AgroReview

§ AgroReview · Edição #6 · 16 de março de 2026

Ciclo virou: ajuste, crédito e o novo mapa do agro

É preciso ter ainda o caos dentro de si para poder dar à luz uma estrela dançante.

Friedrich Nietzsche

A última semana entregou o que os balanços já antecipavam: 2025 foi excepcional e 2026 é diferente. O VBP do agronegócio deve recuar 4,6%, o PIB setorial desacelera de 11,3% para 0,5%, e a Raízen — maior empresa sucroenergética do mundo — teve o maior pedido de recuperação extrajudicial da história brasileira aprovado pela Justiça de São Paulo.

Mas o setor não está parado. A SLC Agrícola bateu R$ 8,5 bilhões em receita, a 3tentos anunciou R$ 1,15 bilhão em nova planta de etanol de milho, e o M&A no agro cresceu 40% em 2025.

Esta edição é sobre ler os dois sinais ao mesmo tempo: onde o ciclo está se contraindo e onde o capital ainda está avançando. E por que a mudança de posição da China na soja pode ser o movimento mais relevante da semana para quem toma decisão comercial.

§ O que realmente importa

Raízen: recuperação extrajudicial aprovada — R$ 65 bilhões em renegociação

O que aconteceu

Em 12/03, o TJ-SP deferiu o pedido de recuperação extrajudicial da Raízen, com suspensão de ações por 180 dias. A empresa busca renegociar R$ 65,1 bilhões em dívidas financeiras quirografárias, com 47% de adesão inicial dos credores. Está na mesa a venda das operações na Argentina por US$ 1 bilhão — parte da estratégia para reduzir a alavancagem de 5,5x para 2,5–3x.

Por que isso importa

É o maior processo do tipo na história do Brasil — e o desfecho vai redefinir contratos, fornecedores e parceiros em todo o setor sucroenergético. Para quem vende tecnologia, insumos ou serviços para a Raízen ou seu ecossistema: o risco de crédito e a continuidade de projetos em andamento precisam ser reavaliados agora, não depois da próxima audiência.

O que observar

A evolução da adesão dos credores nas próximas semanas e a concretização da venda da Argentina — esses dois movimentos vão definir ritmo e desfecho da reestruturação.

VBP cai 4,6% e PIB do agro vai a 0,5% — o fim do ciclo extraordinário

O que aconteceu

A CNA projeta queda de 4,6% no Valor Bruto da Produção agropecuária em 2026, estimado em R$ 1,403 trilhão. O Ministério da Fazenda projeta crescimento de apenas 0,5% para o PIB setorial em 2026 — contra 11,3% em 2025. Exceções positivas: café (+18,4%) e carne bovina (+3,7%).

Por que isso importa

Quem planeja 2026 com a base de 2025 está trabalhando com premissas erradas. A queda no VBP não é uniforme — quem está em café ou pecuária opera num contexto completamente diferente de quem está em soja ou milho. Rever o orçamento por cadeia, não pelo agro como bloco, é o movimento certo agora.

O que observar

Se as exceções positivas — café e boi — se sustentam diante da pressão cambial, do crédito caro e da demanda internacional no segundo semestre.

China recua de 80% para 70% nas compras de soja brasileira

O que aconteceu

A Anec projeta que a China responderá por 70% dos embarques de soja do Brasil em 2026, ante 80% em 2025. O movimento é reflexo direto do acordo comercial entre Pequim e Washington, que redireciona parte das compras para a soja americana. Em volume absoluto, ainda são ~77 milhões de toneladas — mas a direção importa mais do que o número.

Por que isso importa

Dez pontos percentuais representam algo em torno de 12 a 13 milhões de toneladas que precisam encontrar outros destinos — e a preços que ainda não estão formados. Para tradings, cooperativas e produtores com posição vendida antecipada: a concentração em um único comprador deixou de ser conforto e passou a ser risco estrutural. Diversificação de destino virou pauta estratégica, não apenas comercial.

O que observar

Os destinos alternativos emergentes — UE, Oriente Médio, Sudeste Asiático — têm volumes menores e exigências de rastreabilidade maiores. Quem tiver certificação ambiental sai na frente nessa redistribuição.

Crédito rural: custeio cresce, mas investimento recua 20%

O que aconteceu

Nos primeiros oito meses do Plano Safra 2025/26, o crédito rural contratado somou R$ 354,4 bilhões (+7%). O detalhe que importa: CPRs (Cédulas de Produto Rural) já respondem por 47% do total — e o crédito para investimentos recuou 20% no mesmo período.

Por que isso importa

Crescimento de custeio com queda de investimento é o padrão do ciclo defensivo. O setor está financiando a operação, não a expansão. Para fornecedores de máquinas, tecnologia e infraestrutura: o 2º semestre de 2026 pode ser mais difícil do que os números agregados sugerem. Quem tiver proposta de valor atrelada a retorno mensurável — e conseguir demonstrar isso — tem muito mais chance de fechar.

O que observar

A evolução do crédito de investimento nos próximos levantamentos da Conab e do Ministério da Agricultura — esse indicador vai sinalizar quando o setor volta à expansão.

§ Radar de mercado

Soja supera US$ 12,40/bushel em Chicago

Tensões no Oriente Médio elevam petróleo e puxam commodities; no mercado brasileiro, ganhos de mais de R$ 4,60/saca registrados na semana.

Exportações do agro 2025: US$ 169,2 bilhões

Recorde histórico, respondendo por 48,5% das exportações totais do Brasil; carne bovina com receita de US$ 17,9 bi (+39,9% vs 2024).

CNA pede desoneração emergencial do diesel

Ofício ao ministro Haddad e ao Confaz pede redução de PIS/Cofins e ICMS, que juntos somam quase 49% do preço na bomba; pressão de custos agravada pela alta do petróleo na colheita.

M&A no agro cresceu 40% em 2025

~70 operações no ano, 68% com investidores nacionais; empresas regionais com governança profissionalizada ganham protagonismo em 2026.

Fiagros: R$ 21,6 bilhões de patrimônio

Captação líquida de R$ 9,1 bi em 2025 consolida os fundos como alternativa relevante ao crédito bancário enquanto o BNDES reduz participação.

Milho: déficit global projetado para 2026/27

Contratos futuros em Chicago buscam US$ 4,80–4,90/bushel; EUA devem reduzir área plantada em ~2 milhões de hectares.

3tentos anuncia R$ 1,15 bi em etanol de milho no Pará

Nova planta em Redenção com capacidade para 2,1 mil t/dia de milho; empresa projeta originar 6,9 mi t de grãos em 2026 (+13%).

Mercosul-UE: tarifa zero no "Dia 1" para café, frutas e óleos vegetais

Acordo prevê eliminação de tarifas em 77% dos produtos agropecuários, mas cláusula de adoção de padrões europeus de produção gera atenção no setor.

§ Mundo Tech

Jack Dorsey demite 40% do time por IA — e o mercado aprova

A Block anunciou o corte de 4.000 funcionários — de 10.000 para 6.000, vinculando diretamente a decisão à eficiência operacional gerada pela inteligência artificial. Dorsey foi direto: equipes menores com ferramentas de IA entregam mais e melhor. As ações subiram 25% após o anúncio — é o maior corte de empregos publicamente atribuído à IA em uma empresa do S&P 500.

Para quem lidera empresas: esse movimento vai virar benchmark de gestão ao longo de 2026. A pressão para justificar headcount em funções que a IA já executa vai crescer — não é sobre demitir por demitir, mas sobre clareza de onde o humano agrega o que a máquina não faz. Quem tiver esse mapa pronto sai na frente.

Big Techs vão investir US$ 650 bilhões em IA em 2026 — e isso importa para o agro

Alphabet, Amazon, Meta e Microsoft planejam US$ 650 bilhões em infraestrutura de IA neste ano — chips, servidores e data centers — alta de 58% frente aos US$ 410 bilhões de 2025. A consequência prática: toda essa infraestrutura vai derrubar o custo de acesso às ferramentas ao longo do ano.

O que hoje parece caro ou complexo de implementar em operações agrícolas vai ficar mais acessível. O gap entre quem está usando IA e quem está esperando "a hora certa" vai crescer na mesma proporção desse investimento.

Yann LeCun levanta US$ 1 bilhão para ensinar a IA a entender o mundo físico

O ex-chefe de IA da Meta fundou a AMI Labs em Paris e captou US$ 1,03 bilhão — a maior rodada seed da história da Europa. A aposta é nos chamados "world models": sistemas de IA que aprendem a partir da realidade física — não apenas de texto. Em vez de prever palavras, a IA aprende como objetos se movem, como processos industriais se comportam, como o clima evolui. Nvidia, Bezos e Mark Cuban estão entre os investidores.

Para o agro, a relevância é direta: robótica agrícola, simulação de safras por talhão, manutenção preditiva de equipamentos. Os modelos de linguagem são úteis para análise e texto — os world models são o próximo passo para decisões que dependem de entender o que acontece no campo físico, não no ambiente digital.

§ Sinal fraco

CRA, CPR e terras viram tokens — e o agro ainda não percebeu o tamanho disso

O Brasil é hoje um dos líderes globais em tokenização de ativos do mundo real — o chamado mercado de RWA (Real World Assets). Em 2025, esse mercado cresceu 80% e se aproximou de US$ 23 bilhões globalmente. No Brasil, empresas como Liqi Digital Assets e XDC Network já ultrapassaram US$ 100 milhões em ativos tokenizados. E os candidatos naturais à próxima onda são exatamente os ativos do agronegócio: CRA, CPR, terras e commodities.

O que é tokenização, em linguagem direta? É transformar um ativo real em um registro digital fracionável, transferível e negociável instantaneamente — sem cartório, sem intermediário, com liquidação em segundos. Uma CPR tokenizada pode ser negociada em frações e usada como colateral em operações internacionais. Uma terra tokenizada pode captar investidores globais sem abertura de capital. O ativo continua sendo real — o que muda é a infraestrutura de negociação.

Para o agronegócio, o impacto vai além da liquidez: é sobre acesso a capital em condições que o mercado tradicional não oferece. Com crédito de investimento caindo 20% e Selic a 15%, novas estruturas de captação vão ganhar relevância rápido. A janela está aberta agora — antes de regulamentação densa, antes de o mercado precificar o risco e antes de os grandes players chegarem. Quem entender a mecânica hoje entra com vantagem quando os primeiros produtos regulados chegarem ao mainstream.

§ Gatua Context

Na última sexta-feira lançamos o eBook Governança, Cibersegurança e o Futuro do Agronegócio — construído a partir da inteligência gerada por mais de 100 executivos no Gatua Meeting de novembro de 2025.

Um número do material que não sai da cabeça: o prejuízo médio por ataque cibernético no agro é de R$ 23,4 milhões — com 19 dias de recuperação. Para operações com janela rígida de safra, esse custo pode ser existencial. E ainda assim, apenas 31% das empresas do setor estão em conformidade com a LGPD.

O documento tem dados reais sobre ataques, o framework prático de governança de IA que o setor está usando, e o que a reforma tributária muda para quem opera no agro. Não é relatório de consultoria — é o que o próprio setor disse, com dados.

O eBook é exclusivo para quem faz parte do ecossistema Gatua — Comunidade ou Partners. Se você ainda não é membro e quer acesso.

Comunidade Gatua

Quando o ciclo vira, os melhores operadores não ficam surpresos — já estavam olhando para os dois lados ao mesmo tempo.

Até a próxima segunda.

Bruno BarrosCEO, Gatua

§ Comece de leve

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