AgroReview

§ AgroReview · Edição #8 · 30 de março de 2026

Janelas abertas, relógio correndo

Sed fugit interea, fugit irreparabile tempus.

Virgil, Geórgicas, Livro III, verso 284O tempo foge, foge irreparavelmente.

A última semana teve resolução, confirmação e escalada — tudo ao mesmo tempo. A missão do MAPA em Pequim conseguiu o que era o mínimo necessário: a China abandonou a política de tolerância zero para soja destinada à industrialização e liberou os navios retidos. O Mercosul-UE ganhou data: 1º de maio, com aplicação provisória confirmada pela Comissão Europeia.

Mas no mesmo período: a ureia chegou a US$ 710/tonelada — 50% de alta em 30 dias. A cota anual de carne bovina para a China já está 33,6% preenchida em apenas 2 meses. A safra de soja avança no ritmo mais lento em 5 anos. E a Raízen protocolou recuperação extrajudicial de R$ 65,1 bilhões.

O tema desta edição é tempo. Janelas abertas não são janelas permanentes. Quem não está agindo agora, com data no calendário, vai descobrir que agiu tarde.

§ O que realmente importa

China aceita fim da tolerância zero — mas o protocolo definitivo ainda está em aberto

O que aconteceu

A missão do MAPA em Pequim (20 a 29/03) obteve o fim da política de tolerância zero para sementes de ervas daninhas em cargas destinadas à industrialização. Os navios retidos foram liberados (exceto os com sementes tratadas ou presença de insetos vivos). Os limiares percentuais definitivos de tolerância seguem em negociação bilateral.

Por que isso importa

O alívio imediato é real — o bloqueio foi desbloqueado. Mas o protocolo ainda não está formalizado, o que mantém tradings e exportadoras em uma zona de ambiguidade regulatória. Quem não reforçou seus processos de certificação fitossanitária entre agora e a publicação oficial do protocolo carrega o risco de ser a próxima carga devolvida.

O que observar

A definição dos limiares percentuais de tolerância — esse número vai redefinir o custo de conformidade de toda a cadeia exportadora de soja.

Ureia a US$ 710/t: fertilizante entrou em território de emergência

O que aconteceu

A ureia atingiu US$ 710/tonelada CFR Brasil — alta de 50% em 30 dias e de 89% em relação ao mesmo período de 2025. O MAP (monoamônio fosfato) subiu 17% para US$ 850/t. A relação de troca piorou: o produtor de soja precisa hoje de 35 a 40 sacas por tonelada de ureia, contra 28 a 32 sacas no ano passado.

Por que isso importa

Para Diretores de Suprimentos e CFOs de agroindústrias que integram cadeias com produtores: revisão de contratos de insumos e instrumentos de hedge (proteção financeira contra variações de preço) saíram da pauta de rotina e entraram na pauta da semana. Quem financiou produtores com preço de insumo travado na projeção de 2025 está absorvendo essa diferença agora.

O que observar

A evolução do conflito no Estreito de Ormuz e as restrições de exportação da China — os dois gatilhos que podem empurrar a ureia além de US$ 800/t.

Fontes:Agrolink

Mercosul-UE: 1º de maio confirmado, com ou sem aprovação do Parlamento Europeu

O que aconteceu

A Comissão Europeia confirmou a aplicação provisória do acordo a partir de 1º de maio, contornando contestação judicial do Parlamento. As cláusulas comerciais entram em vigor antes da ratificação completa: cotas para carnes (99 mil t), aves (180 mil t), açúcar (180 mil t) e etanol (450 mil t).

Por que isso importa

O mercado europeu não é a China. Exige rastreabilidade ambiental (EUDR — a regulação antidesmatamento da UE, em vigor para grandes operadores desde 30/12/2025), certificação sanitária e conformidade trabalhista que a maioria das cadeias brasileiras ainda não tem mapeada formalmente. Exportadoras, frigoríficos e usinas que ainda não iniciaram esse processo chegam ao mercado em desvantagem de precificação em relação a quem está pronto.

O que observar

O andamento do EUDR para PMEs (prazo: 30/06/2026) e os primeiros contratos fechados dentro das cotas — eles vão revelar quem chegou preparado e a que preço.

Fontes:Euronews

Cota de carne bovina para a China: 33,6% preenchida em apenas 2 meses

O que aconteceu

O Brasil embarcou 372 mil toneladas de carne bovina para a China em janeiro e fevereiro — 33,6% da cota anual de 1,106 milhão de toneladas. Mantido o ritmo, a cota se esgota antes do fim do terceiro trimestre. Acima do limite, a tarifa chinesa sobe para 67%.

Por que isso importa

Frigoríficos que ainda não têm estratégia de diversificação de destinos em execução precisam agir agora — não daqui a dois trimestres. A janela americana está excepcionalmente favorável (+97,3% em fevereiro), mas é estruturalmente instável, baseada em decisão judicial e tarifa provisória. Japão e Oriente Médio são os alvos com maior potencial de permanência.

O que observar

O andamento da negociação de abertura do mercado japonês — esse é o desbloqueio comercial com maior probabilidade de impacto no segundo semestre.

Raízen entra em recuperação extrajudicial de R$ 65 bilhões

O que aconteceu

A Raízen — joint venture entre Shell e Cosan, uma das maiores empresas do setor sucroenergético brasileiro — protocolou recuperação extrajudicial de R$ 65,1 bilhões na semana de 23/03. A proposta é converter cerca de 45% do passivo em participação acionária; credores resistem e estimam que os controladores precisarão injetar até R$ 25 bi. As execuções estão suspensas por 180 dias.

Por que isso importa

A Raízen é fornecedora, compradora e parceira de negócios de uma parcela relevante das agroindústrias brasileiras — usinas, distribuidoras, cooperativas. Uma recuperação extrajudicial dessa magnitude afeta contratos de fornecimento de etanol e biocombustíveis, fluxo de caixa de fornecedores e o mapa de poder do setor sucroenergético. Quem tem a Raízen como contraparte relevante precisa revisar as condições dos contratos vigentes.

O que observar

A resposta dos credores nas próximas semanas — a resistência ao plano de conversão em ações pode acelerar um processo formal com impactos mais amplos na cadeia.

§ Radar de mercado

Soja: exportações de março caem 17,9% na média diária

9,5 mi t acumuladas até meados do mês vs. projeção de recorde de 16,3 mi t; crise fitossanitária e atraso na colheita pressionam receita no curto prazo.

Notícias Agrícolas

Soja brasileira amplia fatia na China enquanto americana desaba 83,7%

Brasil exportou 6,56 mi t no bimestre (+82,7%); janela pode se estreitar rapidamente se houver trégua comercial EUA-China — reunião Trump-Xi ainda sem data.

Forbes

Colheita de soja a 71,5% — ritmo mais lento em 5 anos

Chuvas excessivas atrasam avanço; USDA projeta produção recorde de 180 mi t (42,1% da produção mundial); Conab elevou projeção de exportação para 114,39 mi t.

Forbes

JBS: receita recorde de US$ 86 bi em 2025, mas bovinos nos EUA no vermelho

EBITDA negativo de US$ 319 mi na divisão americana; rebanho nos EUA no menor nível em décadas; operação brasileira cresceu 26% e sustentou o resultado.

Exame

Minerva Foods: lucro 4x acima do consenso no 4T25

Receita anual de R$ 54,8 bi (+61%) e alavancagem de 2,6x (consenso esperava 3,9x); integração dos ativos Marfrig concluída antes do prazo.

AgFeed

Açúcar: exportações devem cair 14% na safra 2026/27

29 mi t projetadas vs. 33,8 mi t na safra anterior; usinas migram cana para etanol com petróleo acima de US$ 100/barril.

Notícias Agrícolas

Reforma tributária: CNPJ rural obrigatório a partir de julho/2026

LC 214/2025 pressiona pequenos fornecedores (receita abaixo de R$ 3,6 mi) a regularizar situação fiscal para gerar créditos fiscais às tradings; NFP-e compulsória desde janeiro.

CNA

Carbono: MDIC avança regulamentação do mercado

Documento final com recomendações de MRV previsto para abril; regulamentação infralegal completa esperada para dezembro/2026; janela de mapeamento de créditos encurtando para quem ainda não começou.

gov.br

§ Mundo Tech

Solinftec opera 100 robôs autônomos nos EUA — robótica agrícola entrou na fase de escala

A Solinftec, agritech brasileira, atingiu crescimento de 243% na área operada nos EUA e opera mais de 100 robôs Solix (alimentados a energia solar) em fazendas americanas. O sistema reduz uso de herbicidas em até 95%, com aplicação planta a planta via visão computacional — sem intervenção humana, operação 24/7. Para quem dirige operações agroindustriais no Brasil: robótica autônoma de campo deixou de ser piloto. Está em escala comercial, com empresa brasileira entregando.

UiPath lança agentes autônomos para o ciclo completo de compras — prontos para produção

No Agentic AI Summit de 25/03, a UiPath lançou uma solução que automatiza o ciclo inteiro de compras — do pedido ao pagamento (P2P, purchase-to-pay) — sobre ERPs existentes como SAP e Salesforce, com aprovação humana apenas para exceções. O orquestrador gerencia processos que levam dias ou semanas sem perder o contexto. Para tradings, cooperativas e agroindústrias com alto volume de ordens de compra: esse tipo de solução existe, está disponível hoje e já tem caso de negócio testado por empresas do porte de clientes da plataforma.

TSMC atingiu limite de capacidade — quem planeja edge AI no campo vai esperar mais e pagar mais

A Broadcom reportou que a TSMC — o maior fabricante de chips avançados do mundo — chegou ao teto de sua capacidade produtiva. O prazo de entrega de componentes críticos para transceivers ópticos saltou de 6 semanas para 6 meses. Para agroindústrias planejando infraestrutura própria de IA no campo — edge computing (processamento local em armazéns ou máquinas), drones autônomos, gateways IoT — os prazos e custos vão aumentar significativamente nos próximos 12 meses. A alternativa mais viável no curto prazo é priorizar soluções baseadas em nuvem.

§ Sinal fraco

O 15º Plano Quinquenal da China colocou "novas proteínas" na agenda de segurança nacional — e isso muda o horizonte do agro brasileiro

O plano quinquenal chinês para 2026-2030, aprovado em março, inclui uma diretiva inédita na história dos planos de segurança alimentar do país: desenvolver tecnologias de biologia sintética e expandir novas fontes de proteínas — fermentação de precisão, proteínas de insetos, alternativas de origem não animal. Ao mesmo tempo, o plano estabelece meta de ampliar a produção doméstica de grãos em 50 milhões de toneladas e "coordenar importações com produção doméstica" — linguagem diplomática para gerenciamento ativo do ritmo de compras externas.

Isso não é tendência de mercado livre. É decisão de Estado com horizonte de 5 anos e capacidade de execução que poucos países têm. A China já investia em fermentação e biologia sintética, mas a entrada no Plano Quinquenal sinaliza prioridade de alocação de capital público e prazo esperado de resultados. O mercado de proteínas alternativas, segundo a Reuters, é explicitamente incluído como vetor de redução de dependência externa.

Para agroindústrias brasileiras que têm a China como destino primário de carne, soja e derivados: o 15º Plano não é o cenário pessimista — é o dado de planejamento que a maioria ainda não incorporou nos seus horizontes estratégicos. A pergunta que merece ser feita internamente não é "isso vai impactar o setor?" — é "o nosso plano de diversificação de mercados tem o mesmo horizonte temporal de 5 anos que o plano da China?"

§ Gatua Context

Esta semana, uma pergunta circulou na Comunidade Gatua que captura bem uma tensão real nas operações do setor: na sua empresa, a área de automação agrícola e o COA (Centro de Operações Agrícolas) têm relação hierárquica ou apenas operacional com a TI corporativa?

As respostas vieram de executivos de usinas com 6 a 11 milhões de toneladas de moagem. O padrão foi claro: na maioria das agroindústrias, TI e COA operam de forma paralela — TI cuida de ERP e governança de dados; COA cuida de equipamentos e sensores de campo. Daí emergiu uma reflexão que ninguém quis ignorar: se as políticas de cibersegurança ficam com a TI, mas as "portas" do COA e da TO (Tecnologia Operacional — os sistemas que controlam máquinas industriais e equipamentos físicos) ficam abertas, de que adianta o perímetro interno estar protegido?

É exatamente esse tipo de conversa — específica, sem fornecedor no meio, com quem opera sistemas de verdade — que acontece toda semana na Comunidade Gatua. E para quem quer aprofundar o tema de governança e segurança de TI no agro com outras lideranças do setor, o próximo Gatua Meeting TI do Futuro acontece em 21 de maio, em Ribeirão Preto.

Comunidade Gatua

Quem age quando a janela abre não precisa correr quando ela fecha.

Até a próxima segunda.

Bruno BarrosCEO, Gatua

§ Comece de leve

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