 9,1% — antes mesmo do tarifaço.

CNN Brasil

Safra 2025/26: soja em 82,1% colhida, safrinha de milho com atraso

Conab projeta 178 mi t (recorde); StoneX estima safrinha em ~136 mi t (-2%); janela de plantio em GO e MG em alerta por exposição à seca de abril/maio.

ISTOÉ Dinheiro

Cota de carne bovina para China pode esgotar antes do 3º tri

557 mil t já embarcadas no 1º bimestre (+22%); Abrafrigo projeta diversificação para UE, Japão, Vietnã e Coreia, mas tarifa de 30% de Trump fecha o pivô americano.

Beefpoint

Tecnoshow COMIGO 2026 encerra abaixo das edições anteriores

700+ expositores em Rio Verde, mas juros e margens comprimidas freiam fechamento de negócios; sinal direto de cautela para a Agrishow em 27/04 — última janela de venda do ano para fornecedores de maquinário.

Agrishow

Tratores autônomos na cana registram +20% produtividade e -10% diesel

Tereos e Atvos em testes de larga escala com tecnologia ASI; um operador supervisiona três máquinas simultaneamente.

CNN Brasil

SP Ventures AgVentures III capta US$ 50 mi — maior fundo agtech da América Latina

IDB Lab e JICA entre os âncoras; meta final US$ 80-100 mi; foco em biológicos, mitigação climática e serviços financeiros — janela para CVCs de agroindústria.

IDB Lab

Safra 2026/27 de cana abre com mix mais alcooleiro

Moagem projetada em 620-647 mi t (+3-4%); mix açúcar recua de 51% para 47-48%; El Niño fraco a moderado previsto para maio pode afetar Norte-Nordeste.

Agrolink

VBP do agro projetado em R$ 1,40 tri para 2026 (-4,6%)

Milho lidera retração (-7,1%); única cultura em expansão expressiva é café arábica (+18,4% no VBP); planejamento 2026 com base em 2025 trabalha com premissa errada.

CNA

Reforma Tributária: Funrural sobe e CNPJ rural vira obrigação em julho

LC 224/2025 eleva Funrural para 1,63% (PF) e 2,23% (PJ); produtores com receita ≥ R$ 3,6 mi precisam de CNPJ até julho; NF-e com campos IBS/CBS já gerando multas.

Money Times

§ Mundo Tech

OpenAI fecha rodada histórica de US$ 122 bi e Google lança Gemma 4 open-source

A OpenAI levantou US$ 122 bi em avaliação de US$ 852 bi — maior rodada privada da história, com SoftBank, Andreessen Horowitz, Nvidia, Amazon e Microsoft; IPO previsto para 4T26; receita mensal de US$ 2 bi, 40% corporativo. No mesmo período, o Google lançou Gemma 4 — quatro modelos open-source (2B a 31B) sob Apache 2.0 com uso comercial sem royalties; o 31B é 3º no ranking global de modelos abertos, e as versões menores rodam em celulares e Raspberry Pi. O custo marginal de IA embarcada em máquinas, armazéns sem conectividade e sensores de campo está caindo a zero mais rápido do que a maioria dos roadmaps de TI previa.

Anthropic revela Claude Mythos — e decide não lançar por risco de segurança

O modelo mais poderoso da Anthropic identificou autonomamente milhares de vulnerabilidades zero-day, incluindo uma falha de 27 anos no OpenBSD. Acesso restrito a ~50 organizações (Amazon, Apple, Microsoft, Google) via Projeto Glasswing para defesa cibernética. É o primeiro caso documentado de big tech negando lançamento público por razões de segurança. Combinado ao IBM X-Force 2026 (grupos de ransomware +49%, ataques com IA +44%) e ao CrowdStrike (breakout time médio de 29 min, recorde de 27 segundos), o recado é direto para processadoras, cooperativas e trading companies: a janela entre comprometimento e detecção virou menor que o tempo de uma reunião.

AI Act em enforcement pleno em 2 de agosto — 112 dias

A Comissão Europeia manteve o calendário: obrigações para IA de alto risco entram em vigor em 2/agosto, com sanções até EUR 35 mi. No Brasil, o PL 2.688/2025 avança na Câmara. Para exportadores brasileiros que operam com parceiros europeus ou rodam decisões automatizadas sobre produtores (crédito rural, scoring, alocação de cota), a fase de mapeamento de "sistemas de alto risco" terminou em março — quem ainda não classificou vai descobrir o enquadramento em auditoria.

§ Sinal fraco

GLP-1 (Ozempic) redesenha estruturalmente a demanda por proteínas — e ninguém do agro está falando sobre isso ainda

O Brasil é hoje a 2ª maior base mundial de usuários regulares de GLP-1 — entre 4 e 6 milhões de usuários. A quebra de patentes prevista ao longo de 2026 pode expandir o mercado em até 80%. Usuários orientados por nutricionistas consomem 1,4-1,6 g de proteína por kg corporal — o dobro da média populacional. Resultado já documentado: alta de demanda por proteínas de qualidade (suíno, ovos, aves, cortes premium de bovina) e queda em carboidratos (panificação -8,8%, snacks -10,1%).

O ponto que ainda não virou pauta de board: isso não é elasticidade de curto prazo. É uma mudança estrutural no basket alimentar de dezenas de milhões de consumidores brasileiros, com efeitos já mensuráveis no varejo e no retail industrial — mas ainda praticamente ausente do debate entre executivos do agro. O Itaú BBA projeta Brasil liderando o crescimento global de carne suína em 2026, e a indústria de ovos estima expansão de capacidade nas próximas duas safras. A assimetria é que retailers e indústria de alimentos já estão reprecificando mix; frigoríficos e avícolas brasileiros ainda discutem isso como tendência secundária.

Para quem tem exposição a carnes e ovos: a pergunta não é "isso afeta meu mercado?" — é "quais cortes e quais SKUs já estão em expansão real, e minha linha está pronta para atendê-los?" Os primeiros a reposicionar mix ganham shelf space permanente. Os que esperam descobrem que o espaço já foi ocupado.

§ Gatua Partners em Foco

Delaware Brasil

delaware lança AgriCore Seeds — única solução nativa SAP para beneficiamento de sementes no Brasil

A delaware Brasil — consultoria com mais de 20 anos em implementações SAP e presença em 20+ países — colocou em mercado o AgriCore Seeds, solução construída 100% dentro do SAP S/4HANA para o ciclo completo de beneficiamento de sementes: recepção, classificação, limpeza, secagem, padronização, tratamento industrial, controle de qualidade, armazenagem e expedição. É a única oferta nativa SAP para esse segmento no país.

O contexto setorial dá escala ao movimento: segundo a CropLife Brasil, as exportações brasileiras de sementes somaram US$ 204 milhões em receita entre janeiro e outubro de 2025 — um novo recorde. A delaware projeta que o AgriCore Seeds represente 15% do faturamento da operação brasileira até o fim de 2026.

Por que isso importa: Para sementeiras de soja, trigo, milho e gergelim que já rodam SAP ECC ou S/4HANA, a promessa é integração nativa ponta a ponta — rastreabilidade de lote, laudos laboratoriais em tempo real, conformidade regulatória e gestão de logística na mesma plataforma, sem os retrabalhos de sistemas paralelos. "A delaware, por ser parceira Platinum, optou por seguir a direção estratégica do agronegócio", afirma Rodrigo Moulard, CSMO e fundador da delaware Brasil. Para gestores de unidades de beneficiamento, profissionais de TI no agro e equipes de qualidade, é uma opção de consolidação de stack em um dos pontos mais fragmentados do ciclo produtivo de sementes.

delaware.pro — AgriCore Seeds

§ Gatua Context

Tudo que entrou nesta edição — tarifas Trump, fertilizantes em risco físico, inadimplência recorde, Raízen sem acordo, IA virando infraestrutura, AI Act contando dias — são exatamente as conversas que a rede de executivos da Gatua está tendo entre si esta semana, em grupos fechados, sem fornecedor no meio.

No dia 21 de maio, esses temas ganham um auditório: o Gatua Meeting — TI do Futuro, no Dabi Business Park em Ribeirão Preto, vai reunir CTOs, VPs de Tecnologia e Diretores de TI das agroindústrias para discutir exatamente o que muda no ciclo 26/27 quando IA deixa de ser experimento e vira infraestrutura de decisão.

E para executivos do agro que querem estar dentro da rede onde essas conversas acontecem toda semana: Comunidade Gatua.

Os recordes desta semana vão aparecer no balanço do trimestre. As frentes abertas também — só que em linhas diferentes, espalhadas por exposição cambial, exposição de crédito, custo de insumos e compliance regulatório.

Quem souber a qual porto está indo, ajusta as velas. Quem não souber, só sente o vento.

Até segunda.

Bruno BarrosCEO, Gatua

§ Comece de leve

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