AgroReview

§ AgroReview · Edição #2 · 16 de fevereiro de 2026

Recordes no campo, riscos na geopolítica

Nenhum homem pode banhar-se duas vezes no mesmo rio, pois não é o mesmo rio e ele não é o mesmo homem.

Heráclito

A última semana foi de contrastes. O agro brasileiro exportou US$ 10,8 bilhões em janeiro — o terceiro melhor resultado histórico para o mês. A carne bovina bateu recorde absoluto. A soja caminha para uma safra histórica.

E ao mesmo tempo: tarifas americanas ameaçam US$ 2,7 bilhões em receita, o Parlamento Europeu endureceu salvaguardas no acordo Mercosul-UE, e a Argentina ganhou espaço no mercado de carne dos EUA — direto na nossa principal janela de crescimento.

O tema da semana é esse: como manter equilíbrio quando os números internos são bons mas o ambiente externo muda de regra no meio do jogo.

§ O que realmente importa

Tarifas dos EUA: risco real de US$ 2,7 bi para o agro brasileiro

O que aconteceu

A CNA alerta que, se os EUA mantiverem sobretaxa de 40%, 22% das exportações agro para os americanos serão atingidas. Exportações para os EUA já caíram 38% entre agosto e novembro de 2025.

Por que isso importa

Os EUA eram uma das janelas mais promissoras de crescimento — especialmente em carnes. Uma investigação 301 ainda em andamento pode abrir caminho para novas sanções. A diversificação de destinos deixou de ser estratégia e virou necessidade urgente.

O que observar

Desfecho da investigação 301 e movimentos do Japão e Coreia do Sul como destinos alternativos para proteína bovina.

Carne bovina: melhor janeiro da história — mas com pressão da Argentina

O que aconteceu

264 mil toneladas exportadas, US$ 1,4 bilhão em receita — alta de 26% em volume e 40% em receita. No mesmo período, Trump assinou decreto ampliando cota de carne argentina nos EUA de 20 mil para 80 mil toneladas com tarifa preferencial.

Por que isso importa

O Brasil exportou para 116 países, com EUA comprando 93% a mais. Mas a entrada argentina a preço preferencial nos EUA cria concorrência direta no mercado que mais cresceu para nós. O recorde de hoje não garante o patamar de amanhã.

O que observar

Evolução da cota argentina e abertura do mercado japonês para carne brasileira — negociação indicada para o 1S26.

Mercosul-UE: salvaguardas aprovadas, acordo em fase decisiva

O que aconteceu

O Parlamento Europeu aprovou em 10/02 mecanismo que permite à UE suspender benefícios tarifários se importações crescerem 5% em 3 anos — o critério anterior era 10% ao ano. Investigações passam de 6 para 3 meses.

Por que isso importa

Carnes e açúcar são os segmentos mais sensíveis. O acordo avança, mas com portão de saída mais fácil para a Europa. Para frigoríficos e usinas que planejavam crescer via Mercosul-UE, o cenário ficou menos previsível.

O que observar

Posição de França e Alemanha nos próximos meses — o acordo ainda enfrenta resistência interna na Europa.

Crédito rural muda de estrutura: CPR cresce 37% e private avança

O que aconteceu

O crédito rural atingiu R$ 316,57 bilhões na safra 2025/26, alta de 6%. CPRs saltaram de 34% para 47% do total; investimento caiu 20% com Selic a 15%, industrialização subiu 45%.

Por que isso importa

O modelo de financiamento do agro está mudando. BNDES perde espaço, mercado de capitais e operações privadas avançam. Quem dominar a estruturação de crédito via mercado de capitais vai ditar o ritmo do próximo ciclo.

O que observar

Expansão dos Fiagros (patrimônio de R$ 21,6 bi, captação líquida de R$ 9,1 bi) e evolução das CPRs eletrônicas.

Agentes de IA chegam às operações — não é mais tendência, é decisão

O que aconteceu

A Meta adquiriu a Manus AI por US$ 2 bilhões — startup de agentes autônomos de uso geral. Estudo de Stanford e Carnegie Mellon mostrou que equipes humano+IA superam agentes totalmente autônomos em 69% na qualidade do output.

Por que isso importa

2026 é o ano em que chatbots se transformam em agentes que executam tarefas reais nas operações das empresas. A Cargill já usa IA para maximizar o rendimento por cabeça abatida. Para agroindústrias, a pergunta deixou de ser "quando adotar" e passou a ser "em qual processo começar".

O que observar

Primeiros casos brasileiros de agentes de IA em operações de frigoríficos, usinas e processadoras.

§ Radar de mercado

Exportações agro em janeiro

US$ 10,8 bi, superávit de US$ 9,2 bi. Terceiro melhor resultado histórico. Volume +7%, preço médio recuou 8,6%.

Soja em colheita

17,4% colhidos; produção deve bater recorde de 177,6 mi ton. Milho 2ª safra: 21,6% de plantio avançado.

Boi gordo firme

R$ 337/@, negociações chegando a R$ 350 em SP. Relação bezerro/boi gordo no maior nível em 6 anos.

M&A acelerado

60 operações em 2025, crescimento de 15-20%. Agro regional lidera 2026 em logística, armazenagem e nutrição animal.

IGP-10 cai 0,42%

Puxado por recuo de soja e minério de ferro. Bovinos, feijão e ovos puxam na direção contrária.

Gecex zera tarifas

1.059 produtos com alíquota zero, incluindo 20 insumos agropecuários. Quota de 400 mil ton de malte aprovada.

Brasil mira 550 mercados

535 aberturas desde 2023; 50 novos destinos esperados até junho. Japão negocia abertura para carne bovina.

Raízen em turbulência

Prejuízo de R$ 15,65 bi, dívida líquida de R$ 55,3 bi (+43,4%). Capex cortado em R$ 3 bi, canaviais preservados.

§ Mundo Tech

Big Techs vão investir US$ 500 bi em IA em 2026 — e isso muda o custo de tudo

O Google planeja US$ 175-185 bi em capex para 2026, mais que o dobro de 2025. Meta: US$ 115-135 bi. Microsoft e Amazon completam o quarteto. Esse volume em infraestrutura significa queda contínua de custo de processamento e modelos mais poderosos disponíveis para empresas de qualquer tamanho — incluindo agroindústrias que ainda não decidiram o que fazer com IA.

Equipes humano+IA superam IA autônoma em 69% — a fórmula que funciona

Estudo de Stanford e Carnegie Mellon testou equipes totalmente autônomas contra equipes mistas. Humano+IA ganhou em qualidade 69% das vezes. A IA autônoma foi mais rápida e barata, mas com menos acurácia. Para quem está desenhando adoção de IA em operações complexas — gestão de safra, controle industrial, supply chain — a resposta é clara: orquestrar humano e agente juntos.

DeepSeek avança em países em desenvolvimento — guerra de IA tem frente geopolítica

Relatório da Microsoft mostra que a IA chinesa detém 56% do mercado na Bielorrússia, 43% na Rússia e avança em África e Ásia. A Europa já baniu uso governamental. O ponto de atenção para o agro: modelos open-source de baixo custo estão se tornando alternativas viáveis a plataformas ocidentais pagas — o que muda o cálculo de custo de adoção de IA.

§ Sinal fraco

O milho brasileiro se desconectou de Chicago — e isso muda o jogo do preço interno

O consumo de milho para etanol ultrapassou 23 milhões de toneladas na última safra — crescimento de 18%. Pela primeira vez, a demanda doméstica passou a exercer mais influência sobre o preço do milho no Brasil do que a paridade de exportação.

O que isso significa na prática: o preço do milho brasileiro está cada vez menos acoplado ao Chicago Board of Trade e cada vez mais à demanda interna de etanol de milho. Para quem compra milho como insumo — frigoríficos, integradoras, produtores de ração — o benchmark de referência mudou. Olhar Chicago sem olhar o mapa de usinas de etanol no Centro-Oeste é perder o sinal mais importante.

A consequência estrutural é dupla: o Brasil se torna mais autossuficiente no destino do milho, mas pode diminuir sua participação como exportador. Um ativo que era divisor de receita vira elemento de segurança energética e alimentar interna. A lógica do negócio mudou — e a precificação de contratos de milho ainda não incorporou isso completamente.

§ Gatua Context

Tarifas americanas, crédito em transição, M&A acelerado e agentes de IA chegando nas operações. São exatamente esses temas que estão em discussão toda semana na Comunidade Gatua. Se você quer acesso a essa inteligência coletiva.

Comunidade Gatua

A semana que vem trará novos dados. O que não muda é a necessidade de leitura clara do que está acontecendo — sem ruído, sem hype.

Bruno BarrosCEO, Gatua

§ Comece de leve

Ainda decidindo? Receba a AgroReview.

A curadoria que 2.000+ executivos do agro leem toda segunda. Sem custo, sem spam — e sem fornecedor influenciando a pauta.

Receba a AgroReview

A curadoria que 2.000+ executivos do agro leem toda segunda. De graça, sem spam.

Ver todas as edições