AgroReview

§ AgroReview · Edição #4 · 2 de março de 2026

Recordes no campo, realidade no balanço

Onde há perigo, cresce também o que salva.

Friedrich Hölderlin

A última semana trouxe dois mundos em paralelo: no campo, a soja caminha para a maior safra da história e a carne bovina segue batendo recordes de exportação. Nas salas de conselho, a Raízen — maior empresa sucroenergética do mundo — foi rebaixada para grau especulativo pelas três maiores agências de rating do planeta, e negocia um pacote bilionário para não afundar.

Ao mesmo tempo, a reforma tributária entra em vigor e muda as regras fiscais de quem opera no agro. E no mundo tech, o Gartner decretou: acabou a era dos pilotos de IA sem resultado mensurável.

Por que dedicar 7 minutos a esta edição? Porque o que está acontecendo com a Raízen não é apenas a crise de uma empresa — é um alerta sobre alavancagem, ciclo de crédito e concentração de risco num setor que ainda celebra seus números recordes.

§ O que realmente importa

Raízen: rebaixada para CCC pelas três grandes agências — maior crise do setor em décadas

O que aconteceu

A Fitch, S&P Global e Moody's rebaixaram os ratings da Raízen para nível especulativo profundo (CCC) — a Fitch chegou a cortar duas vezes no mesmo dia. A empresa, que encerrou o último balanço com prejuízo de R$ 15,65 bilhões e dívida líquida de R$ 55,3 bilhões, negocia um pacote bilionário com Shell, Cosan e BTG. Dois planos estão na mesa: (a) capitalização de ~R$ 5 bi pela Shell sem cisão da empresa; (b) cisão em dois negócios separados — energia e distribuição — com aporte de ~R$ 10 bi e entrada do BTG. O que é "grau especulativo" (CCC)? É a classificação dada pelas agências de rating quando consideram que uma empresa tem alta probabilidade de não honrar suas dívidas. Empresas nessa faixa têm acesso muito mais caro (ou nenhum) ao mercado de capitais.

Por que isso importa

A Raízen é co-líder em etanol de cana e distribuidora de combustíveis em escala nacional. Sua instabilidade afeta fornecedores, parceiros e a confiança do mercado no setor sucroenergético como um todo. Para usinas, fornecedores de tecnologia e gestores de risco: monitorar o desfecho desta reestruturação é obrigação, não opção.

O que observar

Resultado das negociações com credores e bondholders (detentores de títulos de dívida) nas próximas semanas. Se a cisão avançar, dois grandes compradores distintos de tecnologia e serviços surgem no lugar de um.

Cota chinesa de carne pode esgotar em setembro — e agora?

O que aconteceu

A China implementou, em janeiro de 2026, cotas de importação de carne bovina por país, com tarifa adicional de 55% sobre volumes acima do limite. Para o Brasil, a cota anual é de 1,106 milhão de toneladas — mas em janeiro já foram exportadas 119,63 mil toneladas só para a China. Segundo o Cepea/Esalq, se o ritmo se mantiver, o limite se esgota em setembro.

Por que isso importa

Frigoríficos precisam redefinir já a estratégia de destinos. A janela japonesa — em negociação ativa — e mercados do Oriente Médio ganham urgência. Quem tiver flexibilidade logística e rastreabilidade certificada sai na frente. Quem não tiver, vai pagar a sobretarifa de 55%.

O que observar

Andamento da abertura do Japão para carne bovina brasileira, prevista para o 1º semestre de 2026 — esse pode ser o maior desbloqueio comercial do ano para o setor.

IBS e CBS entram em vigor em 2026 — reforma tributária muda as regras do jogo fiscal

O que aconteceu

A partir de 2026, o IBS (Imposto sobre Bens e Serviços) e a CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços) começam a substituir, progressivamente, PIS, Cofins, ICMS, IPI e ISS. A transição completa vai até 2033. Em linguagem direta: PIS e Cofins são contribuições federais sobre faturamento. ICMS é o imposto estadual sobre circulação de mercadorias. ISS é o imposto municipal sobre serviços. A reforma unifica tudo isso em dois novos impostos com regras padronizadas. Para o agro, muda a forma de apurar créditos tributários e o custo de alguns insumos.

Por que isso importa

Para agroindústrias e empresas de tecnologia que atendem o setor: mudança na estrutura de crédito fiscal, potencial impacto em margens e necessidade de revisão dos contratos e enquadramentos tributários. Não é algo para delegar ao contador sem o gestor entender o que está mudando. O negócio precisa se atentar às mudanças e repensar o seu modelo baseado na nova reforma.

O que observar

Regulamentação detalhada do tratamento do agro dentro do novo sistema — especialmente insumos agropecuários, que historicamente têm regimes especiais.

Soja em 178-180 mi ton: recorde certo — mas USDA já sinaliza pressão futura dos EUA

O que aconteceu

A Conab projetou 178 milhões de toneladas de soja na safra 2025/26 (+3,8%) e o USDA foi ainda mais otimista: 180 milhões de toneladas no relatório WASDE de fevereiro. No mesmo relatório, o USDA projetou aumento de compras chinesas de soja americana — o que pode redirecionar fluxos e apertar margens brasileiras. O que é o WASDE? É o relatório mensal do USDA (Departamento de Agricultura dos EUA) com estimativas globais de oferta e demanda para grãos. É um dos documentos mais monitorados por traders e gestores de commodities no mundo inteiro.

Por que isso importa

Safra recorde pressiona preço. Com soja em torno de US$ 11,48/bushel em Chicago e real em R$ 5,15, as margens seguem apertadas internamente. O risco de médio prazo é o aumento de competição americana no mercado chinês — exatamente o comprador que representa a maior fatia das exportações brasileiras.

O que observar

Ritmo de colheita no Brasil nas próximas 4 semanas e posicionamento das tradings na precificação antecipada. A janela de vantagem cambial pode não durar.

IA entra no "vale da desilusão" — Gartner cobra ROI real antes de escalar

O que aconteceu

O Gartner declarou que a IA entrou em 2026 no chamado "vale da desilusão" — momento em que a empolgação inicial dá lugar à cobrança de resultados concretos. Apesar dos US$ 2,52 trilhões projetados em investimento global em IA para 2026 (+44%), o Gartner alerta: empresas estão exigindo ROI mensurável antes de aprovar novos projetos. O que é o "vale da desilusão"? É uma fase do "Hype Cycle" (ciclo de expectativas) do Gartner, consultoria global de tecnologia. Toda tecnologia passa por um pico de expectativas infladas, depois cai num vale onde os resultados reais são cobrados — antes de subir novamente, desta vez com adoção madura e sustentável.

Por que isso importa

Para CTOs e Diretores de TI do agro: projetos de IA aprovados por entusiasmo sem métricas claras estão sendo cancelados ou revisados. Quem vai ao próximo comitê executivo precisa chegar com dados de retorno, não com casos de uso genéricos. A fase dos pilotos de feira acabou.

O que observar

Primeiros relatórios de ROI de projetos de IA em agroindústrias brasileiras — vão definir o benchmark do setor para os próximos 2 anos.

§ Radar de mercado

3tentos projeta +49% em processamento para 2026

Nova planta de etanol de milho no Pará (428 milhões de litros/ano) e originação de 6,9 mi ton de grãos (+13%). Contraponto claro à crise da Raízen no mesmo setor.

JBS: receita recorde de US$ 22,6 bi no 3T25

Alta de 13,4% com crescimento em todas as unidades. Seara voltou a embarcar frango após fim da gripe aviária.

Plano Safra 2025/26: juros mais altos da história

Custeio para grandes produtores a 14% a.a., Selic a 15%. Custo adicional estimado de R$ 54-58 bilhões ao setor. Aprosoja classifica como o pior ciclo de crédito da história.

La Niña em transição para neutralidade

Chance de 50% de encerramento até março. El Niño possível no 2º semestre, com risco para horticultura e safrinha de milho.

Drones no campo: de 3 mil para 35 mil unidades em 4 anos

Mercado estimado em US$ 77 milhões. Cada operação exige GPS de precisão, plataformas de voo e rastreabilidade crescente.

Ransomware no agro dobrou no 1T25

Ataques cibernéticos cresceram 25% em 2024 e mais que dobraram no 1º trimestre de 2025. 80% dos executivos apontam cibersegurança como principal obstáculo à adoção de IA. (Ransomware: tipo de ataque que "sequestra" os dados de uma empresa e exige pagamento para liberar.)

Mercosul-UE: fase de ratificação aberta

Acordo aprovado politicamente em janeiro, eliminação progressiva de tarifas para 718 milhões de pessoas. Café, sucos, soja e frutas se beneficiam diretamente — com exigências de rastreabilidade ambiental.

Primeiros créditos de carbono por agricultura regenerativa nas Américas

NaturAll Carbon emitiu créditos verificados pela Verra conectando fazendas brasileiras ao mercado global. Regulamentação do MBRE (Mercado Brasileiro de Redução de Emissões) avança em 2026.

§ Mundo Tech

Robôs humanoides chegam ao chão de fábrica a partir de US$ 2.899

No CES 2026 (a maior feira de tecnologia do mundo, realizada em Las Vegas), robôs humanoides chineses foram apresentados com preço inicial de US$ 2.899 — nível que começa a viabilizar adoção em escala industrial. Jensen Huang, CEO da Nvidia, classificou como "a próxima fronteira" e a empresa já fornece o sistema de IA embarcada para mais de 100 empresas de robótica no mundo.

Para frigoríficos e processadoras: automação de linhas de produção com robótica inteligente pode se tornar economicamente viável em 2-3 anos. Não é ficção científica — é precificação que está caindo rápido.

Gartner: 40% das aplicações empresariais vão ter agentes de IA em 2026

A Gartner prevê que 40% dos softwares corporativos integrarão agentes autônomos de IA até o final deste ano, contra menos de 5% atualmente. A Salesforce já tem 12 mil clientes usando sua plataforma de agentes (Agentforce), com US$ 100 milhões em receita recorrente. O que é um "agente de IA"? Diferente de um chatbot que responde perguntas, um agente de IA executa tarefas de forma autônoma — como analisar um contrato, criar uma ordem de compra ou gerar um relatório sem intervenção humana a cada passo. É a evolução prática da IA dentro das operações.

Para quem lidera empresas: a pergunta deixou de ser "vamos usar IA?" e passou a ser "em qual processo específico, com qual métrica de resultado?"

Google lança Gemini 2.5 Deep Think — raciocínio paralelo disponível para corporativo

O Google liberou para assinantes do plano AI Ultra o Gemini 2.5 Deep Think, capaz de processar múltiplos fluxos de raciocínio simultaneamente — em vez de pensar de forma linear como modelos anteriores. Também expandiu o Deep Research (pesquisa profunda automatizada) e a geração de vídeo com Veo 3.

O que isso significa na prática: ferramentas de IA estão ficando capazes de fazer análises estratégicas complexas com qualidade muito superior ao que era possível há seis meses. O gap entre quem usa e quem não usa está crescendo rápido.

§ Sinal fraco

O mercado regulado de carbono chega ao Brasil — e o agro está no centro

A Lei 15.042/2024 criou o MBRE — Mercado Brasileiro de Redução de Emissões. Em termos simples: grandes empresas com alto nível de emissões de CO₂ serão obrigadas por lei a compensar parte dessas emissões. E a forma de compensar é, em muitos casos, comprando créditos de carbono gerados por quem reduz ou captura carbono — incluindo o agronegócio.

Isso muda a lógica do mercado de carbono no Brasil de duas formas. Primeiro, cria demanda regulada e previsível — não mais dependente apenas de empresas que compram créditos voluntariamente por escolha ou pressão de imagem. Segundo, eleva o volume de recursos que vai circular no setor.

Para usinas, frigoríficos e grandes produtores que já adotam práticas como plantio direto, ILPF (Integração Lavoura-Pecuária-Floresta) ou agricultura regenerativa: o timing para estruturar a certificação e monetização desses ativos é agora — antes que o mercado fique congestionado e as metodologias de verificação mudem. A NaturAll Carbon já emitiu os primeiros créditos verificados por agricultura regenerativa nas Américas. O próximo passo é escala. O que é ILPF? Sistema de produção que integra lavoura, pecuária e floresta na mesma área, aumentando produtividade e capturando carbono simultaneamente.

A regulamentação detalhada do MBRE está sendo finalizada ao longo de 2026. Quem entender as regras antes do mercado amplo vai ter vantagem na captação. Quem esperar para "ver como fica" pode chegar tarde.

§ Gatua Context

Duas coisas que lançamos na última semana merecem atenção

O artigo do Carlos Barros sobre o gestor de tecnologia do futuro — publicado no LinkedIn — toca num ponto que a última semana confirmou na prática: CTO e Diretor de TI que ainda operam como gestores de infraestrutura vão ficar para trás. Com IA entrando no "vale da desilusão" e as empresas cobrando ROI, quem não sabe traduzir tecnologia em linguagem de negócio e resultado financeiro perde a cadeira na mesa estratégica. Vale a leitura — especialmente para quem está se preparando para o próximo ciclo de decisões de tecnologia no agro.

No nosso canal do YouTube, entrevistamos Talita Cury, empresária e conselheira do Grupo Santa Clara, sobre governança corporativa e sucessão familiar no agronegócio. Um dos pontos mais fortes da conversa: "Sair da operação é o maior desafio do empresário do agro — mas é o que permite crescer de verdade." Assista em menos de 30 minutos e nos siga no canal.

Assistir no YouTube

Esses dois temas — liderança de tecnologia e governança — são exatamente o que vamos debater em profundidade no TI do Futuro: A Nova Gestão de TI, dia 25 de março, em Ribeirão Preto. Um dia inteiro entre CTOs, VPs e Diretores de Tecnologia do agronegócio brasileiro. Não é mais sobre sistemas — é sobre liderar negócios por meio da tecnologia.

Recorde no campo e crise no balanço coexistem. Quem conseguir ler os dois ao mesmo tempo toma decisões melhores.

Até segunda.

Bruno BarrosCEO, Gatua

§ Comece de leve

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